As Mil Faces de Ney Matogrosso

“Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?” Carlos Drummond de Andrade

Ney-Matogrosso

A cortina do teatro se abre e o homem com voz feminina e pose libidinosa contorna de preto os olhos e pisa firme no palco, pinta de vermelho a boca e aguça os ouvidos para sentir os sons que emergem de seu corpo quase nu. Uma flor vermelha se espreguiça na orelha e ruma para lançar seu perfume por entre os dentes separados desse mago sensual e aflito. O batom vermelho beija bandidamente o público com seus agudos que dançam acompanhando os quadris e as batidas do peito. Colares de pérolas, brilhantes e badulaques completam o espetáculo. O mago se transforma em peixe, em água viva, em pássaro, em lobisomem. Transforma-se num pescador de pérolas. As correntes do homem libertário enfeitam seu corpo, mas não impedem seus movimentos. No palco ele está livre, pula, dança, flerta com milhares de rostos ao mesmo tempo e canta. Canta com sua voz encantada que nenhuma força jamais impediu. Porque não há força capaz de impedir o canto de Ney Matogrosso. Dentro dele há um bicho, uma mulher, um canto imprevisível e sedutor que rebola lascivamente dentro do imaginário e do corpo.

“Esse corpo moreno
Cheiroso e gostoso
Que você tem
É um corpo delgado
Da cor do pecado
Que faz tão bem”

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Gonzaguinha: Grito de alerta e esperança

“Sabendo que o importante não é o aplauso nem a vaia, mas o silêncio que fica depois da música.” Gonzaguinha

Gonzaguinha

Por trás da expressão carrancuda, do semblante de poucos amigos e da barba que escondia-lhe a chance de um sorriso mais largo, havia um coração pronto a explodir do menino que desceu o São Carlos para colocar o dedo na ferida dos problemas sociais e afetivos de mulheres e homens. Filho do Rei do Baião, da dançarina Odaléia e da música brasileira que acolheu com tamanha propriedade, a cara de Gonzaguinha era a de um Brasil que não se entrega e não deixa de apontar as mazelas que atingem as suas pessoas. Com a camisa aberta e o peito à mostra ele escreveu através de suas músicas um retrato sensível, por vezes raivoso, outras vezes irônico, de sentimentos universais e em decadência. Era um grito de alerta, e ao mesmo tempo, de esperança.

Com a perna no mundo (samba, 1979) – Gonzaguinha
Filho de vários pais e de várias mães, Gonzaguinha teve história parecida com a de muitos brasileiros. Nasceu no ventre da cantora e dançarina da noite Odaléia e foi registrado pelo expoente maior da música nordestina levando seu nome. Com a morte da mãe quando ele tinha dois anos, vítima de uma tuberculose, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior foi entregue aos carinhos de dona Dina e seu Xavier, para que o pai pudesse cumprir sua vida de viajante. Luizinho, como passou a ser chamado no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro, logo aprendeu a tocar violão com seu padrinho, a sacar as malícias das ruas, e a ter vontade de conhecer outras bandas. Essa epopéia comum a tantos brasileiros, Gonzaguinha cantou “Com a perna no mundo”, de 1979, em que deixava um caloroso recado à madrinha querida: “Diz lá pra Dina que eu volto, que seu guri não fugiu, só quis saber como é, qual é, perna no mundo, sumiu…”

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Nelson Gonçalves: O Vozeirão da Música Brasileira

“morre a vida e tranqüiliza-se o sangue
até que rompe o novo movimento
e fica ressoando a voz do infinito.” Pablo Neruda

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Um terno alinhado, uma camisa de botão, para as ocasiões mais especiais uma gravata, cabelos penteados para trás, anel de brilhante no dedo, metralha na cintura e na garganta, no gogó, como ele dizia. Assim ele subia ao palco, disparava o vozeirão e era adorado por seu povo. Com sua porção sofisticada e sua porção considerada brega Nelson Gonçalves agradava tanto ao gosto popular como aos ouvidos mais exigentes. Porque Nelson cantava de tudo, tinha voz para cantar de tudo, e cantava como ninguém. Escolhia seu repertório através das canções que mais lhe comoviam e se encaixavam em sua voz. E era exatamente por causa dessa última condição que ele cantava de tudo. A voz de Nelson Gonçalves era maior até que as próprias canções que cantava. Maior do que o próprio mito em torno dele. Nunca ouve voz capaz de vibrar tanto quanto aquele grave. Quando cantava os versos de “Pensando em Ti” com a voz embargada por supostas lágrimas ou concedia a força necessária para a “Renúncia”, Nelson costumava dizer que ele mesmo se emocionava com suas interpretações. Era um homem vaidoso, que gostava de se elogiar, centrado em si, que deixou suas mulheres, sua mãe e seus filhos. Mas que deixou principalmente sua voz, para que pudéssemos ouvi-la e nos emocionar como ele. Municiado por seus “dós-de-peito” Nelson cantava sem nenhum esforço. Cantar, para Nelson Gonçalves, era a coisa mais fácil do mundo.

“Eu amanheço pensando em ti
Eu anoiteço pensando em ti
Eu não te esqueço
É dia e noite pensando em ti
Eu vejo a vida pela luz dos olhos teus
Me deixa ao menos
Por favor pensar em Deus”

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Herói de cinema a Rei do Ritmo: as canções de Jackson do Pandeiro

“mas eu antecipo.
Não há substituto para uma vida inteira. (…)
dez mil anos de ritmo-do-coração-pensar-dizer,” Ezra Pound

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Quando nasceu aquele José na Paraíba, os traços nordestinos já prenunciavam que ele seria miudinho, de cabeça chata e pele morena, mas não prenunciavam que aquele José Gomes Filho se transformaria no “Rei do Ritmo”. Um pouquinho que ele cresceu, a cabeça achatou e a pele escureceu devido ao sol que lhe queimava todos os dias, e já começaram a chamá-lo de Jack, herói do cinema mudo americano que desembarcava no faroeste da Paraíba. A mãe não gostou nada daquela história, e enquanto cantava uns cocos aproveitava também para lhe bater e lhe passar o sermão: “Mas é danado mesmo, batizar um filho com nome de José e ver trocarem o nome assim pra Jack.” Mas não adiantou, foi só ele começar a se vestir com chapéu coco na cabeça achatada, inventar um caprichado bigodinho fino e segurar com mãos maliciosas o pandeiro, que lhe batizaram pela terceira e definitiva vez: Jackson do Pandeiro, rei de Alagoa Grande, rei da Paraíba, rei do ritmo do Brasil.

“Vixe como tem Zé
Zé de baixo, Zé de riba
Desconjuro com tanto Zé
Como tem Zé lá na Paraíba”

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Gay, mal-amado e suicida

“Saio quase nada, vejo quase ninguém. Uma vida pra dentro, numa cidade indiferente.” Caio Fernando Abreu

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Vivia na morte desde que matara seu último personagem em um acidente de carro.
Tinha os ombros largos, olhos amarelados e sorria de lado. Sempre sorria de lado, era um modo de parecer simpático sem ser chato. Aliás, tinha horror de ser chamado de chato, embora acontecesse com freqüência quando em uma mesa de bar com os amigos se recusava a tomar mais um chopp ou a cheirar cocaína no banheiro. Aí vinham os insultos: careta, mal-amado, chato. Era de fato mal-amado, isso sempre soubera. A mãe não lhe tinha muito agrado e preferia os outros irmãos, formados em engenharia e com esposas belas. Além disso, deram-lhe o que ela sempre sonhara: netos. Muitos netos. Praticamente um rebanho inteiro. Uma prole saída dum forno de lebres. A mãe ficava tão entusiasmada que parecia sonhar com os filhos fodendo suas mulheres e lhe garantindo mais netos. Como se fosse prova de virilidade, masculinidade, sucesso. E era. E ela sempre dizia. E por isso ás vezes fazia comentários maliciosos com relação à sexualidade dele.

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