Show: Waldir Silva (Choro no palco)

“e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.” Lya Luft

Choro no palco

Entrego-lhe Waldir Silva semanas depois. Temo aprendido a elucubrar a inutileza (inútil gentileza) do que faço. Chego sempre atrasado ao comprometimento, e por isso o que lhe disponho não deve ter a força da utilização. É por demais delicado para o tal alcance de mãos em busca da fruta no último galho, esta tecnologia ainda não involuiu à arte, as palavras, a música.

Creio brincar de gramática errada, mas o fato-leda-fantasia é a varinha de condão do meu ancião passando o macio ferro por sobre os trilhos de um telegrama musical (pombo correio trazido por Deus? Ou Zeus? Ou Hades? Reféns felizes de um gordo Baco, ou a mitologia é mesmo lama e lema.)

“Venho lhe pedir
Que alimente a mágoa a sós
Pois o meu coração achou
A ternura e a paz, sim”

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Show: Elza Soares (Simplesmente, Elza)

“Vou te falar de todo coração
Eu não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar, podes comer meu pão” Lupicínio Rodrigues

Mulata Assanhada

Tantas vezes pisara naquele ambiente, pacato, resguardado (de influências outras), vazio. Mas naquela noite ontem era diferente. Havia uma mística da mulher perigosa estar ali, desinibida, exposta aos olhares, leniente. Isso sem mencionar o estouro de caras inchadas, rostos e bochechas alargadas que ali estavam à espera dela, a esperar por ti, musa-mina, deusa-pagã, voz-sem-medo.

Eu mesmo já havia sido homenageado naquele palco, e disso guardava um secreto orgulho, secreto nem tanto, pois esperava a oportunidade exata para extraviar minha comoção insana. Refratava os piscos de luz que se punham em pirâmides frente à minha percepção. Tudo lembrança dum dia outro agora posto em pedaços, como a xícara quebrada se cola com cola, desafiando meu nariz empinado.

“Que eu voltei pra me humilhar
É, mas não faz mal
Você pode até sorrir
Perdão foi feito pra gente pedir”

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Michael Jackson (Cantores internacionais)

“Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso.
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.” Edgar Allan Poe

Rei do Pop

Acanhando, dentro do que nunca achou poderia ou devia fazê-lo, um rubor toma conta da ousadia involuntária, abismado pela impaciência do condão paterno o tendão se contrai em nervo e dissidência, de repente o rato corre tanto a ponto de esquecer a dor de ter uma pata presa na ratoeira.

Mas a transposição não desfaz a medida e circunstância de ter sido o menino criado por mãos de gancho, servos feitos em imobiliárias, línguas bipartidas de cobra arranjando lugar no estômago para devorá-lo. Parece conto de fadas, mas é horror a vida deste garoto.

“’Cause this is thriller
 Thriller night
 And no one’s gonna save you
 From the beast about to strike
 You know it’s thriller
 Thriller night
 You’re fighting for your life

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Marisa Monte – O Que Você Quer Saber De Verdade

“Descalço no parque
Sozinho eu estou
A esperar por você meu amor” Jorge Benjor

O Que Você Quer Saber De Verdade

Pássaros revoam dos lençóis e perguntam para Marisa Monte: O Que Você Quer Saber de Verdade? Ela, dançarina dos redemoinhos responde com a interrogativa flexão de sobrancelhas que lhe é característica. Todo o disco novo da cantora permeia a indecorosa sensatez de sua voz sigilosa.

Caminha bem arrumada pela manhã, fronha do travesseiro amassada, olhos de girassol na janela embaçada, um atento esperar pelo amor que retém, “Descalço no Parque”. Trilha férrea dum Roberto Carlos no radinho de pilha avista a memória em “Depois”.

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Paul McCartney (Cantores internacionais)

“(…) Deixo-as, como estalactites em meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda… Tudo está na palavra…” Pablo Neruda

Beatles

Uma página literária para Paul McCartney. Não sou esse jornalista típico. Copo de uísque, estante à esquerda, na mesa o teclado. Da caverna vem com barbante no polegar. A camisa jeans sobre ombreiras vermelhas-amarelas-azuis do sargento Pimenta.

Mas um menino sai de casa à perigo, frouxo, trouxa nas costas igualando a esfera da lua minguante, presumindo assumir a forma de um ritmo elétrico, por isso ela aceita convicção e circunstância de osso de caveira, na boca do cachorro dobra a esquina e o rabo abana, uma melodia, nota, timbre…

“What if it rained?
We didn’t care
She said that someday soon
The sun was gonna shine.
And she was right,
This love of mine,
My valentine

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