Crítica: peça “Eu não dava praquilo”, com Cassio Scapin, reverencia a irreverente Myrian Muniz

“Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande…” Adélia Prado

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É na comparação entre o assaltante de uma bolsa e um político que reside o segredo do monólogo protagonizado por Cassio Scapin em que a atriz Myrian Muniz é homenageada. Evidentemente o bandido do bem de pequeno porte tem mais autenticidade, outra expressão identificada com o universo da personagem, que entre dar a mão a Deus e ao diabo não deixa passar em branco uma suma necessidade: a força da palavra.

Essa descoberta é feita por Myrian em um sonho no qual conversa com seu amigo, o Papa, e lhe questiona se a hóstia é realmente o corpo de Cristo. O pontífice deixa claro que a resolução depende mais do olhar que do objeto, o que só corrobora com algo que na infância já se iluminara aos olhos da menina brincando de interpretar: a força das coisas que não existem, da imaginação. Com uma didática própria, Myrian Muniz apresenta a vida ao teatro.

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A Comida na Música Brasileira

“Os artistas sabem que suas obras não são para ser compreendidas, mas para ser degustadas.” Rubem Alves

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É de dar água na boca. Do peixe com coco ao vatapá. A feijoada completa, sem dispensar o torresmo à milanesa. Para quem gosta tem até jiló. De sobremesa uma goiabada, doce de coco e também bananas. E ainda a jaca que a Chiquinha corta. Tudo isso no tabuleiro da baiana, no pagode do Vavá, é um tico-tico só no fubá. O prato fundo já está servido. E quem quiser pegue o seu lugar. Cadeira vazia não pode ter. E se na gula alguém engasgar, com uma espinha de bacalhau, cante uma música bem brasileira, que lhe garanto, ela sai ilesa! E requebrando nessa balbúrdia, delícia a música e a comida, ainda mais se for brasileira!

1- No tabuleiro da baiana (samba-batuque, 1936) – Ary Barroso
“No tabuleiro da baiana”, composto por Ary Barroso em 1936, é um samba-batuque que traz em seu cardápio musical suingue e malemolência, em versos que soam tão deliciosos quanto os ingredientes do tabuleiro. Misturando elementos típicos da cultura baiana ao amor e ao samba e tornando-os definitivamente parte da mesma receita, Ary Barroso criou um dos mais famosos pratos da culinária musical brasileira. “No tabuleiro da baiana tem…”

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Crítica: O melhor e o pior do humor no Brasil

“‘os flamingos e a mostarda são picantes. E a moral disso é… ‘Pássaros da mesma plumagem andam em bando’.” Lewis Carroll

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Não é fácil praticar humor e manter a elegância. Muitos já disseram se tratar esta da mais difícil arte dramática. Se vários conseguem alcançar o mérito, outros patinam e até afundam no gelo e na lama por pura falta de talento, a que ingenuamente denominam “liberdade de expressão”. A discussão sobre a comédia no Brasil precisa ultrapassar a barreira do correto e errado e chegar ao que realmente importa: o que tem graça e o que não tem.

Claro que se trata de um corte subjetivo, mas assim como existem piadas prontas, ditados populares, que só repetem o óbvio, há as que surpreendem e exigem do telespectador certa dose de ironia, audácia, sarcasmo, e dispensam a grosseria simples com que se acostumaram certos nomes como Danilo Gentili, Rafinha Bastos, e outros cujo repertório baixo representa o que há de pior no humor do Brasil. Não são atores, nem coringas, mas celebridades.

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Marcellino, Pão e Vinho

“Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:
os ninhos que os homens não viram nos galhos,
e uma esperança que ninguém viu, num coração.” Cecília Meireles

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Partiu-o ao meio. Não notou a natureza amedrontada do objeto estático. Mal lhe escapara o pé descalço a obstruir luz para couves e verduras outrem, quanto mais a natureza estática do objeto amedrontado. Feriu-lhe o bojo desprovido de pudor. Arregaçou as mangas encardidas do fiapo que protegia o próprio cadavérico corpo e iniciou o calvário da natureza inapta. Em momento algum se precipitou, nem se demorou além do necessário, a morte recolheu-se ao abrigo num acordo tácito.

A tigela, em frente, borbulhava com o leite fresco colhido das tetas da mais gorda vaca durante os primeiros raios daquela manhã. Calor e angústia aperfeiçoavam a pagã caminhada a desembocar no rito obrigatório. Aquela abatida de intrigas e indispensável desordem à fome terrena do menino magro. Agora, enquanto descia o líquido fresco que esquentava boca, pulmão, estômago, possuía nome, e um branco bigode, invisível e risonho, da infância apressada.

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Reginaldo Rossi: o orgulho da vergonha

“Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

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O poeta de língua portuguesa mais aclamado do mundo disse em versos estar farto de semideuses, a procura de gente que tivesse levado porrada, sido ridículo, cômico, passado vergonha, amar sem ter sido amado. Fernando Pessoa é um nome que, para quem conhece pouco, ainda sustenta uma frase, a da “dor que deveras sente”. Assim como Reginaldo Rossi, pois que ao bastante distraído não escapa a epígrafe de “Garçom”, em português claro, música de corno.

De um jeito ou de outro, embora um seja natural de Lisboa e outro de Recife, em Pernambuco, os dois espalharam em síntese os sentimentos que atingem a todos, e com uma postura diversa à da hipócrita sociedade: não esconderam os defeitos, as falhas, ao contrário, cada um a seu modo, o primeiro com elegância, o segundo de forma direta, simples, tosca, escancararam o orgulho da vergonha. O que sustenta a obra de Reginaldo Rossi é o tratamento que ele dá aos valores.

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