Invenção do Mambo em Cuba

“Mal poeta enamorado de la luna,
no tuvo más fortuna que el espanto;
y fue suficiente pues como no era un santo
sabía que la vida es riesgo o abstinencia,
que toda gran ambición es gran demencia
y que el más sordido horror tiene su encanto.” Reinaldo Arenas

Mambo-Dança

Um chute na terra tremeu o mar. Do topo, perto ao céu, o coqueiro da ilha abaixou as folhas para melhor sombrear o sujeito. Este, íntimo do sol, de tez parda e olhar esverdeado, com um cigarro de palha pendendo molemente dos lábios. Esticou horizontalmente os braços, mal se cabendo em Cuba. A seguir o ricocheteio dos quadris perpetrou a impressão de que desmancharia sobre aquele lance de azuis, vermelhos e brancos.

Um senhor de chapéu de nylon, aproximando-se, perguntou: estás mambo? Como que desconfiado do percentual alcoólico ingerido em noite anterior. Desfez da atenção ao velho, e, revigorando-se por inteiro, inflamou tanto o peito a ponto de lisonjear damas de passagem com o porte atlético. Girou em torno de si, mal se recompôs e lançou novo naipe de espadas, cortando nuvens, ventos e ares.

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Artemisia Gentileschi e a Paixão do Corpo

“O gozo fecunda. A tristeza dá a luz.” William Blake

Artemisia-Gentileschi

O sangue, sobre a parte interna da coxa, descia em jorros. Por entre as pernas, de onde saíra, tremia o órgão sob os pelos e a pele lisa, pálida, virgem, os músculos, epiléticos e convulsivos, regurgitavam líquidas excreções. As mãos atadas, noutro momento, determinavam a arrancar uma nítida confissão. Novamente filamentos de coloração vermelha desciam pela parte interna dos braços, ansiando abrigo, todos os membros a suarem frio, em jorros. Artemisia Gentileschi conhecia as cores, as feridas e os gozos através do corpo.

Deitada na praia esticou-se inteira, a fim de compreender a real extensão de sua fatia no mundo. Não satisfeita, ao perceber a limitação imposta por vestimentas, retirou cuidadosamente, descendo por cima dos ombros, a parte superior do vestido, para em seguida, num safanão, jogá-lo inteirinho longe, pronto para ser lambido pela espuma branca do mar. Arriou a derradeira peça íntima, e, no momento, essencialmente coberta pelo sol, pôde-se refletir com mais intensidade. A areia tocou-lhe as costas como nunca antes.

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Defesa do FUNK como Expressão de Arte Legítima

“necessitamos de toda arte exuberante, flutuante, dançante, zombeteira, infantil e venturosa, para não perdermos a liberdade de pairar acima das coisas” Nietzsche

Funk-Arte

Existe um preconceito vigente contra certo tipo de música considerada estritamente comercial ou popularesca. No entanto, gosto sempre de discriminar uma diferença salutar entre algumas delas. Não se confere mérito ou falta dele o fato do objeto em questão ser do gosto popular, essa característica está longe de determinar, a meu ver, a qualidade dos mesmos. O ponto nevrálgico da discussão está antes na essência fundamental daquilo que me atrai como expressão artística: a legitimidade.

Nesse quesito, faço meu corte. O FUNK é defensável como expressão de arte legítima na medida em que ele nasce de uma vivência do povo, ou seja, as pessoas que moram na periferia efetivamente utilizam aquela linguagem, assim como os temas transcritos para as músicas fazem parte do cotidiano daquelas pessoas. Em outras palavras, na essência o FUNK nasce como expressão espontânea, cultural, factível, para depois transformar-se em produto da indústria a vender-se para as massas.

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Cleyde Yáconis Desponta Para O Estrelato

“Do Drama, a mais viva expressão é o dia comum,
Que nasce e morre à nossa vista;
Diversamente, a Tragédia,

Ao ser recitada, se dissipa
E é melhor encenada
Quando o público se dispersa
E a bilheteria é fechada.” Emily Dickinson

Cleyde-Yaconis

O palco mal lhe sentia a presença, tal era a tamanha doçura e delicadeza com que o pisava. Cleyde, natural de Pirassununga, no interior de São Paulo, acostumara-se ao extremo cuidado. De cedo perdeu pai, por curso natural das coisas, nada das grandes tragédias ou a secular tempestade, o dilúvio, nada. O pai saíra de casa. Não mandou lembranças, nem carta de despedida houve. Entregues à sorte, essa seria agora a casa das três mulheres. A mãe, bem nutrida de carnes, e a irmã, jovem, incentivaram-na através do exemplo a não ficar parada. Ao invés disso, Cleyde, com sua quietude em cima do palco provava o contrário.

Começara no ramo da enfermagem, o que em parte explicava o cuidado; de outro, o primeiro contato com o mundo das artes havia se dado através de cabides e vestimentas. Estava responsável por deixar em ordem o guarda-roupa do Teatro Brasileiro de Comédia. Mas para a esguia figura a brincadeira de repente ficou séria. Não mais que um desastre. Assim compreende-se o fato de Cleyde Yáconis ter pisado a primeira vez, com a cautela característica, para atuar no palco. Evidentemente já lhe havia tropeçado quando afoita e apressadamente entrava para entregar a roupa a um colega.

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Tentação Proibida, com Nastassja Kinski

“Tanto o seu estar, rubro e quieto, quanto o meu que se faz e desfaz o ar destas paredes – é queda.” Ferreira Gullar

Tentacao-Proibida-Nastassja-Kinski

O jardim dava para a estátua de marfim e ouro. Para onde quer que fosse a estátua parava à frente. Impossível desviar-se daquele caminho. Preso em tal condição, notou, primeiramente, o nariz. Conformava uma insatisfação adolescente, não querendo estar onde jazia a obrigação de fornecer ao corpo o direito de respirar. A rota cíclica da vital atividade trazia um indisfarçável enfado à dona do nariz. Desabafava através das íris.

Estas eram de um verde abacate, algo um tanto inusitado para uma estátua. Acostumado a observar colorações geralmente cinzas, mortas, paralisadas, não teve forças para contentar o espanto que se assombrou sobre sua imagem de respeitável patriarca quando a figura mexeu os olhos. Enfastiados por uma mistura de rebelião e abatimento profundo, os olhos tentavam, em vão, escapar à moldura de cimento e gesso que mantinha a estátua no primeiro ato.

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