Teatro: Palácio do Fim

“Casca oca:
a cigarra
cantou-se toda.” Bashô

Camila Morgado

Toma conta a emoção como sola de sapato gasta, essa expressão milenar. Mas é a verdade. Num trabalho convicto, construtivo, gentileza de artesão. Casinha de João de Barro, inspeciona dos gravetos ao pôr do sol (vermelho rubro a chatear).

Os discursos costurados, linha de algodão, plumas de flores brancas, soltas, Deus desunindo todo num só chavão: ‘humano, demasiadamente humano’, pego emprestado o livro empoeirado de Nietzsche, na biblioteca das minhas obsessões. Pesado texto, num pesar Cristo.

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Show: Los Hermanos

“Moça, olha só, o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar e perceber
Que a estrada vai além do que se vê” Marcelo Camelo

Marcelo Camelo Rodrigo Amarante

Não, não fui eu quem assisti ao mesmo show do Los Hermanos que você. O que vi foi outro. Cada qual lunática lente lírica. Naquela minha adolescência, eu divulgava minhas longas tranças Rapunzel, presas por uma bandana verde-água, Cazuza estampava a frente da camisa de igual coloração.

Os olhos, como duas persianas repuxadas, eram esteiras que teimavam moles em ojeriza ao esgoto claustrofóbico. Era preciso força para se manter alerta, no meio de toda a confusão limitável da vida do palhaço da lagartixa. Espelhos recorrentes numa lousa de hastes.

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Donna Summer (Cantoras internacionais)

“Toca minha mão.
Quem fez o amor não vazará meus olhos
porque busco a alegria.
A vida não vale nada, (…)
Olha-me para que ardam os crisântemos
e morra a puta
que pariu minha tristeza.” Adélia Prado

Rainha Disco Music

Não é fácil dizer adeus a uma pessoa que conhecemos pouco, ao mesmo tempo tanto. Principalmente quando nos convém dançar, vem à tona alto falantes em auto e bom som, como burro (pantera) cor de rosa recém saída da fornalha. Rainha ditosa.

Quantas foram as voltas que os teus caracóis deram em torno dos meus ouvidos, grudando chiclete chinês olhos tampados de escuro, despertos ao sol irradiador. Igrejas e capelinhas, mesmo as mais entusiasmadas, soaram ineficazes para cobrir o desespero-lunático de teus fãs.

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Emicida – Rap & repulsa

“Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância,
Sóis e sombras.” Hilda Hilst

Rap

Dentre as acusações correntes que se protocola contra o rap está a de que acabou com a canção, além de incitar a violência e derrocar numa linguagem chula sem direito a aparador.

Do exílio, lírio branco maquiado de fuligem, o instinto sacode as aparências e gravita intencional, direto, frente a frente, olho no olho, dedo na ferida.

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Literatura: Valsa para as estrelas

“mais vale ficar olhando para o céu do que morar aqui. Lugar mais vazio, mais vago! Nesta terra o trovão bate e tudo some.” Truman Capote

pintura Edgar Degas

Dançavam num salão celestial. Os pés eram carregados por pequeninas asas. As mãos sopravam de leve pela cintura, como a libélula toca na água. Os rostos se encontravam em narizes empinados e bocas amenas. Um intervalo condensado e eterno entre a proposição e o convite. Duas hesitações. Duas vidas em suspenso, executadas no sentido contrário aos ponteiros do relógio.

Quando acordou, lembrou-se de sua partida. Não acreditava que se fora. Aparecia com tanta realeza naquela noite. Movia-se e seus passos eram sentidos no assoalho. Sua presença era física. Não havia dúvidas.

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