Wando (Romantismo)

“Menina, deixa que eu erga
teu vestido para ver-te.
Abre em meus dedos antigos
a rosa azul de teu ventre.” García Lorca

Cantor das calcinhas

O artista popular alimenta-se das carícias do público. Numa tenda de frutas, debaixo de um sol de meio dia, o menino criado no interior de Minas Gerais, vendia seu peixe. Quando apareceu num belo dia um ilustre cliente: Jair Rodrigues era seu nome. Alto, esbelto, sensual, cantava sambas ao lado de Elis Regina na televisão, e decidiu levar aos palcos a música do menino das frutas.

Wando imediatamente estourou nas paradas de sucesso, mas à distância, assistindo embevecido ao êxito de sua composição através das repetições radiofônicas. Logo, quis conhecer ele próprio o afago do público. Investiu-se de uma sensualidade consentida, num acordo tácito entre ele e a plateia ficaria provado que para se conseguir carinhos não eram necessárias mais do que meias palavras, cantadas ao pé do ouvido, com charme e saliência.

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Fernanda Brum (Música gospel)

“Se eu existo, logo Deus deve existir também. É uma gentileza que faço com um desconhecido.” Lobão

Cantora Gospel Pavão pavãozinho

O sobrenome lembra bruma. Desconhecida, fumegante. Plana plena pluma. Fernanda caminha por entre nuvens disformes, a colher os espinhos das rosas. Os espinhos, forma pontiaguda, esverdeada, negra na parte afiada, da coroa do Cristo. Pouco lhes lançamos olhares.

Porque neste segmento, ou em qualquer outro, a vermelhidão da flor investe-nos mais medo, ameaça, vertigem, vendagem? Fernanda clama ao outro lado, sem esquecer o fardo pesado e feio das calamidades. Toca na superfície da beira, na galhada menos baixia, na bexiga cheia: esvazia. Num único sopro de vento.

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Criolo – Rap Na Orelha

“O pássaro é livre na prisão do ar.
O espírito é livre na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.” Carlos Drummond de Andrade

Nó Na Orelha

Tartamudeando a música estava ali abandonada, rejeito, até que o sujeito chegou para pegá-la. Guardou-a como uma tartaruga fora da casca, por descuido da mãe ou dos entes próximos. A música, pequenininha, singular, desprotegida, indefesa, precisa de guarda-chuva.

Não pode ficar ao relento, aguardando pingos grossos, finos, violentos. Enxurradas vorazes deixaram a música com aquela cara de cachorro pidão, pinto no lixo, molhado gato. Sem os pelos aparados, bem penteados, alisados, a música tem aparência amedrontada.

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Show: Zé Ramalho & Banda Z

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!” Augusto dos Anjos

Zé Ramalho Chão de Giz

Detrás das neblinas, perde-se de vista o horizonte, um carneiro é sacrificado em nome do Pai, um velho conduz o rebanho com o cajado, feito de madeira, arame, esculpido por mãos comidas por rugas e outros animais que vêm a ter sabedoria pelas profecias dele: o homem.

O homem é desde os primórdios o mais inteligente de todos os animais, e de longe o menos sabido. A intuição conservada nos seres puros perdeu-se com a progressão dos anos, meses, milênios, pouco restou do que havia de lúdico, frutífero, ingênuo.

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Show: Renato Teixeira & Banda

“a coisa não está nem na partida e nem na chegada. Está é na travessia.” Guimarães Rosa

Romaria

O irredutível carisma de Renato Teixeira segue tocando a boiada. Como legítimo mártir da música caipira, o homem da barba branca, dos cabelos brancos, põe a viola dentro da sacola e vai viajar. Convida-nos a ir com ele: seus filhos (nascidos e criados) de uma sincera amizade.

Por entre estradas de ferro e terra, trilhos de trens e cores, referências a Caetano Veloso e Sérgio Reis, soa o berrante do segundo e a São Paulo do primeiro: duas musas inspiradoras do franzino homem do interior que “anda devagar porque já teve pressa, e leva esse sorriso porque já sofreu demais”, entoa junto com o coro da plateia o sucesso bisado por Almir Sater.

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