Um telegrama musical para Waldir Silva

“Como um veludo que passa, acalenta e amacia
É a vida da gente, e o que tem de melhor
É nesse amigo se espelhar, com devoção” 

Waldir-Silva

Conheci Waldir Silva no programa “A Hora do Coroa”, transmitido aos domingos de manhã na rádio Itatiaia, sob o comando de Acir Antão. Estava in loco no estúdio, e o admirei pessoalmente. Como de costume carregava ao colo o inseparável cavaquinho. Poucos segundos de atenção foram suficientes para perceber o laço de afeto e necessidade a unir o homem ao instrumento. Mal me dei conta que sempre o ouvia no momento exato do sol de quase meio-dia obrigar o relógio a marcar as onze badaladas e “Zíngara”, uma canção-rumba de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano lançada por Gastão Formenti, aparecer deslumbrante na execução do mestre. Não a toa serve de prefixo musical do atrativo há mais de quatro décadas.

O nosso próximo encontro seria ainda mais decisivo na relação a se estabelecer dali por diante. Ouvindo no rádio o mesmo programa no qual o acompanhei de perto não consegui negligenciar a história sobre uma melodia carente de letra após a morte do jornalista incumbido de tal tarefa. O locutor, ainda por cima, convocava os aspirantes ao gesto. Ao que me candidatei. Então a tarefa árdua tornou-se gratificante ao tomar corpo na voz de Lígia Jacques, a cantar os versos propostos por mim para o chorinho “Apenas duas lágrimas”, em espetáculo no Conservatório da Universidade Federal de Minas Gerais, através do projeto “Pizindin – Choro no Palco”, com a produção de Lilian Macedo e o acompanhamento de diversos compadres.

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Segredos da Bahia de Dorival Caymmi

“se encontrava em meio a uma daquelas crises em que a alma inteira mostra indistintamente o que ela encerra, como o oceano, que, nas tempestades, entreabre-se, expondo desde os sargaços das margens até as areias de seus abismos.” Gustave Flaubert

Dorival-Caymmi

Rede balança a pena do pintor-poeta. Mãos do barro esculpidas n’água. Pedras de areia brincam pele bronzeada. Brincos e badulaques. O mar espreguiça em peixes verdes verdades vidas levadas trazidas pela correnteza, na harmonia Dorival Caymmi (30/04/1914 – 16/08/2008).

Marina (samba-canção, 1947) – Dorival Caymmi
“Marina” conta a história do homem fragilizado diante da força sedutora da sua mulher. Inspirada num mau trato do filho pequeno de Dorival, o que viria a se tornar o cantor e compositor Dori Caymmi, então com três anos idade, que repetia ‘ to de mal com você’, quando contrariado. E foi nesse pequeno gesto infantil que Dorival percebeu que o homem contrariado tende a abolir as questões da maturidade, razão pela qual os romances são sempre difíceis, conduzidos pela volúvel emoção. Fora isso, a canção lançada em 1947 por quatro cantores diferentes, (Dick Farney, Francisco Alves, Nelson Gonçalves, e o próprio autor), rompeu com uma lenda da indústria fonográfica e marcou um costume feminino da época que veio a se consolidar nas décadas seguintes: o de se maquiarem. “Marina morena, Marina, você se pintou…”. O veredito de Dorival Caymmi contra esse tipo de artifício revela sua profunda ligação com a natureza, com as coisas em seu estado natural e integrado: “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu…”

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Crítica: Show de Gal Costa com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

“Minha voz comovia o coração mais duro,
Fizesse eu o galã ou um lacaio obscuro.” T. S. Eliot

Gal-Costa

Gal não apareceu como deveria. A espera alongou-se por algum tempo. Homens trajando violinos, fagotes, trompas, outros inquietos nos assentos marcados, mãos enfiadas nos bolsos das calças jeans, e mulheres com bolsas a tiracolo, violas e flautas, passavam o tempo com o barulho clássico e habitual, de chicletes, tique-taques do relógio a consagrado instrumento. Todos na esperança de Gal.

Que quando apareceu, não como deveria, trouxe nos cabelos o mormaço, um cheiro, da Bahia, de Djavan, um azul de sal. Os beiços ainda frêmitos escandiam as arrancadas folhas de um calendário Maia, destemperanças de Chico Buarque num folhetim barato: a prostituta, o fogo, a fuga, e os aplausos. A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais sob a batuta de Marcelo Ramos sentiu meu bem, meu mal, de Caetano Veloso, em uníssono, cantado em coro.

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Dúvida pertinente na música de Gabriel Fauré

“Balançou-se para a frente e para trás em uma gangorra de raiva e autocomiseração.” Truman Capote

Gabriel-Faure

Como recomeçar o que parou? . É uma pergunta ou resposta. ? Se toda afirmação é entroncamento algum questionário será bifurcação?! Gabriel Fauré, vos apresento, é um sujeito predicado pelas prerrogativas do salário, muito bom e ingênuo.

Sim ou não que uma condição abalize ou elimine a porventura outra. Embora tenha confessado em pergaminhos e partituras encontradas no chão da escada um subliminar caso amoroso. Fidelíssimo como um cão à sua esposa, as escapadas felinas criam novo odor à tal bigode de algodão-doce.

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Sucessos da Porta dos Fundos

“Dizem que quando o Criador criou o homem, os animais todos em volta não caíram na gargalhada apenas por uma questão de respeito.” Millôr Fernandes

porta-dos-fundos

Propor o riso através da ironia, do achincalhe, sarcasmo, ofensa, maneiras variam e estratégias idem. Mas na essência está preenchido: o ridículo. Afinal a vida dita trágica é conferida de alguma gravidade, enquanto a oposta: o contrário, justamente a banalidade da existência humana leva a aceitarmos graças. O grupo de comediantes e roteiristas reunidos em torno do projeto-empresa “Porta dos Fundos” não se restringe a um único tipo de humor; fruto da heterogeneidade dos envolvidos, cujas escolas e referências mistas auxiliam na saudável geleia geral vista na tela da internet.

O poder de síntese do estilo, tendo o humor como modelo linguístico e, sobretudo, de estética, é utilizado com rara competência; assim como no rock, onde o fundamental, em se tratando de clássico, é o riff. Extrai-se daí um dos trunfos da companhia: os atores, alguns deles, notadamente Gregório Duvivier, Luis Lobianco, Júlia Rabello e Fábio Porchat detém um leque amplo de recursos dramáticos, desde os mais básicos como alteração de voz e fatores concernentes a habilidades físicas até instrumentos sutis de envio da mensagem implícita, apropriando-se de caricaturas e remodelando-as.

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