Crítica: peça “Minha Querida” une fragmentos para rir com o drama e chorar com a comédia

“Sou um artista começando… a passar fome. Batam palmas senão onde vou bater bombo?” Wally Salomão

Minha-Querida

Baseada nas obras da argentina Griselda Gambaro e do russo Anton Tchekhov, a peça “Minha Querida”, apresentada na Funarte pelo grupo de Teatro Universitário da UFMG, com direção de Rogério Lopes, une em fragmentos um coletivo de jovens atores cujo talento ajuda a brotar pelo texto crítico, ácido, e, sobretudo, bem humorado. Há uma visão de mundo a ser explorada pelos diversos personagens no corpo da mesma Olga: o ridículo da trajetória humana, inclusive nos momentos mais dramáticos. E o que sensibiliza é que esse olhar de deboche é sempre pautado por alguma ternura, afinal andam e se afogam todos nesse idêntico barco.

Há várias passagens impagáveis, como a canção em castelhano na ode à madeira, material de trabalho de um dos maridos enfadonhos da já cansada Olga. E o desejo que esta demonstra pela morte dele, nas entrelinhas, na exaltação com a possibilidade de um romance novo, mostra que os atores em cena estão dispostos a não poupar nada nem ninguém. Tudo é visto com uma desesperança crônica, até a própria profissão que, ainda em início de carreira, almejam. Afinal os aplausos ressoam sempre que há uma situação dramática, e o riso cobre o desespero sem o menor escrúpulo. Como na cena em que uma das atrizes se joga à porta e sai de lá encharcada de palmas: apenas mãos batendo, tão banais quanto qualquer cólica, é o que parece.

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Entrevista: A música da alma de Hyldon

“Na natureza existem assinaturas
a dispensar a tradição verbal,
a folha do carvalho nunca folha plana.” Ezra Pound

Hyldon

Nem sempre o primeiro a sentir os versos tem o devido reconhecimento. Isso porque na música é habitual confundir quem canta como o dono da letra. Na maioria das vezes pela capacidade do intérprete, que além de alçar a canção ao sucesso a incorpora e reinventa. Casos parecidos com o de “Vapor Barato”, de Wally Salomão e Jards Macalé, imortalizada por Gal Costa, e mesmo “Vida Louca Vida”, de Lobão e Bernardo Vilhena, no registro histórico de Cazuza, assemelham-se ao do compositor Hyldon. É ele o autor das frases marcantes de “Na rua, na chuva, na fazenda”, gravada pelo Kid Abelha, e “As Dores do Mundo”, relançada pelo Jota Quest. E é ele quem lança disco novo, onde toca, compõe e interpreta, intitulado “Romances Urbanos”.

Com discografia que reúne agora quatorze títulos, entre autorais e participações, Hyldon sempre teve como princípio a soul music, e é um dos responsáveis pela difusão do estilo na música brasileira. Como ele mesmo diz, “tudo começou com Little Richard, acho que o ano era 1958, e a música era ‘Tutti Frutti’, um rock pauleira!”, afirma. Daí por diante seus ouvidos encontraram a obra de Ray Charles, em especial a canção “I can´t stop loving you”, e do grupo vocal The Platters, estourado na época com diversos hits, a exemplo da clássica “Only You” e a não menos famosa “My Prayer”. Esses foram alguns dos símbolos que tocaram o menino de sete anos. Era só o começo de uma paixão e uma carreira que não mais se separariam. Mais estava por vir.

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Não há poesia lusa no país dos empedernidos tecnocratas

“Teu dever é lutar pelo Direito. Mas no dia em que encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça.” Eduardo Couture

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No princípio era o verbo. Até que o lustraram e encadernaram. E o verbo já não era verbo. O verbo tornara-se grave, respeitável, de terno, paletó e gravata. Encontrava-se em estantes sob uma lustrosa capa. Ah, o verbo. Agora cobrado em vestibulares o teu sentido, perdeu o bom senso, ganhou imponência. Pouco me importa se Fernando Pessoa sabe conjugar uma frase, se Clarice Lispector segue as normas gramáticas, se Antônio Prata atentou-se à ortografia nova. Pouco me importa se há argumentos jurídicos capazes de tirarem a Portuguesa da enrascada em que por conta própria envolveu-se. O senso de justiça dos homens é anterior ao de legalidade. Assim como o de Poesia.

Repito nada mais do que aprendi com Rubem Alves, um ser muito além da alcunha de escritor, pedagogo e teólogo, que me ensina a perceber o humano, e do humano o erro, e deste erro a mágica. A burocracia trancafiou a essência dos homens. Permito-me o preconceito de discriminar duas profissões e afirmo: há muito as pessoas que optam por serem médicos ou advogados não tem como princípio ajudar ao próximo e promover a justiça, mas construir um plano de carreira. Há muito quem comanda planos de saúde pensa primeiro no lucro e em seguida no câncer. Há muito concursos públicos contratam profissionais capazes de papaguear a respeito do certo, do exato, do inexorável.

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Joe Orton: o autor que usou a morte para causar o riso

“(…) se recusava a alimentar os corvos. (…) Recurso mofado e bolorento! Me chama de vadia para baixo. Me levanto com dignidade, subo na pia, faço um escândalo, entupo o ralo com fatias de goiabada.” Ana Cristina Cesar

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Um autor de teatro que talvez seja mais lembrado por sua morte completaria 80 anos de vida em 2013. Nascido em Leicester, no interior da Inglaterra, Joe Orton viveu somente 34 anos. Assassinado com nove marteladas na cabeça pelo amante Kenneth Halliwell, com quem se encontrou pela primeira vez na RADA (Royal Academy of Dramatic Art), uma das mais respeitadas escolas do gênero no mundo, ele ainda é pouco conhecido e encenado no Brasil, mas não é por falta de méritos.

Basta dizer que durante o ápice da breve trajetória, de 1964 a 1967, Orton trabalhava no roteiro para um filme sobre os Beatles, que naturalmente acabou recusado, devido ao gosto do autor por situações absurdas e subversivas. Sugerir um romance homossexual entre os rapazes da banda e o uso de substâncias alucinógenas não foi bem aceito pelos empresários preocupados com a imagem dos “bons moços”. Por motivo semelhante, Orton foi preso.

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Músicas do Brasil inspiradas em Nelson Mandela

“Ninguém nasce odiando as pessoas por causa da cor de sua pele, ou por seu passado, ou por sua religião. As pessoas aprendem a odiar e, se elas podem aprender a odiar, elas também podem aprender a amar.” Nelson Mandela

Former South African President Nelson Mandela during his meeting with Conservative Party leader David Cameron at The Dorchester in central London. Picture date: Sunday June 29, 2008. Watch for PA story POLITICS Mandela. Photo credit should read: Johnny Green/PA Wire

Não tem cor. Não é a ausência ou presença absoluta. Não tem peso. Não levanta vôo ou afunda. Não tem tamanho. Os pés não estão na terra nem a cabeça nas nuvens. Não tem corpo. Nem está morto. Vive no mundo, apesar de tudo. Não é velho, novo, gasto, contemporâneo. Não é de espécie nenhuma: mamífero, molusco, planta. E posso dizer como digo, ainda que proibido fosse: que Nelson Mandela é um homem. Afirma aos homens para viver como homens, mulheres, crianças: sem peso, tamanho, cores, espécies, nomes: Amem-se.

Meu Homem [Carta a Nelson Mandela] (samba, 1988) – Martinho da Vila
Com o acompanhamento de Raphael Rabello no violão de 7 cordas, Martinho da Vila registrou em 1990, no álbum “Martinho da Vida”, a composição de sua autoria que já havia sido lançada dois anos antes, em 1988, por Beth Carvalho, esta no LP “Alma do Brasil”. Na canção o sambista descreve um sonho em que desfeito de preconceitos os ensinamentos do líder sul-africano, Nelson Mandela, são seguidos, até que no final lembra-se dos tristes tempos do “Apartheid” e roga para que um dia os sonhos sejam somente doces. “Meu Homem [Carta a Nelson Mandela]” combina em seu percurso melancolia e sensualidade, tanto na interpretação de Martinho da Vila quanto na de Beth Carvalho.

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