Arte Lúdica de Isabela Couto Machado

“Tem o verde dos sonhos transcendentes,
A ternura bem roxa das verbenas,
A ironia purpúrea dos poentes,
E tem também a cor das minhas penas!” Florbela Espanca

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As ondas não correspondiam à expectativa. Muito contribuiu esta constatação para entender o porquê de passarem despercebidas. Tampouco a presença de três camelos, e não dromedários – como atestava as duas corcovas – fora suficiente para dirigir atenção a elas. Estes, embora enfileirados, e presos por cordas, no montante arenoso das ondas, de imediato despertaram interesse.

As sombras estalavam no chão refletindo a crueldade do sol. No entanto, e nesse instante as ondas avançam, já havia noite. Debocham-se estrelas como bochechas iridescentes e os rostos chupados têm compadecimento. Numa cruz entre casas, e sobre a principal, a cor negra, talvez uma borda, levanta: uma saia, uma manta, ou o esparadrapo.

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Emílio Santiago e o Suingue Inconfundível

“- de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrelas e o vento.” Cecília Meireles

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O curso de Direito o aguardava naquele horário, no entanto Emílio tinha feito a opção pela música. Entendedor autodidata do que se designava como teórico era na prática que o sorridente negro de olhar carismático começava a tatear o próprio espaço. Flávio Cavalcanti, àquela altura conhecido apresentador de programas de auditório, o interpelou para subir ao palco. Não titubeou, lancinou a platéia com o melhor da irrequieta alma. O suingue inconfundível de Emílio Santiago dava apenas os primeiros passos.

O cenário carioca onde nascera – na capital do Rio de Janeiro e no ano de 1946, dia 6 e mês 12 do calendário – não demorou a apresentar ao garoto os atrativos a se tornarem inegociáveis na vida adulta. Emílio não abriria mão de apaziguar a fúria dos sons; ninar, durante a insônia, as melodias; e domesticar, cheio de palavras doces; letras e harmonias dos compositores da bossa nova, do samba e das noites de balanços intermináveis. Foi numa dessas peregrinações obstinadas que o destino lhe sorriu em troca.

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Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen

“Assim, despertando de um sonho de horror à meia-noite, logo a pessoa acende a luz e se mantém quiescente, adorando o gaveteiro, adorando a solidez, adorando a realidade, adorando o mundo impessoal que é prova de alguma existência que não a sua.” Virginia Woolf

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O grito de “socorro” é precedido por uma ameaça viril. Mas é dentro da mulher ouvido, somente. Ela não pode desmantelar a harmonia da casa onde vive. Lá as crianças brincam com displicência, “tomando o cuidado exigido para manter em bom estado as estampas dos vestidinhos de babado e das camisas de marinheiro” a cobrirem os corpos tenros. A babá se dirige a uma delas dotada de paciência cristã. Pergunta se já pode servir o chá. É aí que a descoberta compete aos olhos.

A bacia de água quente em cima do móvel. O criado mudo ao lado da cama. O pano úmido sobre a testa. Enferma, coberta por uma bata branca do pescoço aos pés, a matriarca. No entanto, ao olhar para fora e desligar-se de pensamentos imersos, apalpa o próprio rosto, e não obstante o percebe corado. Da mesma maneira, há rubor em seus pés, apertados nas delineadas sandálias de couro persa. Ninguém na casa poderia supor a degradação de sua natureza enfadonha, uma abobalhada boneca a serviço de todos.

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Tess – Uma Lição de Vida, de Roman Polanski

“o tempo que passava em um relógio invisível, a veia vermelha de um termômetro, a luz filtrada em tênues filamentos pelas cortinas de filó, uma gota d’água suspensa na torneira e que nunca pingava: ela pegou esses objetos e com eles ergueu uma parede: mas a parede era fina demais, frágil demais, e incapaz de eliminar o som da voz” Truman Capote

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Uma parede branca antecede a desgraça da camponesa família. Por que acreditar em melhor futuro é o perigo inescapável ao ser humano. A parede no futuro estará manchada de sangue. O sangue pinga das vestes da menina. Quando colhia morangos no campo, colocaram-lhe rosas no busto. Espinhos debruçaram-se em seios brancos, e estes logo tomaram o formato da mão do carrasco. Desejos vãos, insígnias das bravatas e aspirações.

Dançavam genuinamente quando um tufão irrompeu das mansões. O velho pai que despenca da velha carroça, afirmando a condição superior, mais lembra o palhaço a esperar os aplausos da cética platéia de bretões. A tenda murcha está prestes a desabar sobre as cabeças: umas carecas, outras cobertas por polacos chapéus: todas à espreita, todas confusas: consideram arriscar a vida por um inferno de céu. A luz de lampiões imanta as fuças.

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Cortes & costuras

“Bem no centro da faísca, praça central do coração da chama, a porta de um reino sem durar:” Paulo Leminski

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Tinha os olhos amarelos & xadrez. Uma anja preta. Gato a tira-colo. Colo atira gato. No céu de Olinda, ouvia Capiba. No chão de Pedreiras, João do Vale. Farpilhos desfarrapados cobriam a túnica que envolvia cabeça raspada, orelhas furadas e nuca desprotegida. Tudo doía. Nu exposto ao escrutínio.

Exaurida da casca transitória e rija dos gestos. Era um ovo, uma cobra de Tarsila. Verde-rosa. Sambava balé. A ralé ouriçava. Escrevia na tentativa íngreme de ser Maleável e Eterna como as Palavras. Mas escrever não derrama. Impreciso trabalho frágil.

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