Show: Elba Ramalho (canta Luiz Gonzaga)

“A Rosa modesta eriçou um espinho,
A humilde Ovelha um chifre ameaçador;
E o Lírio branco num deleite de Carinho,
Nem espinho ou ameaça, mas a luz e o esplendor.” William Blake

Elba canta Gonzaga

Elba Ramalho adentra a noite com claros olhos da manhã. Toda a beleza que vi não cabe num parágrafo. Tigre alaranjado, de tiras pretas no dorso, desperta rasgando palmeiras verde-escuro. Ruge e urde, pés vermelhos, terra batida, roda a saia amarela, lilás, reclina o colo, solta a voz, brinda e arranha e corta e gira e morde com seu espetáculo.

Elba Ramalho é assim tão sonsa e sina a nossa saboneteira. Não está ali para brincadeira. Está só para brincadeira e improviso e espontânea esbarra nos erros toda vez sem abrutamento ou dedicação ao palco. É pura dedicação ao palco. Por isso desfila como na vida, ensaia mas deixa o momento tomar conta, com sua mania de ser irreverente e estragar os planos dos metódicos.

Veja mais

Vinicius de Moraes (Bossa Nova)

“A própria felicidade é dolorosa.” Vinicius de Moraes

Poetinha Bossa Nova

Sentado no meio de sua sala, com um copo de uísque na mão, cabelos longos, lisos e grisalhos, lá estava ele, rodeado por amigos que adoravam rir de suas piadas, cantar seus poemas, ouvir suas histórias de amor e tocar as músicas que eram feitas com suas letras. Amigos que sabiam que sem ele aquela comunhão não seria possível. Vinicius de Moraes chamava a todos por diminutivos, como prova de seu imenso carinho.

O poetinha, como ficou conhecido por conta dessa carinhosa mania, era um reconhecido galanteador, um poeta indiscutível, um letrista que fazia do simples a obra de sua arte, um homem apaixonado que exaltou o amor a vida inteira. Exaltou as mulheres e as belezas brasileiras. Quem poderia dizer que aquele diplomata demitido pelo governo militar se tornaria um dos maiores poetas do nosso país?

Veja mais

Show: Falamansa (As Sanfonas do Rei)

“É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante…” Florbela Espanca

Forró na Torre

Porque o show na companhia dos amigos é sempre confortante. Estou bonzinho hoje, sem demagogia. Fui assistir ao “Falamansa”, o Forró que já não é lá meus pés de patas nem quadris de gazelas. Mas a minha cara, pouco suada em conferência aos demais, é a de Luiz Gonzaga.

Foi por isso e para vê-la, à bailarina, ah, vocês não sabem, precisam vê-la dançar e rodopiar por serpentinas e confetes absolutamente invisíveis e claros enquanto dança, e provoca uma aceleração ínfima, de tão bonita é o sorriso da bailarina. Sim, ela não sorri com os dardos disparados em frente ao arco. Ela é a flecha duma índia abismal e antecedente, muito antes da dança ser séria.

Veja mais

Teatro: Ensina-me a viver

“No pórtico de Belém
os ciganos se congregam.
São José, cheio de chagas,
amortalha uma donzela.
Teimosos fuzis agudos
pela noite reverberam.
A Virgem cura os meninos
com salivinha de estrela.” García Lorca

Glória Menezes Teatro

Da onde vem o riso? De onde vem à morte? Sóis, vida. Inúmeras despedidas. O humor pode aparecer na parede, num relance, na casca ou na bola de um sorvete. Os negros fiapos de pera apodrecida descascados em cena pela faca amolada de Colin Higgins ajudam a enternecer, entreter e tecer o suco de coloração creme e seca da peça “Ensina-me a Viver”.

Nas claquetes cinematográficas arrastadas em princípio qual cortinas de castelos belgas, logo a influência mórbida dos ingleses tilinta os talheres. Há um veneno de serpente no chocalho do réptil feminino cascateado no vestido da mãe. Persegue o rabo e morde o próprio filho. Uma dinamite prestes a explodir. Vulcão em erupção. Fios da cerca eletrificada.

Veja mais

Show: Ney Matogrosso (Beijo Bandido)

“não se destinam a sustentar outra coisa senão a famosa libélula de abdômen mole e pesado como o bloco de chumbo maciço onde ela foi esculpida de forma sutil e etérea, bloco de chumbo concebido (por seu ridículo excesso de peso que introduz, no entanto, a ideia necessária de gravidade)” Salvador Dalí

A libido altiva de Ney Matogrosso, o gato arisco e maroto a ronronar de alforria e encanto. É a libertação do gozo, do jovem velho moço homem mulher caubói macaco, do porte de seus mais de 70 anos, do alto das árvores em troncos rijos e bem arraigados, na moleza do quebranto.

Requebra e horroriza, ojeriza a caretas e línguas voláteis demais, sensíveis de sais, mergulhadas em água de mar, rio doce, bentas. Ney Matogrosso professa amargura e medo, aventura e vento, enquanto mexe a colher de pau do voluptuoso caldo de bruxas e maçãs pecaminosas.

Veja mais