Teatro: Ensina-me a viver

“No pórtico de Belém
os ciganos se congregam.
São José, cheio de chagas,
amortalha uma donzela.
Teimosos fuzis agudos
pela noite reverberam.
A Virgem cura os meninos
com salivinha de estrela.” García Lorca

Glória Menezes Teatro

Da onde vem o riso? De onde vem à morte? Sóis, vida. Inúmeras despedidas. O humor pode aparecer na parede, num relance, na casca ou na bola de um sorvete. Os negros fiapos de pera apodrecida descascados em cena pela faca amolada de Colin Higgins ajudam a enternecer, entreter e tecer o suco de coloração creme e seca da peça “Ensina-me a Viver”.

Nas claquetes cinematográficas arrastadas em princípio qual cortinas de castelos belgas, logo a influência mórbida dos ingleses tilinta os talheres. Há um veneno de serpente no chocalho do réptil feminino cascateado no vestido da mãe. Persegue o rabo e morde o próprio filho. Uma dinamite prestes a explodir. Vulcão em erupção. Fios da cerca eletrificada.

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Show: Ney Matogrosso (Beijo Bandido)

“não se destinam a sustentar outra coisa senão a famosa libélula de abdômen mole e pesado como o bloco de chumbo maciço onde ela foi esculpida de forma sutil e etérea, bloco de chumbo concebido (por seu ridículo excesso de peso que introduz, no entanto, a ideia necessária de gravidade)” Salvador Dalí

A libido altiva de Ney Matogrosso, o gato arisco e maroto a ronronar de alforria e encanto. É a libertação do gozo, do jovem velho moço homem mulher caubói macaco, do porte de seus mais de 70 anos, do alto das árvores em troncos rijos e bem arraigados, na moleza do quebranto.

Requebra e horroriza, ojeriza a caretas e línguas voláteis demais, sensíveis de sais, mergulhadas em água de mar, rio doce, bentas. Ney Matogrosso professa amargura e medo, aventura e vento, enquanto mexe a colher de pau do voluptuoso caldo de bruxas e maçãs pecaminosas.

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Cinema: Para Roma, Com Amor

“Porque criar uma obra de arte, se sonhar com ela é tão mais doce?” Giotto (Pasolini – Boccaccio)

Woody Allen

Woody Allen é contumaz usurário em esfregar nas fuças com pano de chão torcido e pia pingando uma única gota: o absurdo, crível e ridículo da sobriedade nossa de cada dia. Sim, não há nada de alucinante no homem cantando ópera debaixo do chuveiro, no mísero desconhecido sendo atacado por repórteres como migalhas por roliças pombas, nem nos desfechos e fechos a tetra-chave dos relacionamentos amorosos.

Para Roma, Com Amor – cartão postal timbrado a água da Fontana di Trevi, só pode ser subversivo porque decide colocar essas situações sobre o pano da caixa sem fundo do mágico de araque. Bingo! Araponga perfeita para o ataque do escrutínio do diretor: o homem debaixo do chuveiro cantando ópera debocha da moderna arte; o mísero desconhecido fugindo qual pomba desdenha das célebres celebridades; e entre outras veleidades o amor perfeito e convicto de fábulas é tão superficial quanto comer sopa de garfo.

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Luiz Gonzaga (Cantores brasileiros)

“E o sol, puro e cruel, espalhado por cima de tudo.” Clarice Lispector

Rei do Baião

Quando aquele menino de cabeça achatada e ombros caídos fugiu de casa, no interior de Pernambuco, para servir ao Exército, ninguém imaginava que o que ele faria seria uma verdadeira revolução na música brasileira.
Talvez nem mesmo ele.

Mas aqueles ombros caídos haviam sido feitos na medida exata para se abrigar uma sanfona, e aquela cabeça achatada tinha sido especialmente escolhida para se usar sobre ela um chapéu de vaqueiro.
Mas não um chapéu de vaqueiro qualquer.
Era o chapéu de vaqueiro do Rei do Baião.

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Artes Plásticas: De Chirico

“Estou tateando a ogiva de um amor sem matéria.” Araripe Coutinho

Giorgio de Chirico

Para quem fuma a escada é pesada, bruto. Faz-se poesia com o chão, encerador e marcenaria. “E o que devo amar senão o enigma?” pergunta meu Giorgio de Chirico. Meu, intransferível, concreto, posse, escapa como tudo onde é possível deitar as mãos, arquitetura das águas.

Conceda-me essa prevalência, num habilidoso circunflexo de palavras, cacoetes e cocurutos. Criaturas estranhas: unicórnio, sereia, saci, minotauro. Tutano, taciturno, boto. Tremula a bandeira no alto as ruínas da Grécia, Líbano, afegãos e banidos, pleonasmos e hipérboles. Prefiro me abster das coisas aquelas farão com que desista, de você.

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