Autor de “Noites Felinas”, Cyril Collard foi poeta, músico, ator e cineasta

“As verdades da vida são sempre ditas na cama.” Cazuza

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Bissexual, experimentado em drogas, vítima fatal da AIDS na década de 90, antes de completar 40 anos. Poeta, compositor, ator, músico e cineasta. Dedicado, sobretudo, à arte. História comum às de Cazuza, Caio Fernando Abreu, Reinaldo Arenas e Renato Russo, entre outros. As semelhanças são várias, mas o que distingue o francês Cyril Collard (morto há 20 anos, em 5 de março de 1993) entre seus pares é, por exemplo, certa veemência aliada à insolente poesia com que registrou a própria vida.

Se do compositor carioca podemos destacar a acidez, do escritor gaúcho o lirismo, do poeta cubano a rebeldia e do cantor criado em Brasília o sentimentalismo, todas essas características aparecem em Cyril de maneira ainda mais petulante, num vulnerável desdém com que conciliou inseparavelmente tudo o que lhe despertava interesse. Assim ele anuncia no filme “Noites Felinas”, no que parece ser um poema e depois cantarola-se quase aos assovios: “dizer não ao canto das sereias ou rugir como um leão na arena?”

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Nilton Santos: o lateral que desafiou o tempo

“Quando caminha, seu pequeno corpo intuitivamente reconstrói o tempo à sua volta, ciente apossa-se da sua quadra no mundo.” Luiz Ruffato

Nilton-Santos

No seu tempo subir ao ataque e descer à defesa era impossível. No seu tempo o Brasil erguer uma taça soava a um plano risível. Afinal o cachorro vira-lata ainda rosnava de medo, defendendo-se ante a ameaça, pela lembrança do fatídico dia, o inesquecível Maracanã de 1950. No seu tempo vestir uma só camisa, do mesmo clube, com uma única estrela no peito, era, até certo modo, concebível.

Mas não da maneira como o fez, não pela lateral esquerda, nem com tamanha categoria. Isto, somente aquele sujeito, de bigode fino, hábil e inteligente, a dar dois passos à risca da pequena área para depois dois acima: e levantar o caneco. Para que não o desmentissem, afinal jogava contra o tempo, juntou uma a uma todas as lembranças numa enciclopédia, apelido pelo qual ficaria conhecido.

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Entrevista: O livro de músicas de Célia, intérprete dramática

“e no zumbido do aeroplano a voz do céu de verão murmurava sua alma impetuosa.” Virginia Woolf

Celia-cantora-entrevista

Os olhos são de Maysa e o humor tem a sagacidade de uma Angela Ro Ro. Apesar das semelhanças com uma que veio antes e outra depois, Célia é cantora peculiar no universo da canção brasileira, a começar pelos “bons modos” com os quais prefere ser conhecida. “Não me conformo em ser o quinto músico de uma banda. Sou a solista interpretando a palavra”, diz. Por isso a alcunha de “intérprete” lhe cai melhor que a de cantora, afinal de contas, “a voz pode ser só um instrumento, como baixo, guitarra, bateria, piano”, ou o “algo mais” que em 42 anos de carreira ela procura, e não raro encontra.

Para 2014 o projeto ambicioso da paulista nascida na capital, mas criada em São Bernardo do Campo, prossegue nesse rumo. Ao lado do ator Marco Ricca e com direção de Jorge Takla – famoso por trabalhar, inclusive, com óperas – ela unirá música e teatro num espetáculo em que “o ator terá que saber cantar e o cantor que interpretar”, afiança. Com “mais de 40 canções no repertório e trechos interligados em que as respostas serão faladas e cantadas”, Célia adianta a presença de “Fala baixinho” de Pixinguinha e Hermínio Bello de Carvalho, unida a “Speak Low”, do alemão Kurt Weill, num mesmo número.

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Entrevista: O Teatro Sonoro de Vânia Bastos

“A luz do sol pingava sobre a casa como tinta dourada em uma jarra artisticamente decorada, e os pontos de sombra que caíam como sardas aqui e ali apenas intensificavam o rigor do banho de luz.” F. Scott Fitzgerald

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Arrigo Barnabé e Edu Lobo podem não ter nada a ver um com o outro, ao olhar primeiro e desatento. Mas numa coisa eles concordam: Vânia Bastos. A cantora paulista, nascida no interior, em Ourinhos, começou a carreira acompanhando o paranaense na banda “Sabor de Veneno”, com o lançamento em 1980 do histórico álbum “Clara Crocodilo”, e dedicou o último trabalho registrado em disco ao compositor carioca identificado, sobretudo, com a bossa nova.

Com discografia de onze títulos autorais, sem contar as participações em bandas e projetos especiais, e mais de trinta anos de carreira, Vânia não para de inovar. Um exemplo recente é a criação de personagem interpretada por ela durante espetáculos. “Eu estava esquentando a voz no camarim e tinha um eco bem bom, a voz ia longe! Comecei a brincar com ‘Upa Neguinho’ (de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri) usando uma voz erudita, de farra! O Ronaldo Rayol (arranjador e violonista) achou que era alguma cantora alemã ensaiando ópera! Rimos muito quando descobriram que era eu, e então o Passoca (cantor e compositor), deu a idéia do nome: Ardah, de Eduarda, e Wolff, que é lobo, em alemão”, explica.

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Entrevista: Quem quiser pode rir de Luis Lobianco, da Porta dos Fundos

“Todo mundo é sério menos eu.” Allen Ginsberg

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Luis Lobianco não teme o riso, neste caso sinônimo de sucesso. Embora o ídolo tenha cravado a “consagração com a vaia” e a “burrice da unanimidade”, o ator, uma das estrelas do projeto-empresa “Porta dos Fundos”, desfruta dos aplausos de forma serena. “Meu humor tem a função de divertir. Isso pode soar simples demais, mas acho que hoje subestimamos a importância de se divertir”, assina, e prossegue na conclusão do tema. “O humor tem infinitas funções: política, denúncia, informação, mas, se não for divertido, não serve pra nada. Tem muito ‘humor do bem’ que não tem graça nenhuma”, opina.

Com 20 anos de profissão começou no teatro aos 11, quando se mudou do Rio de Janeiro para Niterói. Tempos depois, aos 18, voltou à capital para receber o diploma da Casa das Artes de Laranjeiras. Também veio cedo o interesse pelo autor dos dois aforismos citados acima. “Fui precoce em Nelson Rodrigues. Era trágico, pornográfico, mas eu me divertia tanto e aquele humor me atraía”. Por esse motivo sabia em criança, de cor, as falas de filmes nacionais como “A Dama do Lotação”, “Rio Babilônia” e “Os Sete Gatinhos”, todos baseados em obras do escritor, dramaturgo e jornalista.

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