Cinema: Habemus Papam

“A beleza será convulsiva ou não será.” André Breton

Filme de Nanni Moretti

O cinema, não se deve tomar por inteiro. É um facho de luz, um feixe na cortina, o olhar, de quem filma. Um tacho de mel, a raspa da rapadura, o escândalo que nos vaticina. Sobre disso nos fala Nanni Moretti, no filme dele: “Habemus Papam”. Quero privilegiar as cenas de que me contaram, das quais nem o meu olhar foi refém. Não aguentei frequentar a saga do doloroso Papa em martírio. Por sono, pena, chuveiro quente à minha espera.

O cineasta italiano, que também atua no filme como um inveterado psicanalista, tenta em vão usar de conhecimento técnico para ‘curar’ o Papa, interpretado pelo veterano e bom de guerra Michel Piccoli, explicitando que suas teorias talvez sejam tão furadas e crentes num Deus como a da Igreja Católica, alvo do esbalde crítico do diretor.

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Show: Cauby Peixoto (A Voz do Violão)

“o universo é pouca coisa comparado à vastidão de uma fronte pintada por Rafael.” Salvador Dalí

Cauby Conceição

Estou procurando uma inspiração com a foice. Estou no deserto, onde caminho rente ao chão, procurando uma inspiração com a foice. Mas com a foice não se consegue inspiração, nem se captura inseto, relva, ou a flor da mais doce. O instrumento incorreto, vezes outras, pode ser a arma da glória. A bajulação precede mesmo os minutos afoitos de sua entrada triunfal.

Vem o cônego, apoiando nos próprios ombros o peso daquele homem a quem todos conclamam, o peso daquela voz insustentável. A cadeira lhe foi construída especialmente, está certo que a memória falha, mas a voz, suprema, se mantém, rente ao chão do deserto estou procurando uma inspiração com a foice. Ela chega. Cauby ergue o cetro: começa a cantar.

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Teatro: Hell

“cada um de nós, de repente, vai morrer em algum momento terrível e aterrorizar todos os nossos amantes e apodrecer o mundo – e estragar o mundo” Jack Kerouac

Bárbara Paz

A infernal Bárbara Paz está de volta em “Hell”, que me desdiga seu sobrenome. A atriz divide com a iluminação o posto de principal atração do espetáculo, dirigido por Hector Babenco e adaptado de livro da escritora francesa Lolita Pille.

Pílulas e pílulas são engolidas por Bárbara na mesma proporção e medida em que esta fuma seu cigarro indevassável, cheira o pó branco da mortífera cocaína e se deleita entre cortes e costuras das roupas e marcas que se insinuam tão descartáveis quanto ela mesma.

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Arrigo Barnabé (Cantores brasileiros)

“A flor na jarra de manteiga de cacau que estava antes na cozinha, contorcida para chegar até a luz,
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.” Allen Ginsberg

Clara Crocodilo

Turva felicidade a de Arrigo Barnabé. Essa que se agarra às ostras, que se agarra às algas. Ainda assim, espontânea. Ainda assim, clandestina. Tal e qual uma flor de Clarice Lispector, que ao “se erguer, parece quebrar-se”.

Quando emerge do pântano, sob o relento do olhar de crocodilos, espia uma luz clara que tamborila de instrumentos multicoloridos: ali está Schoenberg, e sua escala de arco-íris sem tom.

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A homossexualidade na música de Cazuza

“O mundo é azul
Qual é a cor do amor?” Cazuza

Exagerado

Cazuza foi um dos mais importantes cantores e compositores da década de 80, tendo sido um dos principais personagens do rock nacional que se instalou definitivamente na música brasileira a partir dali. Em sua obra, a representação da homossexualidade não se deu de forma linear e única, pelo contrário, Cazuza tocou de diversas formas no assunto, a maioria das vezes nas entrelinhas e através de metáforas, como era seu estilo.

Além de ter se assumido bissexual publicamente, Cazuza foi um dos compositores mais importantes na música popular brasileira na abordagem do tema, por tê-la feito de tantas maneiras tão distintas em mais de 10 canções durante a breve carreira, de1982 a1990.

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