Literatura: Hilda Hilst

“Ah, fui sempre
A das visões tardias!
Desde sempre caminho entre dois mundos

Mas a tua face é aquela onde me via
Onde me sei agora desdobrada.” Hilda Hilst

Sete cantos do poeta para o anjo

É difícil decifrar-se, ainda mais se tratando de Hilda Hilst. A escritora nascida em Jaú, no interior de São Paulo, que passou boa parte da vida na ‘Casa do Sol’ em Campinas, sítio construído para inspirar-se em meio aos astros, cachorros e terras que tanto admirava, foi uma das mais provocativas e líricas de seu tempo.

Qual o tempo de Hilda Hilst? Talvez o passado, arrisco o presente, o certo é que sua obra tramita numa confluência entre o douro do trigo, ainda tenro, e a madurez do pão na boca dos filhos aflitos, sozinhos, extremos.

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Entrevista: Elisa Freixo

“caixas vazias, flores secas dentro de um livro,
chamam em circunstâncias solitárias
e deve-se abrir, e ouvir o que não tem voz,
deve-se ver as coisas que não existem.” Pablo Neruda

Organista da Sé de Mariana

A distância entre Alemanha e Brasil parece pequena para Elisa Freixo. Igualmente acontece o feito entre a música de concerto e a arquitetura histórica de cidades como Mariana, Ouro Preto e Tiradentes. “O repertório está ligado à história dos instrumentos, foi na segunda metade do século XVIII que os órgãos mineiros foram instalados”, afirma.

Organista consagrada e requisitada, a musicista apresenta neste final de semana e no próximo dia 7 de dezembro, nas cidades citadas, as músicas do novo disco, gravado no país da capital Berlim, convidada pela igreja Waltersdorf, onde ocorreu o registro. “Eles querem dar início a uma série chamada ‘Monographien’, com várias gravações feitas em órgãos históricos dessa região”, diz.

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Entrevista: Elza Soares

“Ai, minhas blusas de linha!
Ai, meus quadris de amapola!
Com a água das cotovias,
Soledad, teu corpo molha,
e deixa o teu coração
em paz, Soledad Montoya.” García Lorca

Entrevista com a cantora do milênio

“Você já ouviu a voz que toma corpo? Da favela vem magra, faminta, intacta e assim permanece. Carrega a cabeça uma lata d’água e nas mãos uma prece, que se estende aos quadris da mulata assanhada, sobe pelas paredes. E alcança no céu um Ary Barroso e um Louis Armstrong. É a mistura sem jeito, sem tato, aos barrancos, mancando ao sapato um tamanco de barro, suor e pilão. Chame de bossa negra, suingue, jazz, funk ou samba na avenida. Ela apenas destila o que chama de corpo é a voz que arrepia: Elza Soares da vida, patrimônio mal resolvido num país de descidas, sucata e música aborígene”, declama a cantora, ao telefone, os versos que lhe escrevi em homenagem.

Emocionado, confabulo outras considerações elogiosas, a respeito da voz performática de Elza Soares, extremamente intocável e física, mas  logo sou interrompido. Ninguém melhor do que a intérprete, que se apresenta amanhã, dia 2, às 15h, na Savassi, com o show “Deixa a Nêga Gingar”, em razão do Dia Nacional do Samba, para falar da própria garganta. “É um presente de Deus, com ela faço tudo que quero, pois tem malícia, dengo, força, é rouca, agressiva e jocosa”, enumera.

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Artes Plásticas: Mark Rothko

“A violência das cores, no primeiro momento, assusta-nos. Depois, as tonalidades se amaciam, as nossas pupilas absorvem os raios…” Murilo Rubião

Artes Plásticas

Olhou a primeira vez uma tangerina. Não sabia distingui-la de laranja ou mexerica. Nem tocou-a, mas um áspero farfalhar dos gomos, entupidos de polpa fresca, igualara-se à lembrança de folhas quebráveis como um galho seco.

O suco não aparente era saboreado em oposição ao som da fruta maciça. Dentro dela um mundo desconhecido, repleto de sonhos e conjecturas improváveis. Poderia brotar um dente, uma boca, ou orelha.

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Entrevista: Geraldo Azevedo

“Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.” Hilda Hilst

Bicho de Sete Cabeças II

“O ser humano é maluco, cria coisas contra ele”, diz o compositor Geraldo Azevedo, autor do infindável sucesso “Bicho de Sete Cabeças II” (ao lado de Zé Ramalho e Renato Rocha), recentemente revisitado por Ney Matogrosso no espetáculo “Beijo Bandido”, assistido de perto pelo entrevistado na estreia carioca. “O Ney é impressionante, valorizou ainda mais o que já era maravilhoso, aquela performance é o gol!”, entusiasma-se.

O que não anima Geraldo é o rumo das águas no mundo, antes acostumadas a peixes, limpeza e ar puro. “As pessoas não acreditam que o planeta pode mudar, as iniciativas de revitalização são todas muito tímidas, enquanto o desmatamento, a poluição, e os maus tratos são contínuos”, desabafa.

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