Crítica: Espetáculo “Jovens Hermanos” do Ballet Jovem Palácio das Artes converte poesia em dança

“Dance, dance, senão estamos perdidos.” Pina Bausch

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Percebe-se que é uma dança quando o movimento das cores explode no quadro. Logo de cara, percebe-se que é uma dança. No entanto a dúvida permanece até o fim do ato. Percebe-se que é uma dança das cores, das tintas, no quadro. Portanto são bailarinos ou borrões de guaxe, acrílica, látex? Entre o azul da Argentina e o vermelho Portugal uma rã Brasil pula em verde, mancha as patas, escorre a língua entre uma perna e outro braço.

E uma cabeça, e quadris e um quadro: cores de véus, de vens, de vais. Aplausos. Risca no sol um chão, que racha. Escondem-se as cores, a luz se afasta, a escuridão é que toma conta. Cai o pendão, anuncia a morte, tão solitária, que ainda dança uma cor covarde. Toda amarela ela ri e chora, ela limpa as lágrimas, ela então implora: que volte o quadro. E então à noite aparece a lua, ainda brilham, milhões de anos, as estrelas mortas.

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Entrevista: O Grande Amor de Ana Terra

“Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada
Assim como as canções
Como as paixões
E as palavras” Ana Terra

Ana-Terra

Não é por acaso que as letras de Ana Terra parecem cartas de amor. Embora muita gente não saiba é ela a mulher por trás de versos cantados na boca de Nana Caymmi, Milton Nascimento, Angela Ro Ro, e vários outros. Pois como num passe de mágica tudo começou de forma inesperada, até para a dona do condão. Tanto que ela tem dúvidas em considerar qual a primeira letra de música composta, mas nenhuma em apontar a mais especial dentre todas. “‘Meu menino’, por ter sido apenas um bilhete que deixei para Danilo Caymmi quando começamos a namorar, nunca imaginando que um dia ele musicaria e seria gravada por Nana e Milton”, revela.

Com a espontaneidade e despretensão dos grandes compositores, Ana desfia mais contornos dessa história. “Era apenas uma forma de dizer que adorava seu lado brincalhão de moleque e que meu amor não significava uma posse. Muitas pessoas me dizem que é tudo que uma mulher gostaria de dizer para um homem e que um homem gostaria de ouvir”. Como se não bastasse, além da aclamação popular, a canção recebeu o aval do sogro da letrista, aquele considerado o maior compositor da Bahia, e um dos imortais dentro do cancioneiro nacional. “Da minha parceria com Danilo, essa era a que Dorival mais gostava” orgulha-se.

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Entrevista: No Ritmo de Lucina

“Sol subiu: trabalho
Sol desceu; descanso
cave o poço e beba a água
cave o campo; coma o grão
Poder imperial existe? e para nós o que é?
A quarta; a dimensão do sossego.
E o domínio das feras.” Ezra Pound

Lucina

Quando ouviu João Gilberto cantar no rádio “Chega de Saudade”, Lucina decidiu ser música. E é para matar a saudade dos fãs e entusiastas de sua obra que a consagrada cantora, compositora e instrumentista, ainda com alma de criança, lança em 2014 três álbuns, shows, oficinas e é a protagonista, ao lado de Luhli, do documentário dirigido por Rafael Saar que conta a história das duas. Sobre a iniciativa, a entrevistada analisa: “Há muito várias pessoas tinham essa ideia do documentário, porque fomos ícones da geração 1970 e 1980 e cumprimos um papel único na música”, afirma.

A constatação de Lucina tem lastro. Natural de Cuiabá, capital mato-grossense, ela se encontrou com a carioca Luhli no Rio de Janeiro para fomentarem, com sucesso, uma carreira em parceria que incluiu sete álbuns, músicas gravadas por diversos artistas do primeiro time da MPB, além de contribuir efetivamente com a criação de uma música ligada às raízes campestres no Brasil, através do uso de tambores, violões, violas e letras, de rara sensibilidade, inspiradas nesse universo. “O financiamento do documentário será pela ‘Rio Filme’, logo ele estará nas telonas”, entrega ansiosa.

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Crítica: espetáculo “Nowhereland – Agora Estamos Aqui” incorre em excessos e não envolve espectador

“‘Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?’, e ás vezes: ‘Morcegos comem gatos?’, pois, sabem, como ela não sabia a resposta para nenhuma das perguntas, tanto fazia a ordem que lhes dava.” Lewis Carroll

Nowhereland - Agora estamos aqui

Há boas referências ao universo do cineasta Tim Burton, que o coletivo “Movasse” se propõe a homenagear no espetáculo “Nowhereland – Agora Estamos Aqui”, como às personagens de Beetlejuice, Edward Mãos de Tesoura, Alice no País das Maravilhas, Sweeney Todd – o Barbeiro de Sevilha, e outros. No entanto, a primeira parte do título em inglês já é prenúncio do distanciamento com o público e a incapacidade de envolvê-lo com uma dramaturgia que se perde, confusa, quanto mais se pretende explica-la. A inserção de falas em meio à dança nada acrescenta, pelo contrário, gera momentos constrangedores e despropositados à montagem, como na cena em que uma das atrizes emposta a voz com grossura e depois dirige graças à plateia.

Por outro lado, há os belos e mínimos movimentos de dança que almejam expressar o esquisito, grotesco e incômodo do ser humano tanto explorado pela lente aguda de Tim Burton. Andréa Anhaia, Carlos Arão, Ester França e Fábio Dornas acertam seus chutes à meta. O instante em que uma das protagonistas despe-se externamente e depois do coração, o acompanhamento pelos braços da música ao piano e principalmente o delicado arrumar de cabelo num canto do palco, enquanto outros acontecimentos se sucedem, mostra que a atração tem acertos pontuais, o que não é o bastante para arrebanhar o espectador, que a esta altura, em razão dos outros erros do espetáculo, já tem a exata noção de que tudo não passa de teatro.

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Crítica: peça “No Pirex”, do grupo Armatrux, equilibra a loucura com categoria

“ – Porque eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu o tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.” Franz Kafka

No-Pirex

O texto é tão bem construído através dos gestos, ruídos e arroubos das personagens que não se ouve sequer uma frase ao longo dos 60 minutos de espetáculo. Entenda-se por personagens também os objetos, figurino, cenário, que participam e interferem na peça “No Pirex”, do grupo “Armatrux”, com a mesma precisão e eloquência dos atores Cristiano Araújo, Eduardo Machado, Paula Manata, Raquel Pedras e Tina Dias, todos com um desempenho tão sublime que é capaz de enlouquecer a plateia com toda a insanidade posta em cena e fazê-la crer no absurdo do mundo: uma mera fantasia de traços góticos.

Os recursos de humor físico, sempre explorados em favor de um pensamento ou ideia reflexiva permitem ao grupo arrancar o riso fácil do público sem abrir mão da consciência crítica ou partir para a esculhambação pura e simples. A força de um cuspe, uma facada ou qualquer outra agressão mais grosseira e violenta é capturada em seu melhor ângulo, cuja amplidão e alcance não se perdem no jogo que é feito entre o banal e o extraordinário, o comum e o surpreendente, afinal um retrato da vida sem almejar a pretensa do ininteligível e nunca beirando a rasteira do golpe baixo e omisso. É um malabarismo.

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