Segredos da Bahia de Dorival Caymmi

“se encontrava em meio a uma daquelas crises em que a alma inteira mostra indistintamente o que ela encerra, como o oceano, que, nas tempestades, entreabre-se, expondo desde os sargaços das margens até as areias de seus abismos.” Gustave Flaubert

Dorival-Caymmi

Rede balança a pena do pintor-poeta. Mãos do barro esculpidas n’água. Pedras de areia brincam pele bronzeada. Brincos e badulaques. O mar espreguiça em peixes verdes verdades vidas levadas trazidas pela correnteza, na harmonia Dorival Caymmi (30/04/1914 – 16/08/2008).

Marina (samba-canção, 1947) – Dorival Caymmi
“Marina” conta a história do homem fragilizado diante da força sedutora da sua mulher. Inspirada num mau trato do filho pequeno de Dorival, o que viria a se tornar o cantor e compositor Dori Caymmi, então com três anos idade, que repetia ‘ to de mal com você’, quando contrariado. E foi nesse pequeno gesto infantil que Dorival percebeu que o homem contrariado tende a abolir as questões da maturidade, razão pela qual os romances são sempre difíceis, conduzidos pela volúvel emoção. Fora isso, a canção lançada em 1947 por quatro cantores diferentes, (Dick Farney, Francisco Alves, Nelson Gonçalves, e o próprio autor), rompeu com uma lenda da indústria fonográfica e marcou um costume feminino da época que veio a se consolidar nas décadas seguintes: o de se maquiarem. “Marina morena, Marina, você se pintou…”. O veredito de Dorival Caymmi contra esse tipo de artifício revela sua profunda ligação com a natureza, com as coisas em seu estado natural e integrado: “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu…”

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Crítica: Show de Gal Costa com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

“Minha voz comovia o coração mais duro,
Fizesse eu o galã ou um lacaio obscuro.” T. S. Eliot

Gal-Costa

Gal não apareceu como deveria. A espera alongou-se por algum tempo. Homens trajando violinos, fagotes, trompas, outros inquietos nos assentos marcados, mãos enfiadas nos bolsos das calças jeans, e mulheres com bolsas a tiracolo, violas e flautas, passavam o tempo com o barulho clássico e habitual, de chicletes, tique-taques do relógio a consagrado instrumento. Todos na esperança de Gal.

Que quando apareceu, não como deveria, trouxe nos cabelos o mormaço, um cheiro, da Bahia, de Djavan, um azul de sal. Os beiços ainda frêmitos escandiam as arrancadas folhas de um calendário Maia, destemperanças de Chico Buarque num folhetim barato: a prostituta, o fogo, a fuga, e os aplausos. A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais sob a batuta de Marcelo Ramos sentiu meu bem, meu mal, de Caetano Veloso, em uníssono, cantado em coro.

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Dúvida pertinente na música de Gabriel Fauré

“Balançou-se para a frente e para trás em uma gangorra de raiva e autocomiseração.” Truman Capote

Gabriel-Faure

Como recomeçar o que parou? . É uma pergunta ou resposta. ? Se toda afirmação é entroncamento algum questionário será bifurcação?! Gabriel Fauré, vos apresento, é um sujeito predicado pelas prerrogativas do salário, muito bom e ingênuo.

Sim ou não que uma condição abalize ou elimine a porventura outra. Embora tenha confessado em pergaminhos e partituras encontradas no chão da escada um subliminar caso amoroso. Fidelíssimo como um cão à sua esposa, as escapadas felinas criam novo odor à tal bigode de algodão-doce.

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Sucessos da Porta dos Fundos

“Dizem que quando o Criador criou o homem, os animais todos em volta não caíram na gargalhada apenas por uma questão de respeito.” Millôr Fernandes

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Propor o riso através da ironia, do achincalhe, sarcasmo, ofensa, maneiras variam e estratégias idem. Mas na essência está preenchido: o ridículo. Afinal a vida dita trágica é conferida de alguma gravidade, enquanto a oposta: o contrário, justamente a banalidade da existência humana leva a aceitarmos graças. O grupo de comediantes e roteiristas reunidos em torno do projeto-empresa “Porta dos Fundos” não se restringe a um único tipo de humor; fruto da heterogeneidade dos envolvidos, cujas escolas e referências mistas auxiliam na saudável geleia geral vista na tela da internet.

O poder de síntese do estilo, tendo o humor como modelo linguístico e, sobretudo, de estética, é utilizado com rara competência; assim como no rock, onde o fundamental, em se tratando de clássico, é o riff. Extrai-se daí um dos trunfos da companhia: os atores, alguns deles, notadamente Gregório Duvivier, Luis Lobianco, Júlia Rabello e Fábio Porchat detém um leque amplo de recursos dramáticos, desde os mais básicos como alteração de voz e fatores concernentes a habilidades físicas até instrumentos sutis de envio da mensagem implícita, apropriando-se de caricaturas e remodelando-as.

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História do Balé na Rússia

“Eis toda a minha vida despida de anedotas, ao invés do que vêm repisando há tanto tempo os grandes jornais, nos quais sempre passei por muito estranho: esquadrinho e não vejo mais nada, exceto dificuldades cotidianas, alegrias, lutos interiores. Algumas idas onde quer que se apresente um balé, que se toque órgão, minhas duas paixões de arte quase contraditórias, mas cujo sentido irá manifestar-se, e é só.” Mallarmé

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O compasso gira. Dança, Constelação e Geometria. As perninhas finas, esticadas e rígidas. Uma eleva-se, sublima, a outra, como estaca, finca. Um círculo imaginário ao redor suspira; leve brisa, bruma, mar, assopra-se, e ele finda. Vejo no cocuruto uma fita: pode ser de pó ou de chita. Rápido evapora, mas é colorida. Qual a estação de canto da Bailarina?

Verão está sob os olhos. Perto do nariz, sardas em pleno ensaio, pintam aqui e ali, o rosto borbulha e ruivos cabelos fixam-se em boldrié. Outono na enseada, o corte do quadril, onde uma leve saia aborda o vento e folhas, e homens, a cair. Da Primavera os saltos, o estouro, o inesperado, apenas num segundo o inseto agora voa, a proa abriga fada.

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