Literatura: Valsa para as estrelas

“mais vale ficar olhando para o céu do que morar aqui. Lugar mais vazio, mais vago! Nesta terra o trovão bate e tudo some.” Truman Capote

pintura Edgar Degas

Dançavam num salão celestial. Os pés eram carregados por pequeninas asas. As mãos sopravam de leve pela cintura, como a libélula toca na água. Os rostos se encontravam em narizes empinados e bocas amenas. Um intervalo condensado e eterno entre a proposição e o convite. Duas hesitações. Duas vidas em suspenso, executadas no sentido contrário aos ponteiros do relógio.

Quando acordou, lembrou-se de sua partida. Não acreditava que se fora. Aparecia com tanta realeza naquela noite. Movia-se e seus passos eram sentidos no assoalho. Sua presença era física. Não havia dúvidas.

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Rita Lee – Reza

“É, tudo bem, trabalhar para ganhar a vida, claro! Mas por que é preciso desperdiçar a vida que a gente ganha trabalhando para ganhar a vida?” Quino

álbum Reza

Uma senhora atravessa a rua, o arco, a serra da boa esperança. Rita Lee não esconde os pêlos pubianos (e públicos) nem as rugas vermelhos e negras! O suco gástrico esparramado pela cantora-atriz no divã deglute-se a conta-gotas.

No jardim babilônico que ela escolheu para passar a velhice, reclama como à juventude e pede mais sexo, menos yoga, reflete sobre as drogas (de todos os meios e tipos) ao som do bom rock’n’roll. Mas o ritmo que lhe satisfaz tem frutas e araras.

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Teatro: R & J de Shakespeare – Juventude Interrompida

“‘Hamlet’ seria Hamlet,
Inda que Shakespeare não o criasse,
E ‘Romeu’, embora sem mais lembranças
De sua Julieta,” Emily Dickinson

Romeu e Julieta

É bom conhecer lugares novos. Adentrar outros labirintos. Percorrer solilóquios horizontes, onde na imensidão o vazio e o silêncio ouvem vozes. Neste sentido, a peça ‘R & J de Shakespeare – Juventude Interrompida’, adaptação de Joe Calarco traduzida por Geraldo Carneiro e dirigida por João Fonseca, eleva o mérito.

Banalizando a densidade da história, de fato, pueril e ingênua, sem com isso perder a universalidade e franqueza, do romance entre Romeu e Julieta, o enredo carrega as tintas no humor escracho, focado nos dotes físicos dos atores para tais intervenções.

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Cinema: Audrey Hepburn

“Eu queria te dar a lua, só que pintada de verde
Te dar as estrelas, de uma árvore de Natal
E todo o dinheiro falso do mundo, eu queria te dar” Cazuza

Cinema

Nasce um fiapo de idéia. Magrela, como uma bicicleta de criança que eu não aprendi a andar. Mas veja só, sou criança e ainda não aprendi a andar. Estou mesmo perdido, muito sozinho, esquecido. Ela não. Reside nos sonhos de nuvens de algodão, bolhas de sabão, que se espetam e estouram com o atrevimento infantil.

Magia do cinema. Esta eu aprendi, em pouco tempo, a pedalar. Aquém, sozinho, como não? Mas criança sadia. Enquanto não cresci, as doenças, torturas, maldades de que sou capaz, não me alcançam. Acredite que nem tenho pés de anjo, não ando de bicicleta, ao que plano, flutuo, com sua presença, aquela mão sobre o pescoço me sufocando em êxtase, estupor e agonia, na tela.

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Tonico & Tinoco (Sertanejo & Caipira)

Música caipira

O bule entupido de café fervente até a boca. Panela de barro sobre um fogão a lenha, obviamente, queimada. Queijo e goiabada servidos em cima de uma toalha quadriculada. Tradições do interior brasileiro, caipiras.

Não se ouve um barulho sequer enquanto comem, posto que é hora sagrada, apenas a reza que prenuncia o ato. Farelos de fubá, leite grosso, coalhar o dia revolvendo a palha do cigarro, do milharal, espantalho é sinal de cruz para corvos.

“Nesta viola, eu canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade”

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