Herói de cinema a Rei do Ritmo: as canções de Jackson do Pandeiro

“mas eu antecipo.
Não há substituto para uma vida inteira. (…)
dez mil anos de ritmo-do-coração-pensar-dizer,” Ezra Pound

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Quando nasceu aquele José na Paraíba, os traços nordestinos já prenunciavam que ele seria miudinho, de cabeça chata e pele morena, mas não prenunciavam que aquele José Gomes Filho se transformaria no “Rei do Ritmo”. Um pouquinho que ele cresceu, a cabeça achatou e a pele escureceu devido ao sol que lhe queimava todos os dias, e já começaram a chamá-lo de Jack, herói do cinema mudo americano que desembarcava no faroeste da Paraíba. A mãe não gostou nada daquela história, e enquanto cantava uns cocos aproveitava também para lhe bater e lhe passar o sermão: “Mas é danado mesmo, batizar um filho com nome de José e ver trocarem o nome assim pra Jack.” Mas não adiantou, foi só ele começar a se vestir com chapéu coco na cabeça achatada, inventar um caprichado bigodinho fino e segurar com mãos maliciosas o pandeiro, que lhe batizaram pela terceira e definitiva vez: Jackson do Pandeiro, rei de Alagoa Grande, rei da Paraíba, rei do ritmo do Brasil.

“Vixe como tem Zé
Zé de baixo, Zé de riba
Desconjuro com tanto Zé
Como tem Zé lá na Paraíba”

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Gay, mal-amado e suicida

“Saio quase nada, vejo quase ninguém. Uma vida pra dentro, numa cidade indiferente.” Caio Fernando Abreu

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Vivia na morte desde que matara seu último personagem em um acidente de carro.
Tinha os ombros largos, olhos amarelados e sorria de lado. Sempre sorria de lado, era um modo de parecer simpático sem ser chato. Aliás, tinha horror de ser chamado de chato, embora acontecesse com freqüência quando em uma mesa de bar com os amigos se recusava a tomar mais um chopp ou a cheirar cocaína no banheiro. Aí vinham os insultos: careta, mal-amado, chato. Era de fato mal-amado, isso sempre soubera. A mãe não lhe tinha muito agrado e preferia os outros irmãos, formados em engenharia e com esposas belas. Além disso, deram-lhe o que ela sempre sonhara: netos. Muitos netos. Praticamente um rebanho inteiro. Uma prole saída dum forno de lebres. A mãe ficava tão entusiasmada que parecia sonhar com os filhos fodendo suas mulheres e lhe garantindo mais netos. Como se fosse prova de virilidade, masculinidade, sucesso. E era. E ela sempre dizia. E por isso ás vezes fazia comentários maliciosos com relação à sexualidade dele.

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As Canções de Ângela Maria: Estrela Infinita

“Por essa vida fora hás de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d’oiro fulgindo em muita boca!” Florbela Espanca

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Ângela Maria, a voz doce e quente que canta para o mundo.
A voz do adeus, das brigas e despedidas.
A voz que perdoa os “tapas na cara” e confia no poder de amar do coração.
Como disse Chico Buarque: “Ângela é todas numa só voz.”
Uma voz imensa que enche a “noite vazia” de amor e luz.

“Em nome do amor
Que houve entre nós dois
Deixemos pra depois
O adeus”

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Crítica: peça “Toda Nudez Será Castigada”, com montagem da Cia. Arlecchino, mantém poder de fogo do texto de Nelson Rodrigues

“Só os profetas enxergam o óbvio!” Nelson Rodrigues

Toda Nudez - Alexandre C Mota

O texto de Nelson Rodrigues da peça “Toda Nudez Será Castigada” prevalece na montagem da Companhia Arlecchino, apresentada no Cine Brasil como uma das atrações da 40ª Campanha de Popularização do Teatro e Dança de Belo Horizonte na última sexta-feira (24). Encenada pela primeira vez em 1965, sob a direção de Ziembinski, mantém o poder de choque e desconforto sobre a platéia, em cenas que falam e apresentam uma visão cínica e debochada sobre o sexo, a religião e a família, o que leva a uma reflexão de quanto a sociedade mudou daqueles tempos para cá ou se o alvo do dramaturgo permanece inalterável: a hipocrisia e a obsessão do comportamento humano.

As máximas proferidas por Paulo Rezende, o intérprete de tio Patrício, alter ego de Nelson responsável por desmanchar qualquer convenção e alimentar o circo de fogo, e o desenrolar da história em si, pendendo para o absurdo à medida que o final se aproxima, além da habilidade em dramatizar ao grotesco as situações a partir de frases que mais as ridicularizam e tornam banais, com referência a cuecas, talco nas meias, gravata preta, e etc., servem ao intento do autor de traduzir o quanto sofrimento, prazer e morte podem reverberar na vida das pessoas de diferentes maneiras, basta um olhar ou necessidade, não estando ninguém atrelado a limites que não os do próprio corpo e pensamento.

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Canção do morro: a música que nasce na favela

“E este por sobre nós espelho, lento,
bebe ódio em mim; nela, o vermelho.
Morro o que sou nos dois.
O mesmo vento
que impele a rosa é que nos move, espelho!” Ferreira Gullar

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O morro sempre teve melodia.
Sempre teve música entre seus caminhos.
Caminhos tortuosos, de subidas difíceis e perigosas descidas.
Mas caminhos que apesar das dificuldades sempre criaram bonitas canções.
Caminhos de Cartola, de Wilson Batista.
Caminhos de Carlos Cachaça, de Ismael Silva.
Caminhos dos bambas, dos passistas da escola de samba e da vida.
Das mulatas guerreiras que erguiam suas latas d’água na cabeça e seguiam em frente, em direção ao novo dia.
Canções que foram feitas para o céu, para Ave Maria, pras cabrochas de pé no chão.

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