Show: Zé Ramalho & Banda Z

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!” Augusto dos Anjos

Zé Ramalho Chão de Giz

Detrás das neblinas, perde-se de vista o horizonte, um carneiro é sacrificado em nome do Pai, um velho conduz o rebanho com o cajado, feito de madeira, arame, esculpido por mãos comidas por rugas e outros animais que vêm a ter sabedoria pelas profecias dele: o homem.

O homem é desde os primórdios o mais inteligente de todos os animais, e de longe o menos sabido. A intuição conservada nos seres puros perdeu-se com a progressão dos anos, meses, milênios, pouco restou do que havia de lúdico, frutífero, ingênuo.

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Show: Renato Teixeira & Banda

“a coisa não está nem na partida e nem na chegada. Está é na travessia.” Guimarães Rosa

Romaria

O irredutível carisma de Renato Teixeira segue tocando a boiada. Como legítimo mártir da música caipira, o homem da barba branca, dos cabelos brancos, põe a viola dentro da sacola e vai viajar. Convida-nos a ir com ele: seus filhos (nascidos e criados) de uma sincera amizade.

Por entre estradas de ferro e terra, trilhos de trens e cores, referências a Caetano Veloso e Sérgio Reis, soa o berrante do segundo e a São Paulo do primeiro: duas musas inspiradoras do franzino homem do interior que “anda devagar porque já teve pressa, e leva esse sorriso porque já sofreu demais”, entoa junto com o coro da plateia o sucesso bisado por Almir Sater.

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Show: Fafá de Belém (canta Antônio Maria)

“Busque amor novas partes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças,
que não pode tirar-me as esperanças;
que mal me tirarão o que eu não tenho.” Camões

Fafá de Belém canta Antônio Maria

Falta a Fafá o recato, a contenção, e o esmero para que a apoteose perene da voz inflamada da cantora acompanhe o ciclone de emoções que a destilada música pretende passar. Em doses sempre homéricas (nunca homeopáticas), como é do pavio aceso da nativa mulher de Belém, à vontade em cena como na sala de casa, o que em alguns casos soaria salutar, neste remendo acaba despropositado.

O homenageado da noite, outro nortista, pois que nordeste e norte se embaraçam na salada recheada de frutas de Fafá, era Antônio Maria, sutil na sintonia com o repertório acalorado e confessional da intérprete. O mérito maior da apresentação do projeto “Compositores.BR” no palco do Sesc Palladium esteve na reverência atrevida.

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Dança: Funk (Carioca)

“O não dizer é o que inflama
E a boca sem movimento
É que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama.” Hilda Hilst

Funk Carioca

Um corpo nu está dançando. Balança-se desavergonhado. O pudor não existe na terra (treme) onde dança – o corpo nu. Moral não existe na terra (bate) onde dança – o corpo nu. Caroço cuspiu-se violentamente, exibindo ventre, nádegas, seios, as malditas reprimidas escapolem. Chupa-se a fruta do início ao final, passando por suas veias, sentindo o gosto híbrido da semente rija e macia.

O corpo nu está dançando. Agora não um, são muitos. Orgia regada a vinho e liquidez maciça, libido e ardilosa língua a perpassar orelhas. O quadril dilata-se, o centro do mundo é o verniz da mulata. Brilha o pedaço apertado num short compacto, desprevenido, munido de pele à mostra. O quadril é todo dos ares – entorna, rebobina, desfaz o movimento, avança na direção do explosivo: fogosa mulata, quadril, dançarina.

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Cinema: Habemus Papam

“A beleza será convulsiva ou não será.” André Breton

Filme de Nanni Moretti

O cinema, não se deve tomar por inteiro. É um facho de luz, um feixe na cortina, o olhar, de quem filma. Um tacho de mel, a raspa da rapadura, o escândalo que nos vaticina. Sobre disso nos fala Nanni Moretti, no filme dele: “Habemus Papam”. Quero privilegiar as cenas de que me contaram, das quais nem o meu olhar foi refém. Não aguentei frequentar a saga do doloroso Papa em martírio. Por sono, pena, chuveiro quente à minha espera.

O cineasta italiano, que também atua no filme como um inveterado psicanalista, tenta em vão usar de conhecimento técnico para ‘curar’ o Papa, interpretado pelo veterano e bom de guerra Michel Piccoli, explicitando que suas teorias talvez sejam tão furadas e crentes num Deus como a da Igreja Católica, alvo do esbalde crítico do diretor.

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