Crítica: “Papo de Segunda” lança olhar cômico e enviesado para qualquer assunto

“Quando for fazer um agrado a um amigo ou a uma criança, dê-lhes o que eles gostam, nunca o que seja bom para eles.” G. K. Chesterton

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Um dos conceitos básicos implementados pela dramaturgia clássica foi a criação de tipos. Ou seja, a congregação de características ao mesmo tempo diversas e complementares. É possível percebê-la, sobretudo, na comédia, de que são exemplos os filmes dos Irmãos Marx e dos Trapalhões, em que se distingue nitidamente na versão brasileira a presença marcada do nordestino, do negro e sambista do morro, do carioca metido a galã e do homossexual infantil. Conformação que atende às novelas românticas e até as chamadas “mesas redondas”, inventadas na televisão brasileira para o debate esportivo. Nelson Rodrigues, João Saldanha e Armando Nogueira protagonizaram uma das mais emblemáticas do gênero. O “Papo de Segunda”, transmitido pelo canal fechado GNT na segunda-feira das 22h às 23h, não foge a esse contexto.

Crítica: “Amor & Sexo” é melhor quando não se leva a sério

“Amor é bossa nova/Sexo é carnaval” Arnaldo Jabor & Rita Lee

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Transmitido agora aos sábados à noite, o programa “Amor & Sexo”, comandado por Fernanda Lima na Rede Globo dá um respiro de liberdade na grade da sempre tão vigilante emissora. Longe de ser ousada, a atração atende ainda às premissas da nossa classe média, mas serve como aperitivo para dispersar nosso pedantismo anacrônico e o conservadorismo latente. Embora não chegue perto da transgressão com que programas da TV por assinatura já trataram do assunto para os padrões da nossa TV aberta é algo novo.

Fernanda Lima tem desenvoltura com o tema e, de acordo com a abordagem proposta, não incomoda ninguém, pelo contrário. Mas o melhor da festa são os comentaristas amadores, que garantem, senão rebeldia, ao menos alguma irreverência. São os casos de Xico Sá, Mariana Santos, José Loreto e Otaviano Costa, além de outros convidados que se revezam, e que não se levam absolutamente a sério, a grande consagração do programa, não sendo a única, mas certamente a mais efetiva. Nem tudo são flores nesse reino da Dinamarca.

5 parcerias raras de Supla

“Desconfio, pois, dos contrastes superficiais e do pitoresco aparente; eles sustentam sua palavra por muito pouco tempo. O que chamamos exotismo traduz uma desigualdade de ritmo, significativa no espaço de alguns séculos e velando provisoriamente um destino que bem poderia ter permanecido solidário.” Wally Salomão

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Batizado Eduardo Smith de Vasconcelos Suplicy, filho da sexóloga, apresentadora e política Marta Suplicy e de Eduardo Suplicy, um dos senadores mais atuantes da história do PT, Supla sempre foi uma figura exótica no cenário da música brasileira, provavelmente por se considerar, ele próprio, um “bicho estranho” nesse meio. Identificado com a cultura norte-americana desde cedo, foi um dos primeiros a adentrar o universo punk com o apoio da mídia. Ao longo da vida Supla fez de quase tudo, e não se pode afirmar a presença inconteste da qualidade, mas se estabeleceu como uma autêntica celebridade. Cantou com Cauby Peixoto e Roger, da banda “Ultraje a Rigor”, participou de filme com Angélica e “Os Trapalhões”, além de escrever música com Cazuza. Abaixo apresentamos um pouco dessas raras parcerias.

1 música para Dercy Gonçalves

“É a vida mais que a morte, a que não tem limites.” Gabriel García Márquez

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Dercy Gonçalves talvez seja das poucas artistas da história que conseguiu atravessar as décadas tornando-se cada vez mais popular. A imagem que ficou é a da senhora de mais de 100 anos, desbocada e irreverente, mas esse humor escrachado e cheio de improvisos já era uma das marcas da atriz quando ela surgiu para a chanchada brasileira na década de 1950, e atuou em peças e “teatros de revista” hilários ao lado de nomes como Oscarito, Grande Otelo e Zé Trindade, seu par mais repetido nas telas de cinema. Dercy fez de si a própria personagem, uma mulher que rejeitou todos os estereótipos e limites que se impunham ao gênero e transformou a graça em receita de vida. Com sua voz peculiar e delirante foi tão livre que se aventurou, inclusive, na música.

Centenários 2016: Clóvis Bornay representou elite carioca de sua época

“Mãe dos jogos latinos e gregas orgias,
Lesbos, dos beijos lânguidos e dos fogosos,
Ardentes como sóis, frescos quais melancias;
São o ornato das noites e dias gloriosos;” Baudelaire

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Num quadro satírico o comediante Agildo Ribeiro o apresenta como “um dos raros brasileiros alegres desse país”. Clóvis responde com bom humor, sua principal característica. Museólogo por formação e folião por farra, Bornay foi personagem carnavalesco fundamental na transição da música para a fantasia, dos adereços sonoros para os visuais, embora não tenha feito feio como intérprete de deliciosas e maledicentes marchinhas, tais como “Vamos furunfar”, “Dondoca” e “Fla Gay”, e como jurado de Chacrinha e Silvio Santos. Foi partícipe e emblema maior da tal “Cultura da Imagem”, fundada, sobretudo, nas aparências. Tanto que o diretor do “Cinema Novo” Glauber Rocha o utilizou no filme “Terra em Transe” para dar conta desse caráter alegórico.

Racismo nosso de cada dia…

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.” Joaquim Nabuco

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Embora comum a todos, a morte é sempre extraordinária. Nas circunstâncias que levaram o ator e artista plástico Antônio Pompêo, de 62 anos, é possível designar fortes traços de racismo. De acordo com a companheira e atriz Zezé Motta, com quem fundou e participou de movimentos favoráveis à causa negra, o colega estava “recluso e morreu de tristeza”, por ter tido um “talento mal aproveitado”. Para o artista não existe pior condenação do que o limite. E Pompêo estava confinado a uma sociedade de classes, onde os papéis que lhe cabiam, não raro, na arte e na vida, eram os do submisso.

Como para provar não se tratarem de fatos isolados na sociedade brasileira, o dia da morte de Pompêo também obrigou, horas antes, ao namorado misterioso da apresentadora do canal no Youtube Jout Jout Prazer a se posicionar e mostrar o rosto contra as retaliações de racismo sofridas na internet em razão de fotos do rapaz que começaram a circular. Caio causou furor ao quebrar a expectativa dos que o imaginavam segundo o modelo grego de beleza ocidental, ou o príncipe num cavalo BRANCO dos contos de fada. Ele que se considera “pardo”.

Centenários 2015: Zé Trindade consagrou o tipo ordinário

“O que é a natureza…” Zé Trindade

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Zé Trindade está na música do Skank. Está na fala do comentarista esportivo José Trajano. Está na boca do povo. Zé Trindade é a boca do povo. Difícil determinar onde começa a personagem e termina o intérprete. O próprio se valia de referências da vida pessoal, autodenominando-se “baiano e muito vivo!”. Num dos inúmeros bordões que perpetrou, tirava sarro da aparência: “É chato ser gostoso”. “Baixinho, feio e sempre safado”, nas palavras do crítico de cinema Inácio Araújo, aliás, os tais bordões servem de principal esteio às atuações de Trindade que, diferente de outros comediantes, não se agarrou a um, mas criou inúmeros deles. Judiado pelas mulheres, o comediante sempre arranja uma saída criativa para as confusões que arruma. Talvez seja este o principal ponto de aproximação de Zé Trindade com o seu povo.

2 músicas cantadas por Marília Pêra

“Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação.” Mario Quintana

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Embora tenha se destacado, principalmente, como atriz, Marília Pêra foi uma artista de múltiplos talentos, o que comprovam sua formação prática e teórica. Iniciou a trajetória como bailarina e integrou o corpo de peças de teatro em que reverenciava e vivia Carmen Miranda. A influência musical na carreira e na vida de Marília pode ser sentida por duas circunstâncias. Em primeiro lugar, os discos que gravou e dos quais participou como intérprete, e em segundo a busca por uma dicção para suas personagens que, para os mais atentos trazia sempre algo de musical, e mais do que isso, de ritmo, de tempo, de respiração. Atributos fundamentais para a comédia, onde se destacou, mas também em outras vertentes como o drama e o romance. Marília foi uma atriz completa.

Análise: Tutuca foi um artista do tempo em que o humor tinha marca

“deve deixar o povo desempenhar comédias
e os historiadores registrarem os fatos
deve deixar os pobres falarem mal dos impostos.” Ezra Pound

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Tutuca pertenceu a uma categoria de intérpretes que se distinguiu por imprimir uma marca às suas personagens, o que se convencionou chamar de “bordões”. Artifício que mais tarde caiu no limbo, embora outros atores tenham voltado a se destacar ao colocar sua personalidade em cena, casos de Al Pacino, Jack Nicholson e Paulo César Peréio. A criação de uma personagem acoplada ao intérprete perdeu o costume em tempos recentes, onde a capacidade de se camuflar indistintamente e de maneira variada garante os aplausos do ofício. O intérprete que dá vazão a um sem número de performances, a histórias e personagens que vão muito além dele próprio. No tempo da chanchada o astro era o ator de um papel só, e o que se revezava, o coadjuvante. Basta reparar em Zé Trindade, Oscarito, Zezé Macedo, e etc.

Análise: 70 anos de Leila Diniz, mulher sem cortes

“Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
O mar é das gaivotas
E de quem sabe navegar.

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Porque não sabem que o mar
É de quem o sabe amar.” Leila Diniz

leila-diniz

Carlos Drummond de Andrade a homenageou em poesia. Martinho da Vila, Erasmo Carlos, Rita Lee, Elton Medeiros, Paulo César Pinheiro, Carlinhos Vergueiro e Taiguara o fizeram em canções. Milton Nascimento se valeu de um delicado poema de Leila para criar a música “Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”, título oriundo de frase da protagonista, que ajuda a entender um pouco de sua personalidade. Não bastasse isso, a histórica entrevista para “O Pasquim”, recheada de palavrões censurados e em que pregava, principalmente, o “amor livre” e a “liberdade sexual da mulher”, gerou uma enérgica reação do regime militar em vigência, e a censura prévia à imprensa ganhou, à boca pequena, o nome popular de “Decreto Leila Diniz”.