Entrevista: Rodrigo Faour

“Tem amor de raça e amor vira-lata
Amor com champanhe, amor com cachaça
Amor nos iates, nos bancos de praça (…)
Mas não interessa, o negócio é amar!” Dolores Duran

Autor da biografia de Dolores Duran

“Um prodígio, um gênio, dessas personalidades difíceis de explicar”. Essas adjetivações são usadas com recorrência por Rodrigo Faour, autor da biografia de Dolores Duran (A noite e as canções de uma mulher fascinante; editora Record; 558 páginas; R$49,90), para salientá-la, e acrescenta: “Ela tinha um bom gosto impressionante, detestava cafonices”.

Esse bom gosto pode ser atestado através das parcerias que a cantora e compositora, morta aos 29 anos em virtude de uma parada cardíaca, empreendeu ao longo da carreira. Rodrigo destaca com propriedade (produziu em 2010 caixa com todos os álbuns de carreira da intérprete), as uniões musicais com Tom Jobim, Carlos Lyra e Billy Blanco, que foi também namorado de Dolores.

Veja mais

Artes Plásticas: Oscar Niemeyer

“Os homens constroem também de acordo com as leis da beleza.” Karl Marx

Oscar Niemeyer

O homem qualquer caminha entre dois muros. Num deles, a poça d’água convida ao mergulho. Porém é ateu. No outro, o cimento une-se ao tijolo dando-lhe o aspecto de barro. Então crê em Deus, vê a costela de Adão a transmutar Eva. Enxerga. O milagre nas reluzentes vestes (desaba o concreto), engenhosas.

Mas os muros a que se ergueram põe na cabeça do homem uma dúvida. Por sobre eles diversos outros, engalfinhando-se, disputam, desarmônicos. Falta-lhes música, notas, acordes. Escuta a Sinfonia de Mozart. Talvez a Fuga de Bach. Urros do comunismo em Marx agarram-lhe a partir das entranhas e estouram os tímpanos.

Veja mais

João do Vale (Cantores brasileiros)

“A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce.” Ângelo Silésio

a ema gemeu

Rude João Batista. Do Vale, donde emergem misérias amarelecidas. Que o tempo não carcomeu, pois Carcará se enganchou sobre vestes rasgadas, com olhos de furar o sol. Profeta do norte, repentista sem pátria. Cabeça na bandeja de palha. A ema gemeu quando esqueceram teu parto.

Tal retirante legou em cada canto um aviso, gemido, burburinho. Num arrasta-pé sem vergonha, com muita alegria. Nutrido à carne escassa, seca mandioca, picardia. Mas se dança e belisca numa danação arredia, pouco tímida, que lança e provoca enquanto espia. Malícia de ventre em véu, sem amarras nem covardias.

Veja mais

Beethoven (Música clássica)

“o sonho louco de Beethoven com seu egoísmo, a perfeição e o equilíbrio de Bach e Mozart, a explosão da tonalidade pelo lado da extremidade dos acordes através de Debussy e pelo lado interno do acorde através de Wagner. (…) Nesses lugares, quando você faz o primeiro tartamudeio é como se a gênese acontecesse de novo.” Tom Zé

Música clássica

Uma vida romântica. Só queria uma vida romântica. O homem cinza, dentro de si: a Música resplandecente; Majestosa. Movimento dos contrastes, dos instrumentos, das cachoeiras, dos sons, da Vida & Morte. Ensaio. Uma vida romântica. Só queria, uma vida romântica.

Chega a ser inacreditável a Tua Morte. Surdez da alma; suicídio. Exuberância e melancolia mastigando Agonia. Começo a escrever sobre um Beethoven ensandecido, transtornado, furioso, rasgando folhas de partituras e berrando aos céus por clemência.

Veja mais

Teatro: Vermelho

“Todos sabem que a inteligência nos faz desembocar apenas nas névoas do ceticismo.” Salvador Dalí

Antônio Fagundes Teatro

Há um homem sentado de costas. Avisto luzes por sobre as cores, abajures baratos, um silêncio, o barulho. Tapetes, tapumes, escondem cadeiras, teto, assoalho. A cena é um mistério. Reverbera o vermelho, intacto.

Se assim continuasse, caso não descobrissem se tratar do homem aquele visto como galã, e os quadros tivessem sido referendados a um esdrúxulo bruxo, ou  a um mendigo abstrato, haveria os aplausos robustos ao final da apresentação?

Veja mais