A morte do menino que não dormia

“O que ele mais temia era morrer de olhos abertos e não ter quem os fechasse.” Luiz Carlos Merten

Anna-Boch-Azeitonas-Eucalipto

Era um menino, tinha uns 13 anos, cabelos cacheados negros, bochechas magricelas e brancas, olhos castanhos sem muita expressão, uma boca meio sem cor, dentes amarelados e quase sempre um pouco sujos, mãos compridas, dedos longos, pés lambidos e unhas cortadas.

Era judeu e circuncidado. O resto não era muito interessante, não que essas coisas fossem, mas servem para dizer como ele se assemelhava aos outros. A todos os outros ou a algum pelo menos. À bem da verdade não tinha nada de diferente, nem de perto, nem de longe.

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Paulo Vanzolini Cria O Samba Erudito e Abstrato

“Do povo, de cada um pessoalmente, eu não gosto, mas do povo em geral eu gosto muito.” Paulo Vanzolini

Paulo-Vanzolini

O homem de cachimbo vem com lagarto no ombro, cobra enrolada nos pés, lagartixa na palma da mão. Arrisca-se quem resumi-lo cientista. Ele também o é, especialista em samba sem diplomacia. Se puder imaginá-lo, pense na pintura de Magritte, nas experimentações de um Einstein, no avanço das tropas de Napoleão. E terás o retrato abstrato do erudito mais popular brasileiro! Paulo Vanzolini (25/04/1924 – 28/04/2013).

Ronda (samba-canção, 1951) – Paulo Vanzolini
“Para mim acorde é que nem latir para cavalo”. O que não o impede de falar a língua dos músicos, através da poesia e da inseparável boemia. Em suas experiências noturnas farreando ou mesmo vigilante como cabo do exército, Paulo Vanzolini retirou o essencial para sua pequena, porém qualitativa, produção de sambas. Um dos mais emblemáticos nasceu em 1951, e só foi chegar ao disco dois anos depois, por acaso do destino e ingenuidade de Inezita Barroso, que não sabia que disco possuía lado B. Para ela então, amiga do casal Vanzolini, foi destinada a felicidade de lançar o compositor-cientista, sem a mínima repercussão, que só veio quando a canção já era cantada há 14 anos por boêmios inveterados, na gravação em 1977 de Márcia: “de noite eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar…”. Mais um caso passional onde o amor se envolveu com as páginas de sangue do jornal na manhã seguinte.

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Bibi Ferreira No Show Histórias & Canções

“e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.” Rilke

Bibi-Ferreira

Agasalhado, comprimia os braços em torno do peito para afastar o bafo do inverno. Evidentemente havia-se marcado entre nós dois uma distância intrínseca. As cortinas já estavam abertas quando cheguei. No entanto, fui, contra minha vontade, obrigado a esperá-la ainda mais um tempo, enquanto a orquestra atacava ao fundo um número de Chico Buarque. Pobre de alguém se pensa que controlei os nervos. Durante toda a apresentação instrumental mantive os olhos fixos no corredor estreito, à direita, na expectativa da entrada triunfante a qualquer momento, e que, portanto, eu lhe lançasse o primeiro aceno, ao que imediatamente ela me retribuiria com um gracejo, mas nada aconteceu, e a frustração colou-se em torno de minhas expectativas novamente.

Outro número instrumental da orquestra. Infelizmente não posso oferecer relatório verossímil acerca das qualidades da mesma. Prefiro, nesse momento, ater-me à sinceridade, e concluir que meus ouvidos, embora à mercê do som em cena, praticava igualmente a saga dos olhos, que sobre o corredor estreito, à direita, concentrara toda a atenção. Um mínimo movimento, presunção do mesmo, delírio, ou pressentimento, alvoroçava-me o espírito como pombos desnorteados quando milho e alpiste lhes são jogados na praça. Nada disso, com certeza, era suficiente para apressar-lhe a entrada em cena. Certamente estava a retocar a maquiagem, concentrar-se nos temas, ajeitar o vestido para caber bem no corpo envelhecido e vivíssimo. Para malograr-me um pouquinho mais, apertei os cadarços dos sapatos.

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Sons Naturais de Marku Ribas

“Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
Suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor” Carlos Drummond de Andrade

Marku-Ribas

Reparou no coco. Sobre a rija e esverdeada superfície crepitava o sol. Como uma manta branca a cobrir o fruto, e ainda mais abafá-lo, o astro lhe fascinava os olhos, que ao queimarem-se acentuavam a coloração castanha das pupilas jovens. Escorria na testa, crescendo a partir dos frondosos cabelos e avolumando-se à medida do alcance terreno às igualmente sedosas sobrancelhas, espécie de suores irritáveis e salgados. Intransigente à incômoda sensação assimilou o som.

Se o tiro seco do sol sobre coco dava-lhe o sentimento de um mundo vazio, abstrato, oco, a correnteza das águas nascendo de ti e em si mesmo encerrando-se era a veloz certeza da vida: cheia, convicta, irrefreável. E o sabor enjoativo, perigoso, mal certo, em muita quantidade, para o estômago, não lhe atrapalhou o paladar, pois substituíra o suor próprio por águas doces do enorme rio a banhar Pirapora. Nas beiras do São Francisco conhecia não só os alívios do refrescar-se, mas também as cantigas das lavadeiras.

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Cassino do Chacrinha – Alô, Alô, Terezinha!

“Quem não se comunica, se trumbica!” Chacrinha

Chacrinha

O espelho mirava à frente o homem cujos olhos baços procuravam distinto reflexo. Velho, com cabelos em chumaço de aspecto do algodão, pipocava no meio da cara um protuberante nariz. Os lábios em acento circunflexo lembravam as antigas máscaras de teatro tristonhas. Pronto para a batalha, mantinha o gelatinoso corpo rosa em posição de ataque, com a barriga para derrubar quem lhe insinuasse ameaça: O guerreiro. Calado. Cansado. Careca. Pediu imediatamente à assistente de palco que restituísse ao posto a cartola entregue ao chão. Qualquer desavisado acende as luzes dos refletores, câmeras, ação!

O palhaço ainda não está feito. O palhaço tem seu minuto de silêncio. Afinal acumula minutos, horas, dias, meses, anos à frente deste produto chamado televisão. Desde que migrou de Surubim, cidade natal, interior de Pernambuco, para o Brasil todo, as mudanças não foram poucas. Perdeu o nome, a alcunha de um distante lugar onde eram gravados programas de rádio definitivamente tomou conta de sua personagem. Está neste mundo como um ilusionista, mágico, pois além de não pretender a resposta exata, diverte-se com a confusão, a anarquia, o caos, a encruzilhada. Guerreiro velho.

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