Enredo da Polca na Polônia

“Amáveis
Mas indomáveis
O poeta e seu cavalo.
Um arcabouço pensado
Para limitar-se ao pouso
E do voo, alimentar-se.” Hilda Hilst

Polca-Polonia

O véu de neve cobre a planície, as folhas o de orvalho, o homem com seu cachimbo e chapéu de palha está sentado. A barba ruiva lhe coça, de luvas é um feito inábil, observa a fria Polônia. No entanto um potro chacoalha, maltrata o vento e um bafo, das duas bocas escapa. O homem jaz abobado e o animal desaforado. Ante o martírio negro, a depressão, o cansaço, o potro alegria espalha. Um simples subir de patas, dois coices à nuvem ingrata.

A seiva ainda mais se esgarça, o homem outra vez se assusta, pois eis que bem de volúpia, o grilo impulsiona as patas. Inseto tão pequenino, e ainda assim ouriçado, afronta o corpo sentado, afundado em montes de palha. Não teme o frio, a Polônia, as nuvens e seus maciços rastros, às gotas que lhe procuram envia o adeus e ganha os ares. O grilo qual um menino parece de peito de aço, tem fôlego inviolável.

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Crítica: exposição “As Máquinas de Leonardo Da Vinci” aciona o mundo em movimento do artista

“Vida para zombar do movimento:
Pois as cascas, ante mim, movem-se,
Ribombam as palavras: conchas criam conchas.
O homem vivo, longe de terras e prisões,
agita os casulos secos,” Ezra Pound

Maquinas-Leonardo-Da-Vinci

Duas sacolas podem ser dois pesos, como das rodas extrai-se o movimento. A madeira estica, atrai, comprime. O espelho fixa e nele nada mais se distingue. A exposição “As Máquinas de Leonardo Da Vinci” aciona o mundo contemporâneo de um artista ilimitado quanto a tempo, espaço, arte ou física. O traço elaborado quanto o cálculo até mesmo exato progridem na contrição do gesto agudo e enigmático.

Todos: adultos, crianças, homens, mulheres, velhos e adolescentes permanecem com a abobada expressão no verso, pois a capa logo se atreve a tocar incauta os objetos. Alguns elásticos, outros são firmes, mas cinge em torno o inquieto fio. Da sílaba à matemática, da bicicleta ao pára-quedas, do reservatório d’água à porta aberta, o mundo treme. Hélices, acrobacias, um olhar, Mona Lisa, o rufo é seco.

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Entrevista: Eliana Pittman revisita sucessos da carreira no projeto “Salve Rainhas”

“Quando falas, dizem todos:
Tem uma voz que é um encanto.
Só falando, faz perder
Todo o juízo a um santo.” Florbela Espanca

Eliana-Pittman

Quem a vê assim como a empregada Chica, “num papel totalmente anti-glamour”, ela própria diz, pouco imagina que Eliana Pittman, antes de participar da novela “Sangue Bom” na rede Globo, muito cantou por esse planeta, e acumulou farta bagagem de sucessos e histórias inusitadas, sempre munida do charme e exuberância de sua voz.

REPERTÓRIO
É parte dessa trajetória que Eliana irá apresentar ao público que comparecer neste domingo (29/09) à Funarte, 19 horas, acompanhada do pianista mineiro Dudu Viana, no projeto “Salve Rainhas”, numa espécie de bate-papo musical que promete reunir fatos marcantes e os êxitos inquestionáveis de carreira iniciada em 1963 ao excursionar para a Argentina ao lado do padrasto famoso, o saxofonista Booker Pittman, de quem também herdou o nome artístico.

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Crítica: Peça “Discurso do Coração Infartado”, com Silvana Stein, reflete sobre inadequação

“escarneceu da velha cifra na tabela e falou de embuste, essa foi, à sua maneira, a mais estúpida mentira que a indiferença e a maldade inata puderam inventar, já que não era o artista da fome quem cometia a fraude – ele trabalhava honestamente – mas sim o mundo que o fraudava dos seus méritos.” Franz Kafka

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“Discurso do Coração Infartado”, monólogo protagonizado pela atriz gaúcha – mas radicada há doze anos em Belo Horizonte – Silvana Stein, que também dirige o espetáculo ao lado de Ricardo Alves Júnior; atende a uma demanda essencial nos tempos modernos: apara os excessos e oferece o mínimo de distrações sonoras ou visuais ao espectador, economiza nas tintas (todo o cenário consente ao preto e branco, assim como o protagonista) e investe em falas rápidas e compactas, sempre musicais, advindas da boca ou de qualquer outra estrutura, por exemplo: barulho da geladeira, da vizinha, televisão ou cachorro.

No anseio de um frustrado e envelhecido ator cômico cuja aspiração maior é interpretar os respeitosos papéis dramáticos escritos pela pena do inglês William Shakespeare, em especial “Hamlet”, o jogo de inadequação começa pelo real e atravessa o que é obscuro, ou fantasioso, a atingir o absurdo para, como numa prosódia de Kafka, revelar o besta e ralo cotidiano. Ou seja, Silvana, uma jovem mulher viçosa saboreia os martírios de um corpo deteriorado pelo tempo à espera da morte. Mas esta é somente a casca, afinal esconde uma alma carregada de sonhos e a habitual conseqüência na espécie humana: desilusão.

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O Baile, um filme apaixonante de Ettore Scola

“E de repente o silêncio,
Com os passos da ilusão
Perseguem a criança-sonho
Pelas terras da invenção,
Falando a seres bizarros…
Uma verdade, outra não.” Lewis Carroll

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O vento soprou à porta uma confissão tímida. Esta se abriu na hora, desqualificando a presença das janelas e os outros indiscretos hóspedes: cadeiras, torneira, copos; acomodados preguiçosamente ao bar. À reação inesperada o vento embaralhou-se, e o crescimento da vergonha tomou-o por vermelhidão, tosse, engasgo e finalmente o salto. Como para impedir o tombo a porta lançou-se ao garçom, e ordenou: toque as músicas do baile.

Surpreso, mas nem tanto, com o fato; afinal há muito adormeciam vento, porta, cadeira, torneira, copos; o garçom repetiu o gesto regido pelo automatismo inexistente nos tempos de antes. Os tempos de antes, então, retornaram, com o vigor e a força de quem espera, em hibernação forçada, um novo chamado. À frente do esquadrão vinha o espelho, pela nítida determinação de alcançar o melhor lugar para apreciar, bem de perto, o baile.

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