Crítica: “Fauna”, do grupo Quatroloscinco, extingue limites pela força da experiência

“Será um gato um tigre mínimo de salão?” Pablo Neruda

Fauna tem atuação de Assis Benevenuto e Marcos Coletta

Todos os elementos caros à cena contemporânea estão presentes em “Fauna”, peça que comemora os 10 anos de atuação do grupo “Quatroloscinco”. É esse um espetáculo moderno, na acepção da palavra, que busca apreender o instante e se abre para o inevitável momento presente. Com pleno domínio e consciência cênica Assis Benevenuto e Marcos Coletta materializam noções como as de performance, improviso e fragmentação que resultam, primeiramente, na extinção de limites inerentes a um certo tipo de teatro, e que recolocam a atividade frente à sua origem: buscar, questionar, investigar e isto requer mais ouvir as respostas do que apresentá-las. Logo, nesta montagem, ninguém está eximido do risco e do desconhecido, nem personagens, que se confundem com os atores, nem o público, que recebe a oportunidade de atuar. Mas não nos enganemos, toda visão de futuro verga o olhar para o começo, e essa consciência, aqui, se faz presente. É possível dizer que Bertolt Brecht e Luigi Pirandello dão suas bênçãos. É o teatro, teatro; que, por isso, mais vida é. E por ser inventada aqui se concebe a partir de uma almejada horizontalidade. Em alguma medida o ciclo que se repete nunca é o mesmo; o novo logo será velho, o velho para sempre existe: como memória, reminiscência ou atavismo. Parábola em que está contido todo o frescor do rio e o convite à transformação.

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Crítica: “A última vida de um gato” presta importante homenagem a Dedé Santana

“Aprendera no Circo, há idos, que a palavra tem
que chegar ao grau de brinquedo
Para ser séria de rir.” Manoel de Barros

Dedé Santana protagoniza "A última vida de um gato"

Associado eternamente ao humorístico “Os Trapalhões”, Dedé Santana não parece se ressentir disto, pelo contrário, demonstra orgulho e gratidão. Artista de circo, antes do estouro nacional fez pequenas participações em filmes como, por exemplo, “A Espiã Que Entrou Numa Fria”, ao lado do intérprete de Zé Bonitinho. Acostumado a servir de “escada” para os companheiros – ou seja, aquele que prepara terreno para que outro se consagre com a piada – na montagem dirigida por Victor Peralta com texto de Alexandre Ribondi é Felipe Cunha quem faz o “garçom” para Dedé marcar os gols. Fica claro desde o início que, mais do que propor um tema, toda a dramaturgia serve, principalmente, para reverenciar e homenagear o protagonista, tornado recentemente “Embaixador do Circo no Brasil”. Aos 80 anos no palco o ator reflete sobre morte, perdas, saudades. A construção do enredo permite que se explicitem os recursos e a qualidade dramática que, ao longo da carreira, lhe foi tantas vezes subestimada. Acerto que torna ainda mais importante este salve. “A última vida de um gato”, como supõe o título, admite que o artista está no passo final da longa caminhada, e a hora é de realizar uma justa retrospectiva.

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Crítica: Peça “Nosso estranho amor” se permite a delicadeza

“Não, nunca fui moderna. E acontece o seguinte: quando estranho uma pintura é aí que é pintura. E quando estranho a palavra aí é que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí é que começa a vida.” Clarice Lispector

"Nosso estranho amor" conta com músicas de Caetano Veloso

Parece fora de moda dos palcos de BH a temática do amor e suas imbricações, ainda mais quando se trata de uma relação convencional a dois, neste caso, entre uma mulher e um homem. Se a história parece repetida, a abordagem dispõe de um delicado trabalho. É essa delicadeza a que se permite que ganha maior destaque em “Nosso estranho amor”, com direção de Cláudio Dias que tece um sensível panorama das confissões – através de silêncios – dos desencontros – por meio de toques e gestos – e, sobretudo – das turbulências da paixão, de caráter tanto construtivo quanto de destruição, com uma satisfatória ilação entre dança, sentimento e sensações. A simplicidade dos objetos cênicos não impede que, criativamente, tornem-se elementos que carregam ao teatro a aura da fantasia e, principalmente, da possibilidade. Se este é o campo da imaginação aqui a liberdade tem a premência de se ofertar.

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Crítica: Peça “…Ricochete!” não deixa claro aonde quer chegar

“na líquida tarde azul zanzou, sem lugar, desguiando-se,” Luiz Ruffato

Peça Ricochete tem direção e atuação de Rita Clemente

É inusitado que, embora faça referência ao título logo em sua abertura, o que suporia explicitá-lo, a peça “Ricochete” deixe escapar o seu significado. Com três pessoas em cena, nos papéis de uma mãe, um filho e um entregador de sanduíches com sua moto, além de interferências pontuais que ecoam a voz de uma atendente pelo telefone, ora vividas por um ator, ora por outro, o enredo, que procura girar em círculos como sugere a própria estrutura cenográfica, parece enredar a si próprio e, nesse contínuo movimento, perder-se mais do que encontrar alguma solução para as intenções a que se aludem. De tanto apontar para mais de uma direção nenhuma delas encontra o tempo necessário para cristalizar-se e ganhar consistência. O texto, por sua assertividade, acaba por imprimir uma pretensão que prejudica a construção das personagens, tornada frágil, e que consequentemente acarreta num irregular desempenho do trio de intérpretes. A direção também parece confusa.

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Crítica: “Ensaio para senhora azul” expressa realidade líquida

“E que a chuva no meu rosto
Faça crescer tenro caule
De flor. (Ainda que obscura.)” Hilda Hilst

Ensaio para senhora azul apresenta solo de Kelly Crifer

O teatro requer coragem, e disponibilidade. No caso de “Ensaio para senhora azul” essa característica é preponderante no jogo que se estabelece entre personagem, atriz e público. No solo de Kelly Crifer a atuação se vale de enganos sem os quais seria impossível levar toda a complexidade proposta adiante. A luz é um desses truques, capaz de tornar palpável apenas através de cores as diferenças entre fantasia e realidade, exatamente o que a presença da intérprete procura misturar. No entanto, é justamente ela quem comprova a todo instante certa materialidade, a partir de uma dicção coloquial e de texto que, a despeito da conotação poética e metafórica procura afirmação frente a questões agudas e, nesse sentido, sensitivas, tanto quanto sensíveis. A dramaturgia a que se chegou com Assis Benevenuto, Kelly Crifer e o diretor Robson Vieira, tomou por base palavras dos já citados, além de Grace Passô e Viviane Ferreira, e suas passagens inspiradoras superam aquelas irregulares.

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