Teatro: Tio Vânia (Aos Que Vierem Depois De Nós)

“o coração está como que varrido” Tchékhov

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A decadência é uma ampola dúbia na visão do dramaturgo russo Anton Tchékhov, cuja peça “Tio Vânia” foi adaptada pela mais famosa companhia teatral de Minas Gerais, o Grupo Galpão. Com direção de Yara de Novaes, o enredo destrincha os êxodos no plano imaterial que levaram os habitantes de um casebre – caindo aos pedaços – ambientado na zona rural do século XIX, a enterrarem-se num espaço de adequação. É essa mesma estagnação prontificada por decadentes vidas que levará os corpos dessas almas a se chocarem.

De início, um silêncio incômodo leva os espectadores a se questionarem sobre a realização. A luz na cara afere a nudeza, auxiliada por uma esquálida árvore negra que serve de cenário, e nos confronta com uma intrigante característica da condição humana. Se o barulho e a escuridão escondem o podre de legumes e frutas, o mesmo se dá aos animais. E as vespas logo se animam ao induzirem a putrefação da carne. Revelar que ali habita um coração cardíaco, veias entupidas e o amolecimento dos ossos, só em raros momentos de silêncio e luz.

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Novo Disco do The Strokes – “Comedown Machine”

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Gosto muito da canção mais batida do The Strokes, “Last Nite”. A julgar pela divulgação da primeira música do próximo álbum, intitulado “Comedown Machine” (lançamento previsto para 26 de março), ao menos para mim, a banda inglesa perdeu o encanto. Não falo aqui como especialista, mas sim um admirador distante. É que o que me detinha a soluçar ao som sujo dos garotos era justamente o desespero das letras e dos vocais.

Há, agora, ao sabor de “One Way Trigger”,  algo que, se não soa incômodo, também não tolera calor. A frieza e a retidão de caráter podem combinar e até dar certo para alguns artistas, o que não é o caso dessa meninada esperta que me fazia adorá-los ao som de “Reptilia”. Cito um exemplo grotesco para explicar o que quero dizer: gosto do distanciamento em Marina Lima.

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Artes Plásticas: Tarsila do Amaral

“Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre
a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.” Fernando Pessoa [Alberto Caeiro]

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No seio de uma fazendinha, a branca menina mama. A escrava luzidia de protuberâncias fartas oferece o leite, posta a incapacidade da matriarca. A menina espia o gado, a igrejinha, os porcos, e do colo da negra sente uma pontada. Está de pé, a espantar macacos. Do galho lânguido surrupiam bananas, regurgitando sementes.

A menina agora vive em São Paulo. Leva ao braço a filha, e no outro “a marca”. Cochicham as doninhas: – Esta, é desquitada. Mas de um bom marido, não precisa a Arte. A não ser a pena, o pensamento, as cores. Para o mundo um quadro. Tarsila apelidou-o: “Homem que come homem”. Oswald gostou. É o novo amante. Ainda não o apresentamos.

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Documentário da Cantora Ke$ha na MTV

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A cantora Ke$ha expressa, já no nome, o desejo por gordos cifrões. Essa é a receita infalível para quem sobrevive estritamente do universo pop, no concernente à alta quantia monetária que ainda gira, mesmo após a decaída das grandes gravadoras em vista da explosão do universo cibernético de livre acesso às canções.

Com sua mistura de eletrônica e rap, a artista teve uma ascendência meteórica na carreira, algo bem comum para quem transita em tal meio. No entanto, com a mesma velocidade que o mundo pop constrói teus ídolos, também é capaz de destruí-los. Agora, a rede de televisão especializada em música, MTV, promete lançar série de documentários sobre a vida de Ke$ha.

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Pedro Caetano – É Com Esse Que Eu Vou! (Samba)

“Um ser-aí. Cá, aqui.
Redondo gesto e gesta
vegetal, e uma festa
de cor, pingo no i.” Heládio Brito

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O bom compositor não se faz pelo nome, mas pelo conteúdo. Pedro Caetano nunca foi compositor, pelo menos era isso o que a formalidade lhe falava. Manteve seu lar com o dinheiro dos calçados e vestidos que vendeu por toda a vida, só aparecendo de corpo e cara para gravar um disco próprio aos 64 anos.

Mas a essa altura suas músicas já eram cantadas por muitos outros, populares e profissionais, sempre com popularidade e qualidade elevadas. Ciro Monteiro, Orlando Silva, Sílvio Caldas colocaram na boca suas músicas. Noel Rosa, Pixinguinha, Claudionor Cruz, apertaram com instrumento e lápis suas composições. Era o conteúdo que fazia de Pedro Caetano compositor, e dos bons.

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