Sons Naturais de Marku Ribas

“Cantiga do amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
Suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor” Carlos Drummond de Andrade

Marku-Ribas

Reparou no coco. Sobre a rija e esverdeada superfície crepitava o sol. Como uma manta branca a cobrir o fruto, e ainda mais abafá-lo, o astro lhe fascinava os olhos, que ao queimarem-se acentuavam a coloração castanha das pupilas jovens. Escorria na testa, crescendo a partir dos frondosos cabelos e avolumando-se à medida do alcance terreno às igualmente sedosas sobrancelhas, espécie de suores irritáveis e salgados. Intransigente à incômoda sensação assimilou o som.

Se o tiro seco do sol sobre coco dava-lhe o sentimento de um mundo vazio, abstrato, oco, a correnteza das águas nascendo de ti e em si mesmo encerrando-se era a veloz certeza da vida: cheia, convicta, irrefreável. E o sabor enjoativo, perigoso, mal certo, em muita quantidade, para o estômago, não lhe atrapalhou o paladar, pois substituíra o suor próprio por águas doces do enorme rio a banhar Pirapora. Nas beiras do São Francisco conhecia não só os alívios do refrescar-se, mas também as cantigas das lavadeiras.

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Cassino do Chacrinha – Alô, Alô, Terezinha!

“Quem não se comunica, se trumbica!” Chacrinha

Chacrinha

O espelho mirava à frente o homem cujos olhos baços procuravam distinto reflexo. Velho, com cabelos em chumaço de aspecto do algodão, pipocava no meio da cara um protuberante nariz. Os lábios em acento circunflexo lembravam as antigas máscaras de teatro tristonhas. Pronto para a batalha, mantinha o gelatinoso corpo rosa em posição de ataque, com a barriga para derrubar quem lhe insinuasse ameaça: O guerreiro. Calado. Cansado. Careca. Pediu imediatamente à assistente de palco que restituísse ao posto a cartola entregue ao chão. Qualquer desavisado acende as luzes dos refletores, câmeras, ação!

O palhaço ainda não está feito. O palhaço tem seu minuto de silêncio. Afinal acumula minutos, horas, dias, meses, anos à frente deste produto chamado televisão. Desde que migrou de Surubim, cidade natal, interior de Pernambuco, para o Brasil todo, as mudanças não foram poucas. Perdeu o nome, a alcunha de um distante lugar onde eram gravados programas de rádio definitivamente tomou conta de sua personagem. Está neste mundo como um ilusionista, mágico, pois além de não pretender a resposta exata, diverte-se com a confusão, a anarquia, o caos, a encruzilhada. Guerreiro velho.

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Origem do Flamenco na Espanha

“Oh cidade dos ciganos!
Quem te viu e não te lembra?
Cidade de dor e almíscar,
com as torres de canela.” García Lorca

Flamenco

A chama estendia-se involuntária. A chama era uma mulher aflita, e acuada. Por sobre as palhas a mortalha envolvia-os em Terror e Desespero. Os primeiros, ungidos pelo cascalho anil da Salvação, traziam os violões. Bem atrás, distinguidas somente após forçar-se a vista contra o sol, surgiriam, sob mantos negros do luto; mulheres despidas de suas vestes, levadas em meio às rajadas de fogo e as labaredas da ostentação. Crianças agarravam-se afobadas às mãos, não se importando se referentes a tias, mães ou avós.

As pequenas criaturinhas, quase migalhas oferecidas aos abutres que por Fome e Esperança aproximavam-se mexendo com hostilidade as asas, trataram de apressar os passos, e com isso foram soltando pouco a pouco as pedras, indiferentes ao fogo e presas ao solo. Como as senhoras lhes puxassem orelhas, por desrespeito ímpar a Deus e ao Natural, rapidamente treparam nas castanheiras e juraram virar, naquela noite, refeição para abutre. Não existiu alma viva a ignorar petulante pirraça.

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Arte Lúdica de Isabela Couto Machado

“Tem o verde dos sonhos transcendentes,
A ternura bem roxa das verbenas,
A ironia purpúrea dos poentes,
E tem também a cor das minhas penas!” Florbela Espanca

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As ondas não correspondiam à expectativa. Muito contribuiu esta constatação para entender o porquê de passarem despercebidas. Tampouco a presença de três camelos, e não dromedários – como atestava as duas corcovas – fora suficiente para dirigir atenção a elas. Estes, embora enfileirados, e presos por cordas, no montante arenoso das ondas, de imediato despertaram interesse.

As sombras estalavam no chão refletindo a crueldade do sol. No entanto, e nesse instante as ondas avançam, já havia noite. Debocham-se estrelas como bochechas iridescentes e os rostos chupados têm compadecimento. Numa cruz entre casas, e sobre a principal, a cor negra, talvez uma borda, levanta: uma saia, uma manta, ou o esparadrapo.

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Emílio Santiago e o Suingue Inconfundível

“- de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta,
entre as estrelas e o vento.” Cecília Meireles

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O curso de Direito o aguardava naquele horário, no entanto Emílio tinha feito a opção pela música. Entendedor autodidata do que se designava como teórico era na prática que o sorridente negro de olhar carismático começava a tatear o próprio espaço. Flávio Cavalcanti, àquela altura conhecido apresentador de programas de auditório, o interpelou para subir ao palco. Não titubeou, lancinou a platéia com o melhor da irrequieta alma. O suingue inconfundível de Emílio Santiago dava apenas os primeiros passos.

O cenário carioca onde nascera – na capital do Rio de Janeiro e no ano de 1946, dia 6 e mês 12 do calendário – não demorou a apresentar ao garoto os atrativos a se tornarem inegociáveis na vida adulta. Emílio não abriria mão de apaziguar a fúria dos sons; ninar, durante a insônia, as melodias; e domesticar, cheio de palavras doces; letras e harmonias dos compositores da bossa nova, do samba e das noites de balanços intermináveis. Foi numa dessas peregrinações obstinadas que o destino lhe sorriu em troca.

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