Luiz Gonzaga (Cantores brasileiros)

“E o sol, puro e cruel, espalhado por cima de tudo.” Clarice Lispector

Rei do Baião

Quando aquele menino de cabeça achatada e ombros caídos fugiu de casa, no interior de Pernambuco, para servir ao Exército, ninguém imaginava que o que ele faria seria uma verdadeira revolução na música brasileira.
Talvez nem mesmo ele.

Mas aqueles ombros caídos haviam sido feitos na medida exata para se abrigar uma sanfona, e aquela cabeça achatada tinha sido especialmente escolhida para se usar sobre ela um chapéu de vaqueiro.
Mas não um chapéu de vaqueiro qualquer.
Era o chapéu de vaqueiro do Rei do Baião.

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Artes Plásticas: De Chirico

“Estou tateando a ogiva de um amor sem matéria.” Araripe Coutinho

Giorgio de Chirico

Para quem fuma a escada é pesada, bruto. Faz-se poesia com o chão, encerador e marcenaria. “E o que devo amar senão o enigma?” pergunta meu Giorgio de Chirico. Meu, intransferível, concreto, posse, escapa como tudo onde é possível deitar as mãos, arquitetura das águas.

Conceda-me essa prevalência, num habilidoso circunflexo de palavras, cacoetes e cocurutos. Criaturas estranhas: unicórnio, sereia, saci, minotauro. Tutano, taciturno, boto. Tremula a bandeira no alto as ruínas da Grécia, Líbano, afegãos e banidos, pleonasmos e hipérboles. Prefiro me abster das coisas aquelas farão com que desista, de você.

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Literatura: Glória, Glória, Aleluia! – Você é o que você come (?)

“Os homens tem medo daqueles que personificam a vida que eles não viveram.” Oscar Wilde

Glória, Glória, Aleluia

Prodígio já nasceu chorando.
Não queria aquele nome.
Sua mãe, Glória prontamente o repreendeu.
E ele nunca mais chorou.
Quando completou um ano de idade pediu de presente uma mamadeira.
Recebeu um saboroso McLanche Feliz.
Aos 2 entrou na escola.
Seu melhor amigo era Nelson.
Fofocava com Guimarães.
Aos 3 quis ter um gato.
Ganhou um cachorro.
Queria chamá-lo Raul.
A mãe o chamou Jobim Tom.
Aos 4 chegou ao Exército.
E experimentou a liberdade.

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João Gilberto (Bossa Nova)

“A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada.” Adélia Prado

Bossa Nova

“- João, acorda João!” Disse a mãe do menino que inventaria a bossa nova. Ele, incomodado, respondeu: não faz barulho mãe, que o som do silêncio é a melhor música.

Não se enganem vocês, pensando que daí surgiu o mote para o movimento. Como passarinho, João queria voar, só que nascera cego, e os olhos que ele via eram as cores do arco-íris, sete notas musicais em fileirinhas.

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Humor: Avenida Brasil

“Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.” Augusto dos Anjos

Nina e Carminha

Viajei para o interior de Minas Gerais e constatei que Débora Falabella mantém o mesmo sotaque dos tempos em que ainda morava em Belo Horizonte. Esta mania de comer as letras finais e primeiras, deixando só o sumo do interesse entre dentes é patrimônio histórico desta terra.

Na pele da malvada / boazinha Nina, a menina de boneca de pano numa das mãos e faca afiada na outra protagonizou ao lado de Adriana Esteves uma das cenas mais comentadas nos últimos dias. Digo isto pois peguei um ônibus da capital para a cidadezinha interiorana e afirmo: tudo que supera as grades e porteiras da periferia homérica é digno de nota.

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