Crítica: Show de Gal Costa com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

“Minha voz comovia o coração mais duro,
Fizesse eu o galã ou um lacaio obscuro.” T. S. Eliot

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Gal não apareceu como deveria. A espera alongou-se por algum tempo. Homens trajando violinos, fagotes, trompas, outros inquietos nos assentos marcados, mãos enfiadas nos bolsos das calças jeans, e mulheres com bolsas a tiracolo, violas e flautas, passavam o tempo com o barulho clássico e habitual, de chicletes, tique-taques do relógio a consagrado instrumento. Todos na esperança de Gal.

Que quando apareceu, não como deveria, trouxe nos cabelos o mormaço, um cheiro, da Bahia, de Djavan, um azul de sal. Os beiços ainda frêmitos escandiam as arrancadas folhas de um calendário Maia, destemperanças de Chico Buarque num folhetim barato: a prostituta, o fogo, a fuga, e os aplausos. A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais sob a batuta de Marcelo Ramos sentiu meu bem, meu mal, de Caetano Veloso, em uníssono, cantado em coro.

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Dúvida pertinente na música de Gabriel Fauré

“Balançou-se para a frente e para trás em uma gangorra de raiva e autocomiseração.” Truman Capote

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Como recomeçar o que parou? . É uma pergunta ou resposta. ? Se toda afirmação é entroncamento algum questionário será bifurcação?! Gabriel Fauré, vos apresento, é um sujeito predicado pelas prerrogativas do salário, muito bom e ingênuo.

Sim ou não que uma condição abalize ou elimine a porventura outra. Embora tenha confessado em pergaminhos e partituras encontradas no chão da escada um subliminar caso amoroso. Fidelíssimo como um cão à sua esposa, as escapadas felinas criam novo odor à tal bigode de algodão-doce.

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Sucessos da Porta dos Fundos

“Dizem que quando o Criador criou o homem, os animais todos em volta não caíram na gargalhada apenas por uma questão de respeito.” Millôr Fernandes

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Propor o riso através da ironia, do achincalhe, sarcasmo, ofensa, maneiras variam e estratégias idem. Mas na essência está preenchido: o ridículo. Afinal a vida dita trágica é conferida de alguma gravidade, enquanto a oposta: o contrário, justamente a banalidade da existência humana leva a aceitarmos graças. O grupo de comediantes e roteiristas reunidos em torno do projeto-empresa “Porta dos Fundos” não se restringe a um único tipo de humor; fruto da heterogeneidade dos envolvidos, cujas escolas e referências mistas auxiliam na saudável geleia geral vista na tela da internet.

O poder de síntese do estilo, tendo o humor como modelo linguístico e, sobretudo, de estética, é utilizado com rara competência; assim como no rock, onde o fundamental, em se tratando de clássico, é o riff. Extrai-se daí um dos trunfos da companhia: os atores, alguns deles, notadamente Gregório Duvivier, Luis Lobianco, Júlia Rabello e Fábio Porchat detém um leque amplo de recursos dramáticos, desde os mais básicos como alteração de voz e fatores concernentes a habilidades físicas até instrumentos sutis de envio da mensagem implícita, apropriando-se de caricaturas e remodelando-as.

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História do Balé na Rússia

“Eis toda a minha vida despida de anedotas, ao invés do que vêm repisando há tanto tempo os grandes jornais, nos quais sempre passei por muito estranho: esquadrinho e não vejo mais nada, exceto dificuldades cotidianas, alegrias, lutos interiores. Algumas idas onde quer que se apresente um balé, que se toque órgão, minhas duas paixões de arte quase contraditórias, mas cujo sentido irá manifestar-se, e é só.” Mallarmé

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O compasso gira. Dança, Constelação e Geometria. As perninhas finas, esticadas e rígidas. Uma eleva-se, sublima, a outra, como estaca, finca. Um círculo imaginário ao redor suspira; leve brisa, bruma, mar, assopra-se, e ele finda. Vejo no cocuruto uma fita: pode ser de pó ou de chita. Rápido evapora, mas é colorida. Qual a estação de canto da Bailarina?

Verão está sob os olhos. Perto do nariz, sardas em pleno ensaio, pintam aqui e ali, o rosto borbulha e ruivos cabelos fixam-se em boldrié. Outono na enseada, o corte do quadril, onde uma leve saia aborda o vento e folhas, e homens, a cair. Da Primavera os saltos, o estouro, o inesperado, apenas num segundo o inseto agora voa, a proa abriga fada.

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Miséria Humana à Luz de Sebastião Salgado

“Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” Lavoisier

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Observei. A miséria humana deve ser mostrada. Ossos, cartilagem, membros, diafragma: estraçalhados. Estilhaços de vida imunda, feia, funda, gasta. Nas costelas à mostra, nos dentes pastosos, no langor dos tornozelos empastados repica a luz. Menina me olha. Menino beija. Mulher implora. Homem ajoelha. Gado apodrece. Feijão se colhe. Corpos amontoados servem-se às vespas, moscas, marimbondos, abelhas. No reino dos mortos arfa a mãe natureza.

A escuridão comum. O forte como um boi zebu. Aguarda a faca, o corte, a ferida. No entanto franzem as correntes de prata, as valiosas armadilhas. O corpo magro não as impediriam. O tornozelo ao chão está restrito. O teu sorriso é um mero veredicto. Os amuletos, vestes, bichos, filhos; foram primeiro; incidem em reza e vício. Mas afinal franzino franze os fios, punhos cerrados, incólumes; martírio. Resiste o bravo, calmo, apolíneo.

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