Cinema: Para Roma, Com Amor

“Porque criar uma obra de arte, se sonhar com ela é tão mais doce?” Giotto (Pasolini – Boccaccio)

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Woody Allen é contumaz usurário em esfregar nas fuças com pano de chão torcido e pia pingando uma única gota: o absurdo, crível e ridículo da sobriedade nossa de cada dia. Sim, não há nada de alucinante no homem cantando ópera debaixo do chuveiro, no mísero desconhecido sendo atacado por repórteres como migalhas por roliças pombas, nem nos desfechos e fechos a tetra-chave dos relacionamentos amorosos.

Para Roma, Com Amor – cartão postal timbrado a água da Fontana di Trevi, só pode ser subversivo porque decide colocar essas situações sobre o pano da caixa sem fundo do mágico de araque. Bingo! Araponga perfeita para o ataque do escrutínio do diretor: o homem debaixo do chuveiro cantando ópera debocha da moderna arte; o mísero desconhecido fugindo qual pomba desdenha das célebres celebridades; e entre outras veleidades o amor perfeito e convicto de fábulas é tão superficial quanto comer sopa de garfo.

Veem-se muito bem os atores, em destacada hora Roberto Benigni, sempre caminhando idêntico ao relógio enguiçado do coelho de Alice; Penélope Cruz, estonteante na forma de uma prostituta esculturada pelo gênio obsessivo e pervertido de Rodin; o próprio Allen, desinteressado em construir qualquer convicção de gênero, e apontando a metralhadora de cinismos contra a juventude da esquerda sonhadora e retrógrada.

No plano em que a comédia parece deslanchar no sonho, Alec Baldwin presta com discrição as deixas e falas, enquanto Jesse Eisenberg também não emplaca simpatia além dos sorrisos metalúrgico-metálicos. As duas moças disputando em ninho de gatas selvagens o ‘amor’, tão restaurado, do inconsciente e inseguro rapaz, servem somente para o já manjado jogo de tabuleiro xadrez do diretor: a esnobe intelectual tecnocrática e a menina pueril e ingênua, mas desconfiada. Nas peles delas Ellen Page e Alison Pill.

Judy Davis rechaça plena tentativa de discriminá-la a partir da personagem, no caso, uma psicóloga cheia de teorias camufladas, pois a própria sugere a partir de expressões mínimas e insensatas a sensatez do trabalho em cena. Um show particular e detalhado, à parte, apenas para os atenciosos. Ornella Muti, noutra comporta, é a homenagem de Woody Allen às eternas musas e deusas do cinema.

O casal recém-matrimoniado e fulo de planos e expectativas para o futuro próximo, entre aventuras e trapaças ruínas e muralhas, na “Cidade Eterna”, soa um pouco sem-graça, reiterando apenas a desesperança em mexer com garfo a sopa bem requentada do diretor norte-americano, sobriamente saborosa e azeitada com rescaldos de ingratidão. Allen parece saudoso do passado, ao passo furado do sapato em que pisa na eternidade…

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Raphael Vidigal

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