Entrevista: O Teatro Sonoro de Vânia Bastos

“A luz do sol pingava sobre a casa como tinta dourada em uma jarra artisticamente decorada, e os pontos de sombra que caíam como sardas aqui e ali apenas intensificavam o rigor do banho de luz.” F. Scott Fitzgerald

Vania-Bastos

Arrigo Barnabé e Edu Lobo podem não ter nada a ver um com o outro, ao olhar primeiro e desatento. Mas numa coisa eles concordam: Vânia Bastos. A cantora paulista, nascida no interior, em Ourinhos, começou a carreira acompanhando o paranaense na banda “Sabor de Veneno”, com o lançamento em 1980 do histórico álbum “Clara Crocodilo”, e dedicou o último trabalho registrado em disco ao compositor carioca identificado, sobretudo, com a bossa nova.

Com discografia de onze títulos autorais, sem contar as participações em bandas e projetos especiais, e mais de trinta anos de carreira, Vânia não para de inovar. Um exemplo recente é a criação de personagem interpretada por ela durante espetáculos. “Eu estava esquentando a voz no camarim e tinha um eco bem bom, a voz ia longe! Comecei a brincar com ‘Upa Neguinho’ (de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri) usando uma voz erudita, de farra! O Ronaldo Rayol (arranjador e violonista) achou que era alguma cantora alemã ensaiando ópera! Rimos muito quando descobriram que era eu, e então o Passoca (cantor e compositor), deu a idéia do nome: Ardah, de Eduarda, e Wolff, que é lobo, em alemão”, explica.

Veja mais

Entrevista: Quem quiser pode rir de Luis Lobianco, da Porta dos Fundos

“Todo mundo é sério menos eu.” Allen Ginsberg

Luis-Lobianco-entrevista

Luis Lobianco não teme o riso, neste caso sinônimo de sucesso. Embora o ídolo tenha cravado a “consagração com a vaia” e a “burrice da unanimidade”, o ator, uma das estrelas do projeto-empresa “Porta dos Fundos”, desfruta dos aplausos de forma serena. “Meu humor tem a função de divertir. Isso pode soar simples demais, mas acho que hoje subestimamos a importância de se divertir”, assina, e prossegue na conclusão do tema. “O humor tem infinitas funções: política, denúncia, informação, mas, se não for divertido, não serve pra nada. Tem muito ‘humor do bem’ que não tem graça nenhuma”, opina.

Com 20 anos de profissão começou no teatro aos 11, quando se mudou do Rio de Janeiro para Niterói. Tempos depois, aos 18, voltou à capital para receber o diploma da Casa das Artes de Laranjeiras. Também veio cedo o interesse pelo autor dos dois aforismos citados acima. “Fui precoce em Nelson Rodrigues. Era trágico, pornográfico, mas eu me divertia tanto e aquele humor me atraía”. Por esse motivo sabia em criança, de cor, as falas de filmes nacionais como “A Dama do Lotação”, “Rio Babilônia” e “Os Sete Gatinhos”, todos baseados em obras do escritor, dramaturgo e jornalista.

Veja mais

Rei da Embolada, Manezinho Araújo é 100!

“Alegres trópicos: bagana – papanata – ponta
firme – campar com a pururuca – encher a moringa
de fumaça – buchicho – xarope – muquirana.” Wally Salomão

Manezinho-Araujo

Um homem que teve sucessos gravados por Gilberto Gil e Jackson do Pandeiro, conheceu Noel Rosa e despertou o encanto de Carmen Miranda completaria cem anos de vida em 2013. A sentença condicional deve-se tanto ao falecimento (em 23 de maio de 1993) quanto à incerteza da efeméride. Afinal Manezinho Araújo afirma em entrevista a Fernando Faro para o programa “Ensaio” ter nascido em 27 de setembro de 1910, enquanto o Dicionário da Música Popular Brasileira de Ricardo Cravo Albin, e outros veículos de imprensa, o desmentem, determinando o choro do menino a vir ao mundo em 1913.

Pernambucano, natural de Cabo, no interior, “Manezinho Araújo escreveu uma importante página na história da música brasileira. Uma página de muita originalidade e de uma simplicidade que ás vezes pode ser confundida com algo raso, descartável, mas a música dele tinha fundas raízes”, depõe o cantor e compositor Geraldo Maia, que homenageou seu conterrâneo no álbum “Ladrão de Purezas”, lançado em 2011 pela Biscoito Fino, com pérolas pouco conhecidas mescladas a inegáveis êxitos. Conhecido como “Rei da Embolada”, Manezinho é da dinastia de “monarcas” do nordeste, como Luiz Gonzaga (“Rei do Baião”) e Jackson do Pandeiro (“Rei do Ritmo”).

Veja mais

Entrevista: Fátima Guedes caminha sensual entre música e poesia

“Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.” Carlos Drummond de Andrade

Fatima-Guedes

O escritor colombiano Gabriel García Márquez afirma que todo autor passa a vida burilando o mesmo livro, e no caso dele seria o da “solidão”. Maria de Fátima Guedes, conhecida nacionalmente a partir do segundo nome como cantora, compositora e instrumentista nascida e moradora do Rio de Janeiro, afiança: “Toda a síntese da minha obra está na canção ‘Condenados’”.

De versos como “ah, meu amor, estamos condenados/nós já podemos dizer que somos um/e nessa fase do amor em que se é um/é que perdemos a metade cada um”, a música foi lançada no segundo álbum da artista, em 1980, intitulado apenas com o seu nome. Dona de discografia com onze títulos, fora coletâneas e participações, Fátima prepara novidades para 2014, inclusive uma volta a Belo Horizonte.

Veja mais

Jorge Dória: o primeiro ator brasileiro

“Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.” Rilke

Jorge-Doria-primeiro-ator-brasileiro

É do mais polêmico dramaturgo nacional a frase de que Jorge Dória era um canastrão. Nelson Rodrigues, numa de suas sandices graciosas afirmava com todas as letras que “o primeiro ator brasileiro tinha que ser canastrão”. Na continuidade da história contada por Antônio Abujamra a Paulo César Peréio no programa “Provocações” a revelação de que, dez anos mais tarde, ao assistir o mesmo Dória em cena, Nelson entrava chorando no camarim para corrigir-se: “Você não é mais o primeiro ator brasileiro!”.

Intérprete essencialmente cômico, com incursões marcantes por cinema, teatro e televisão, deu-se ao luxo de experimentar gêneros, tipos e de usar e abusar do carisma e principalmente do improviso. No palco Jorge Dória deixava “baixar o santo”, nas próprias palavras, e como de hábito defendia os princípios do humor, da graça e da liberdade. Do Lineu da primeira versão de “A Grande Família”, na década de 70, ao pai que não sabe onde errou em Zorra Total, nos anos 2000, a forma simples e enigmática de provocar o riso no povo.

Veja mais