Cinema: Zózimo Bulbul

“O sol caía quase a pino sobre a areia e o seu brilho no mar era insustentável.” Albert Camus

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Da argila surgiram cabelos. Cabelos crespos, avolumados, em chumaços. Uma tira inteira com dentes de peixe foi retirada do bolso. Usou-a para penteá-los, embora desobedecesse à ordem da retina acesa, os olhos esbugalhados, as mãos cravejadas por estúpidas bolhas. Estourou-as uma a uma. Então notamos os braços: grossos e algemados.

“- Zózimo Bulbul”, emitiu o som solene e áspero. Na fronte, havia resquício de aparição antiga. Lembrava uma profecia, sombras, antepassados. “Africano”. Com única palavra compreendeu a dúvida, e nos revolveu em próprios enigmas. Não demorou a notar a espera de nossas atitudes, retirou o restante do corpo debaixo da lama, avançou rápido.

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Latino quer provar ser compositor e prepara disco autoral

“Um autor, primeiro, é assunto. Mas a glória, mesmo, é quando ele vira falta de assunto.” Mario Quintana

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Há, para toda sorte de “aproveitadores”, uma recepção específica. O cantor Latino, que agora se sai com essa de lançar “disco autoral”, é peça figurativa, quase caricatural, no cenário da música pop brasileira. O nicho pelo qual caminha está bem traçado. É um produto massivo da indústria, até outro tempo, altamente lucrativa. O que revigora a permanência do cantor nesse meio de reciclagem, provavelmente, é o ridículo dos gestos.

Existe sempre algo de cômico em Latino, o que espanta a antipatia e lhe denota aquilo que chamamos “carisma”. Tal característica é inegável em sua personagem, assim como a baixíssima qualidade do repertório, se o olharmos do ponto estritamente artístico, cultural, de estilo. É, no entanto, sucesso de entretenimento. As recentes patacoadas protagonizadas, como a expulsão do Youtube e o “roubo” da música de Psy, alicerçam os argumentos.

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Peça Meu Tio É… Tia! – Crítica Teatral

“escancaro os tabus, mas não revelo os mistérios.” Rita Lee

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A peça “Meu Tio é… Tia!”, há nove anos em cartaz na capital mineira, chega ao palco do Palácio das Artes por conta da39ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. O descuido com a parte técnica, como evidentes chiados e falhas no microfone dos atores, deixa transparecer o desdém com o “santo de casa”, ou, em outras palavras, a crença de que “a grama do vizinho é sempre mais verde”.

O que não livra o espetáculo de críticas contumazes. Há, obviamente, embora sem creditar a “homenagem”, uma transposição do enredo de “A Gaiola das Loucas”, originalmente francesa, para a realidade regionalista. Várias piadas aprecem adaptadas a clichês e locais de Belo Horizonte. Outro artifício usado é recorrer a expressões “hit” na web e na TV. As novelas da Rede Globo servem de esteio e aparador.

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Teatro: Walmor Chagas

“A arte não está no geral, mas no detalhe.” Stanislavski

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Esta é a história de um senhor de idade acometido por uma tentativa fúnebre de suicídio. Que se revelou vitoriosa. O fracasso da existência terrena frente à material morte parece-me assunto para outra hora. Antes é necessário concentrar-se nesse homem, estendido sobre uma cadeira de balanço, cujo sangue agora espesso, duro, cobre-lhe o colo, onde jaz um revólver calibre 38, esvaziado da única bala que lhe penetrou o ventre cinza e insosso.

Embora a aparência de um revólver possa suscitar em alguns o medo, tal perspectiva locomover-se-á ao extremo oposto, se o apontarmos para pensamentos de infância. A maneira pomposa à qual me refiro ao denominá-lo “senhor de idade” certamente incomoda o falecido, que mais tarde verão, ainda vive. Por isso o trataremos por velho, não idoso, e aqui revelamos as dificuldades advindas da diabetes, para caminhar, e a praticamente extinta visão.

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Naldo Na Veia – Amor de Chocolate

“Não adianta dar um ano novo para eles! Logo já vão quebrando!” Quino

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O mercado, frequentemente, alça e derruba teus eleitos. É preciso entender a lógica de reciclagem que impera nesse modelo. O segmento musical não foge ao controle da indústria, altamente lucrativa, do entretenimento. Ao sabor da novidade, torna-se preponderante mudar obstinadamente, elevando e pondo ao chão quaisquer tendências. Vender 25 mil cópias, levar “Disco de Ouro”, emplacar hits radiofônicos como “Exagerado”, “Chantilly”, “Na Veia”, e outros, parte deste processo.

O cantor Naldo parece e perecerá como a nova “sensação” do mercado. O adjetivo relembra nome de famoso chocolate, ao leite por fora, com recheio de morango. Tal como a comparação, o músico esbalda-se no topo das paradas, e a exemplo do citado, deverá enjoar rápido. O mercado aguenta pouco um sabor repetido. Embora haja referências, batidas, a Claudinho & Buchecha e eletrônica. O próprio Naldo aguentou e superou barra após perder o irmão, com quem fazia dupla. Há de se louvar o ato.

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