Brasil, Esse País Dos Aflitos

“Brasil, mostra a tua cara!” Cazuza

Brasil-aflito

Análise

Muita gente é cativada a participar dos protestos em várias extremidades do Brasil, e até fora dele; casos de Inglaterra, Irlanda e França; ao acessar no Facebook, Twitter, e outros, um tipo de informação ali amplamente difundida, em contraposição inicial ao silêncio da imprensa massiva, depois reprimida a modificar a cartilha.

É contumaz o equívoco quando se avalia a importância da rede social. Costuma-se apontá-la como fator determinante para a série de acontecimentos. Essa teoria não se sustenta por um único argumento: ela é suporte, não conteúdo.

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Ney Matogrosso No Show Atento Aos Sinais

“Uma cega labareda me guia
para onde a poesia em pane me chamusca

Vou onde poesia e fogo se amalgamam.
Sou volátil, diáfano, evasivo.

Escapo que nem dorso de golfinho
que deixa a mão humana abanando” Wally Salomão

Ney-Matogrosso-Atento-Sinais

A rua deveria dar passagem em direção a um suntuoso prédio localizado na parte mais pobre do vilarejo. A razão de ter-se erguido ali era de conhecimento público, inclusive imprensa e polícia, mas forças políticas impediam a divulgação do caso e consequentes penitências aos envolvidos. Agora, no entanto, um incêndio alastrava-se, tendo se iniciado na parte mais elevada da construção, e já se estendia até as bases. Centenas de microfones, câmeras, fios e aparelhos eletrônicos variados, de celulares a laptop´s, aglomeravam-se até os limites da barricada ali improvisada como impedimento à aproximação do fogo. Do outro lado bombeiros esforçavam-se para pôr fim à farra das chamas e decretar o império da fumaça sobre a outrora prova de soberania da inteligência e eficácia humana pautada na engenheira e conhecimentos arquitetônicos, estes últimos despidos de qualquer senso do bom gosto.

Roendo as unhas, o prefeito enfim aceitou o convite dos ávidos entrevistadores, submetendo-se a prestar esclarecimentos à ensandecida população, a se expressar de maneira parecida a animais confrontados em seu território. Tal comportamento, aliás, muitíssimo raro e particular naquela gente, acendeu ainda mais a dúvida sobre as causas do incêndio. Uma gente a princípio pacata, da qual jamais se teve notícia sobre o reclame de qualquer situação, sobretudo quando contemplada com quilo de arroz e saco de feijão, promessa cumprida e feita prioritariamente em épocas de eleição. Todo o mistério findaria com a palavra do excelentíssimo e magnânimo, como se lhe referiam os assessores, mandatário máximo da cidade; o prefeito disse: “É uma vida louca vida esta, pois se num dia tudo transcorre às mil maravilhas, noutro assombra-nos a catástrofe!”.

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A Música Livre e Sórdida de Claude Debussy

“Ver o dia nascer é mais útil do que ouvir a Sinfonia Pastoral (de Beethoven). Quando o senhor assiste a esse maravilhoso espetáculo cotidiano que é a morte do Sol, alguma vez já teve a idéia de aplaudir?” Debussy

Debussy

Foi ouvindo Debussy a minha loucura. Encontro-me num asilo, lenitivo, leniente. Imagino como deva ser um concerto de Debussy. Abro os olhos e ele está na minha frente. Letargia das almofadas fofas me faz espreguiçar igual ratazana extraviada.

Nunca se encontrará. São Paulo é uma cidade esplendorosa, se vista de longe. Como Górgona, te aliena e devora. Gárgulas ensaiam tudo quanto é lento. O trânsito da cidade, o martírio cauteloso dos pedintes rueiros. Bueiros aos montes. Vejo do átrio – uma janela caudalosa, e saio.

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Astolfo Barroso Pinto, a Rogéria do Brasil

“Persigo algumas palavras. São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema… Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas… E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as…” Pablo Neruda

Rogeria

O poder formigava nas mãos grandiosas, calejadas e protegidas. Para disfarçar as marcas de expressão não se abstinha em colar sobre elas brilhos, inventar costuras, remodelar aspectos frios e assim torná-los quentes. Expressava-se criativa. Ao fim do processo riscara, por cima da blusa de linho, um fósforo, e, muito próxima ao fogo, mordiscando a parte inferior do lábio, soprava a “velhinha” e se dava vivas. Comemorava, aludia, enfeitava a vida a menina.

Rogéria, uma transformista, um homem pleno, sambando com seios ao vento, bunda arrebitada, na avenida. A multidão a reconhece, reconhecida Rogéria desce, ajeita o salto: urra, grita, cacareja, brinca. Um maquiador, uma mulher pluma, requebra o funk com músculo rijo, membro mantido, na rua, no enredo, na coxia. Um bem de origem, recontado, recriado, repetido em novela, musical, cinema, dramaturgia, pinta a borda a criaturinha.

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Invenção do Mambo em Cuba

“Mal poeta enamorado de la luna,
no tuvo más fortuna que el espanto;
y fue suficiente pues como no era un santo
sabía que la vida es riesgo o abstinencia,
que toda gran ambición es gran demencia
y que el más sordido horror tiene su encanto.” Reinaldo Arenas

Mambo-Dança

Um chute na terra tremeu o mar. Do topo, perto ao céu, o coqueiro da ilha abaixou as folhas para melhor sombrear o sujeito. Este, íntimo do sol, de tez parda e olhar esverdeado, com um cigarro de palha pendendo molemente dos lábios. Esticou horizontalmente os braços, mal se cabendo em Cuba. A seguir o ricocheteio dos quadris perpetrou a impressão de que desmancharia sobre aquele lance de azuis, vermelhos e brancos.

Um senhor de chapéu de nylon, aproximando-se, perguntou: estás mambo? Como que desconfiado do percentual alcoólico ingerido em noite anterior. Desfez da atenção ao velho, e, revigorando-se por inteiro, inflamou tanto o peito a ponto de lisonjear damas de passagem com o porte atlético. Girou em torno de si, mal se recompôs e lançou novo naipe de espadas, cortando nuvens, ventos e ares.

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