Tentação Proibida, com Nastassja Kinski

“Tanto o seu estar, rubro e quieto, quanto o meu que se faz e desfaz o ar destas paredes – é queda.” Ferreira Gullar

Tentacao-Proibida-Nastassja-Kinski

O jardim dava para a estátua de marfim e ouro. Para onde quer que fosse a estátua parava à frente. Impossível desviar-se daquele caminho. Preso em tal condição, notou, primeiramente, o nariz. Conformava uma insatisfação adolescente, não querendo estar onde jazia a obrigação de fornecer ao corpo o direito de respirar. A rota cíclica da vital atividade trazia um indisfarçável enfado à dona do nariz. Desabafava através das íris.

Estas eram de um verde abacate, algo um tanto inusitado para uma estátua. Acostumado a observar colorações geralmente cinzas, mortas, paralisadas, não teve forças para contentar o espanto que se assombrou sobre sua imagem de respeitável patriarca quando a figura mexeu os olhos. Enfastiados por uma mistura de rebelião e abatimento profundo, os olhos tentavam, em vão, escapar à moldura de cimento e gesso que mantinha a estátua no primeiro ato.

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A morte do menino que não dormia

“O que ele mais temia era morrer de olhos abertos e não ter quem os fechasse.” Luiz Carlos Merten

Anna-Boch-Azeitonas-Eucalipto

Era um menino, tinha uns 13 anos, cabelos cacheados negros, bochechas magricelas e brancas, olhos castanhos sem muita expressão, uma boca meio sem cor, dentes amarelados e quase sempre um pouco sujos, mãos compridas, dedos longos, pés lambidos e unhas cortadas.

Era judeu e circuncidado. O resto não era muito interessante, não que essas coisas fossem, mas servem para dizer como ele se assemelhava aos outros. A todos os outros ou a algum pelo menos. À bem da verdade não tinha nada de diferente, nem de perto, nem de longe.

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Paulo Vanzolini Cria O Samba Erudito e Abstrato

“Do povo, de cada um pessoalmente, eu não gosto, mas do povo em geral eu gosto muito.” Paulo Vanzolini

Paulo-Vanzolini

O homem de cachimbo vem com lagarto no ombro, cobra enrolada nos pés, lagartixa na palma da mão. Arrisca-se quem resumi-lo cientista. Ele também o é, especialista em samba sem diplomacia. Se puder imaginá-lo, pense na pintura de Magritte, nas experimentações de um Einstein, no avanço das tropas de Napoleão. E terás o retrato abstrato do erudito mais popular brasileiro! Paulo Vanzolini (25/04/1924 – 28/04/2013).

Ronda (samba-canção, 1951) – Paulo Vanzolini
“Para mim acorde é que nem latir para cavalo”. O que não o impede de falar a língua dos músicos, através da poesia e da inseparável boemia. Em suas experiências noturnas farreando ou mesmo vigilante como cabo do exército, Paulo Vanzolini retirou o essencial para sua pequena, porém qualitativa, produção de sambas. Um dos mais emblemáticos nasceu em 1951, e só foi chegar ao disco dois anos depois, por acaso do destino e ingenuidade de Inezita Barroso, que não sabia que disco possuía lado B. Para ela então, amiga do casal Vanzolini, foi destinada a felicidade de lançar o compositor-cientista, sem a mínima repercussão, que só veio quando a canção já era cantada há 14 anos por boêmios inveterados, na gravação em 1977 de Márcia: “de noite eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar…”. Mais um caso passional onde o amor se envolveu com as páginas de sangue do jornal na manhã seguinte.

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Bibi Ferreira No Show Histórias & Canções

“e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.” Rilke

Bibi-Ferreira

Agasalhado, comprimia os braços em torno do peito para afastar o bafo do inverno. Evidentemente havia-se marcado entre nós dois uma distância intrínseca. As cortinas já estavam abertas quando cheguei. No entanto, fui, contra minha vontade, obrigado a esperá-la ainda mais um tempo, enquanto a orquestra atacava ao fundo um número de Chico Buarque. Pobre de alguém se pensa que controlei os nervos. Durante toda a apresentação instrumental mantive os olhos fixos no corredor estreito, à direita, na expectativa da entrada triunfante a qualquer momento, e que, portanto, eu lhe lançasse o primeiro aceno, ao que imediatamente ela me retribuiria com um gracejo, mas nada aconteceu, e a frustração colou-se em torno de minhas expectativas novamente.

Outro número instrumental da orquestra. Infelizmente não posso oferecer relatório verossímil acerca das qualidades da mesma. Prefiro, nesse momento, ater-me à sinceridade, e concluir que meus ouvidos, embora à mercê do som em cena, praticava igualmente a saga dos olhos, que sobre o corredor estreito, à direita, concentrara toda a atenção. Um mínimo movimento, presunção do mesmo, delírio, ou pressentimento, alvoroçava-me o espírito como pombos desnorteados quando milho e alpiste lhes são jogados na praça. Nada disso, com certeza, era suficiente para apressar-lhe a entrada em cena. Certamente estava a retocar a maquiagem, concentrar-se nos temas, ajeitar o vestido para caber bem no corpo envelhecido e vivíssimo. Para malograr-me um pouquinho mais, apertei os cadarços dos sapatos.

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Sons Naturais de Marku Ribas

“Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
Suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor” Carlos Drummond de Andrade

Marku-Ribas

Reparou no coco. Sobre a rija e esverdeada superfície crepitava o sol. Como uma manta branca a cobrir o fruto, e ainda mais abafá-lo, o astro lhe fascinava os olhos, que ao queimarem-se acentuavam a coloração castanha das pupilas jovens. Escorria na testa, crescendo a partir dos frondosos cabelos e avolumando-se à medida do alcance terreno às igualmente sedosas sobrancelhas, espécie de suores irritáveis e salgados. Intransigente à incômoda sensação assimilou o som.

Se o tiro seco do sol sobre coco dava-lhe o sentimento de um mundo vazio, abstrato, oco, a correnteza das águas nascendo de ti e em si mesmo encerrando-se era a veloz certeza da vida: cheia, convicta, irrefreável. E o sabor enjoativo, perigoso, mal certo, em muita quantidade, para o estômago, não lhe atrapalhou o paladar, pois substituíra o suor próprio por águas doces do enorme rio a banhar Pirapora. Nas beiras do São Francisco conhecia não só os alívios do refrescar-se, mas também as cantigas das lavadeiras.

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