Entrevista: Eliana Pittman revisita sucessos da carreira no projeto “Salve Rainhas”

“Quando falas, dizem todos:
Tem uma voz que é um encanto.
Só falando, faz perder
Todo o juízo a um santo.” Florbela Espanca

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Quem a vê assim como a empregada Chica, “num papel totalmente anti-glamour”, ela própria diz, pouco imagina que Eliana Pittman, antes de participar da novela “Sangue Bom” na rede Globo, muito cantou por esse planeta, e acumulou farta bagagem de sucessos e histórias inusitadas, sempre munida do charme e exuberância de sua voz.

REPERTÓRIO
É parte dessa trajetória que Eliana irá apresentar ao público que comparecer neste domingo (29/09) à Funarte, 19 horas, acompanhada do pianista mineiro Dudu Viana, no projeto “Salve Rainhas”, numa espécie de bate-papo musical que promete reunir fatos marcantes e os êxitos inquestionáveis de carreira iniciada em 1963 ao excursionar para a Argentina ao lado do padrasto famoso, o saxofonista Booker Pittman, de quem também herdou o nome artístico.

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Crítica: Peça “Discurso do Coração Infartado”, com Silvana Stein, reflete sobre inadequação

“escarneceu da velha cifra na tabela e falou de embuste, essa foi, à sua maneira, a mais estúpida mentira que a indiferença e a maldade inata puderam inventar, já que não era o artista da fome quem cometia a fraude – ele trabalhava honestamente – mas sim o mundo que o fraudava dos seus méritos.” Franz Kafka

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“Discurso do Coração Infartado”, monólogo protagonizado pela atriz gaúcha – mas radicada há doze anos em Belo Horizonte – Silvana Stein, que também dirige o espetáculo ao lado de Ricardo Alves Júnior; atende a uma demanda essencial nos tempos modernos: apara os excessos e oferece o mínimo de distrações sonoras ou visuais ao espectador, economiza nas tintas (todo o cenário consente ao preto e branco, assim como o protagonista) e investe em falas rápidas e compactas, sempre musicais, advindas da boca ou de qualquer outra estrutura, por exemplo: barulho da geladeira, da vizinha, televisão ou cachorro.

No anseio de um frustrado e envelhecido ator cômico cuja aspiração maior é interpretar os respeitosos papéis dramáticos escritos pela pena do inglês William Shakespeare, em especial “Hamlet”, o jogo de inadequação começa pelo real e atravessa o que é obscuro, ou fantasioso, a atingir o absurdo para, como numa prosódia de Kafka, revelar o besta e ralo cotidiano. Ou seja, Silvana, uma jovem mulher viçosa saboreia os martírios de um corpo deteriorado pelo tempo à espera da morte. Mas esta é somente a casca, afinal esconde uma alma carregada de sonhos e a habitual conseqüência na espécie humana: desilusão.

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O Baile, um filme apaixonante de Ettore Scola

“E de repente o silêncio,
Com os passos da ilusão
Perseguem a criança-sonho
Pelas terras da invenção,
Falando a seres bizarros…
Uma verdade, outra não.” Lewis Carroll

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O vento soprou à porta uma confissão tímida. Esta se abriu na hora, desqualificando a presença das janelas e os outros indiscretos hóspedes: cadeiras, torneira, copos; acomodados preguiçosamente ao bar. À reação inesperada o vento embaralhou-se, e o crescimento da vergonha tomou-o por vermelhidão, tosse, engasgo e finalmente o salto. Como para impedir o tombo a porta lançou-se ao garçom, e ordenou: toque as músicas do baile.

Surpreso, mas nem tanto, com o fato; afinal há muito adormeciam vento, porta, cadeira, torneira, copos; o garçom repetiu o gesto regido pelo automatismo inexistente nos tempos de antes. Os tempos de antes, então, retornaram, com o vigor e a força de quem espera, em hibernação forçada, um novo chamado. À frente do esquadrão vinha o espelho, pela nítida determinação de alcançar o melhor lugar para apreciar, bem de perto, o baile.

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O conto da loucura: Elo Mar

“Então um homem não pode simplesmente abrir uma porta e olhar?” Clarice Lispector

Tarsila-do-Amaral-lua

Acordei louco, uma manhã de setembro. Numa bela manhã de setembro, acordei louco. Com aquele bilhete: “todas essas esferas construídas juntas desabarão”. Meus olhos ardem como ampulhetas carregadas de areia. O tempo, cruel lagarto. Ouço a “Estrela Maga dos Ciganos”, de Elomar, o místico medieval e sertanejo da viola cravada, retirada da pedra, qual espada. Encolhem o deserto de seus ombros, patas nos córregos cansadas. Cigano, esparsa fadas fitas jasmins cabelos. Loiros e cobiçadas morenas. Peito alargado, dum cavalheiro das cortinas.  Andarilho das minhas aspirações aspirinas. Mímico de minhas ilusões (originais) jogadas.

Repousa tuas expectativas na sombra duma árvore frondosa, lá jazem esquecidas, como cinzas de um cigarro recolhidas pelo austero poder. Chora tua saliva fora de lugar, que encontrou nos olhos abrigo melhor que a boca. Caverna repentina, repetindo os repentes dos que caminham no sol a pino, cometendo crimes como o “Estrangeiro”, romance – vivo de Albert Camus. Caminha feito tartaruga, fuga da terra lentamente, nada n’água tuas mais serenas mágoas. Assenta a abelha bem dentr´dedos hasteados para o ventre da mãe serena. Enterre tuas crias e as deixe ao sal molhado do mar; quem sabe ele as dê destino melhor que tua circunstância irrefreável. Fuja das próprias agruras.

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Um telegrama musical para Waldir Silva

“Como um veludo que passa, acalenta e amacia
É a vida da gente, e o que tem de melhor
É nesse amigo se espelhar, com devoção” 

Waldir-Silva

Conheci Waldir Silva no programa “A Hora do Coroa”, transmitido aos domingos de manhã na rádio Itatiaia, sob o comando de Acir Antão. Estava in loco no estúdio, e o admirei pessoalmente. Como de costume carregava ao colo o inseparável cavaquinho. Poucos segundos de atenção foram suficientes para perceber o laço de afeto e necessidade a unir o homem ao instrumento. Mal me dei conta que sempre o ouvia no momento exato do sol de quase meio-dia obrigar o relógio a marcar as onze badaladas e “Zíngara”, uma canção-rumba de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano lançada por Gastão Formenti, aparecer deslumbrante na execução do mestre. Não a toa serve de prefixo musical do atrativo há mais de quatro décadas.

O nosso próximo encontro seria ainda mais decisivo na relação a se estabelecer dali por diante. Ouvindo no rádio o mesmo programa no qual o acompanhei de perto não consegui negligenciar a história sobre uma melodia carente de letra após a morte do jornalista incumbido de tal tarefa. O locutor, ainda por cima, convocava os aspirantes ao gesto. Ao que me candidatei. Então a tarefa árdua tornou-se gratificante ao tomar corpo na voz de Lígia Jacques, a cantar os versos propostos por mim para o chorinho “Apenas duas lágrimas”, em espetáculo no Conservatório da Universidade Federal de Minas Gerais, através do projeto “Pizindin – Choro no Palco”, com a produção de Lilian Macedo e o acompanhamento de diversos compadres.

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