Crítica: Apartamento “302” dá voz a mulheres brasileiras

“a poesia
me come
me penetra
me descobre me revela
gozando em cima de mim
mas eu não cuspo:
engulo” Bruna Kalil Othero

Programa 302 vai ao ar no Canal Brasil toda sexta-feira

A proposta é simples, e o trabalho também – ao menos aparentemente, mas o que fica claro é que há bem mais que aparência. Fotografar mulheres nuas em um ambiente arejado, puro, caiado. Tudo para que elas se sintam à vontade, e os recursos apontam nessa direção. Jorge Bispo, reconhecido fotógrafo do gênero, afirma na apresentação que tinha por princípio “abrir a casa para fotografar mulheres de verdade”, e que, com isto, ao passar do tempo, “a casa se tornou minha e delas”. É verdade, por que a partir da abstração do desnudamento, posto de maneira objetiva e real, as mulheres se revelam muito mais e além dos corpos. O programa vai ao ar no Canal Brasil, na meia-noite de toda sexta-feira e já coleciona mais de três temporadas de reconhecimento.

Análise: 80 anos de Rolando Boldrin, herói da memória nacional

“Êta país tão sinfônico
Que é da América, da América do Sul
Êta país biotônico
Que é do Jeca, do Jeca-Tatu” Rolando Boldrin

Rolando Boldrin apresenta o programa "Sr. Brasil"

Rolando Boldrin desmente duas máximas, uma brechtiana e outra tupiniquim. Pela ordem: “Infeliz a nação que precisa de heróis”; e “O Brasil é um país sem memória”. Rolando é o herói da memória nacional. Fácil provar a hipérbole. Contra a invasão de sertanejos pop, ele mantém, há mais de década no ar, pela valente TV Cultura, um programa de música caipira, não só na vestimenta, no sotaque, como, sobretudo, no espírito, na reverência aos ensinamentos dos simples, ao aprendizado empírico daqueles que creem acima de tudo “nos seus cinco sentidos, o testemunho os leve para onde for geralmente eles não têm medo”, para citar, desta vez com razão, mais uma frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Isto tudo porque Rolando não faz mais do que dar vazão e espaço a uma terra e, principalmente, a uma gente que ele conhece bem. Neste caso, tecer loas à tradição é provavelmente a maior ousadia de Boldrin.

Análise: 80 anos de Moacyr Franco, do riso ao choro

“Ainda ontem chorei de saudade…
Relendo a carta e sentindo o perfume…
O que fazer com essa dor que me invade?
Mato esse amor ou me mata o ciúme…” Moacyr Franco

O cantor, humorista e autor Moacyr Franco

“Saio da montanha, mas a montanha não sai de mim” é um ditado inventado que poderia facilmente ser atribuído a Moacyr Franco. Embora tenha deixado Ituiutaba, no interior das Minas Gerais, há uns bons tempos, o artista jamais se furtou de carregar certo semblante típico dessas paragens. E isto para quem se especializou em desenvolver mais de uma atividade artística, como se todas formassem os “cinco dedos da mesma mão”, parodiando Jô Soares. Franco surgiu como ator, explodiu como cantor, assentou a carreira de compositor, arriscou-se na apresentação e traçou até passos sérios, como político filiado a diversos partidos. Para as duas condições que mais exercitou, entre a música e a dramaturgia, alcançou sucesso através de características díspares, sendo motivo de riso numa e oferecendo sensações para o choro noutra. Pura arte. Moacyr é contemporâneo da época de ouro do rádio no Brasil, e certamente influenciado por essa vertente levou os ensinamentos aprendidos tanto para a televisão quanto a música. Discípulo do bordão, da marca, da canção narrada.

3 quadros de humor sobre o futebol no Brasil

“Se eu não fosse otimista já teria me naturalizado dinamarquês.” João Saldanha

3 quadros de humor sobre o futebol brasileiro

Há, pelo menos, duas formas de arte bem populares no Brasil: uma é o riso, a outra é o drible. Juntas concederam ao público uma mistura capaz de gerar alegria e entusiasmo, crítica e reverência aos nossos craques. Em épocas distintas nossos humoristas optaram, invariavelmente, pela paródia, que aqui veremos representada em três exemplos, o primeiro fornecido pelo mestre de todos eles, vindo do interior do Ceará, o icônico Chico Anysio. Em seguida, pertencente à trupe “Casseta & Planeta”, mas com destaque próprio, toda a irreverência de Bussunda. E mais recentemente um quadro protagonizado pelo coletivo “Porta dos Fundos”, em que a atenção se volta para o gesto da torcida.

Análise: Guilherme Karan tinha embocadura própria para as personagens

“Eles se habituam logo com o deboche. Basta um pouco de tédio…” Jean Genet

guilherme-karan

Fala-se muito no humor da importância da respiração, da pausa, do momento certo de enumerar a piada, ou a deixa, ou a fala. Essencial, tal aspecto, porém, não raramente precisa do acompanhamento de outro, que nem sempre recebe a mesma atenção da crítica e nem dos próprios atores, mas que, em benefício dos que o percebem e utilizam cria para estes a possibilidade de uma “marca”, o que em outros tempos era adquirido pelo “bordão”, capaz de diferenciá-los ainda que confinados a um mesmo espectro de personagem. Com a paulatina desvalorização das intérpretes de um número só, o que se configurava como certo “estilo” para os atores esmaeceu-se em privilégio de certa diversidade.

Crítica: Programa “Nasi Noite Adentro” exalta estilo de vida libertário

“Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa.” Allen Ginsberg

Nasi-Credito-Marcelo-Rossi

De volta à programação do Canal Brasil, emissora paga vinculada à Rede Globo, toda quinta-feira a partir da meia-noite, o programa “Nasi Noite Adentro” confirma sucesso ao emplacar a sua quarta temporada. A atração comandada pelo histórico vocalista da banda paulistana Ira! explora justamente espaços recônditos da capital, ou nem tanto, pois embora anti-convencionais os lugares visitados recebem número significativo de pessoas, como comprovam os episódios; alguns, inclusive, temáticos – de que são exemplos os bastidores de uma filmagem pornô, um hotel dedicado a gays e o bar com estética punk. O estilo de vida libertário exaltado por Nasi e seus convidados recebe abrigo contundente pela noite que esconde e revela seus tabus e segredos.

Crítica: “Bipolar Show” atesta irreverência criativa de Michel Melamed

“Mergulha, sem limites, no espanto e na estupefação; deste modo podes ser sem limites, assim podes ser infinitamente.” Eugène Ionesco

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Não deixa de ser elucidativo que no primeiro trabalho a dar dimensão nacional a Michel Melamed, o espetáculo “Regurgitofagia”, o ator recebesse descargas elétricas vindas da plateia. Assim o múltiplo artista transforma pensamentos elaborados em linguagens abusivas e escrachadas. Desde então, soube dar a esse processo as mais diversas formas, com trânsito por diferentes veículos e o mérito de sempre usar o suporte a favor do conteúdo. Melamed tem como intrínseca característica em seus projetos aliar ao máximo possível certo aspecto escandaloso, de imediata assimilação, sem com isto diluir a complexidade do que propõe. Em “Bipolar Show”, apresentado no Canal Brasil e que estreia sua segunda temporada, toda terça às 21h30, não é diferente. Michel mantém intactas as bases de seu estilo, dentre elas, a livre diversidade.

Crítica: programa “Saia Justa” vai do humor à convenção

“Eu sei que estão todos me vendo. Tem muitos que até esperam de mim, me esperam, homens e mulheres me desejam mesmo sem saber. Eu invento tudo, absoluta.” Ana Cristina Cesar

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O formato é antigo, e a atração também. No ar desde 2002 no canal pago GNT, o programa “Saia Justa” se valeu da fórmula das tradicionais mesas-redondas esportivas para colocar em seu sofá quatro mulheres discutindo os assuntos que lhes parecessem pertinentes, o que já configura, em si, uma importante colaboração e mudança na tentativa de reavaliar os costumes da nossa televisão e, por conseguinte, da sociedade que a assiste. Se ao longo dos anos contou em seu time como nomes como Rita Lee, Fernanda Young, Marisa Orth, Betty Lago, Marina Lima, Mônica Waldvogel e Luana Piovani, hoje quem tenta dar conta do recado é a apresentadora Astrid Fontenelle, as atrizes Maria Ribeiro e Mônica Martelli e a jornalista Barbara Gancia, no que alcançam êxito na maioria das vezes. Permanece, portanto, a tentativa de estabelecer um perfil diversificado entre as participantes, o que é verdade só até certo ponto.

Crítica: “Transando com Laerte” debate os temas mais relevantes da atualidade

“É preciso ir além da moral!” Eugène Ionesco

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Laerte é sinônimo de liberdade. Sempre foi, desde que começou a publicar seus quadrinhos e cartuns na década de 1970, e confirmou com veemência essa característica ao assumir a transexualidade. Mais do que liberdade, passou a ser sinônimo de libertação. Com contribuições pontuais para a televisão, sempre no gênero de humor e sempre como roteirista, como nos casos da “TV Pirata” e do “Sai de Baixo”, ganhou em 2015 a oportunidade dada pelo Canal Brasil, emissora a cabo vinculada à TV Globo, de apresentar seu próprio programa. “Transando com Laerte”, que vai ao ar na madrugada de terças-feiras a partir da meia noite, estabelece temas e recebe convidados que debatem acerca dos acontecimentos mais relevantes da atualidade com a, agora, apresentadora.

Análise: Umberto Magnani vestiu de humanidade suas personagens

“Cresce destroço em minhas aparências.
Nesse destroço finco uma açucena.
(É um cágado que empurra estas distâncias?)
A chuva se engalana em arco-íris.
Não sei mais calcular a cor das horas.
As coisas me ampliaram para menos.” Manoel de Barros

Umberto-Magnani

Talvez os principais papéis interpretados pelo ator Umberto Magnani estejam fora do alcance do público em sua maioria, não apenas pelo teatro que, além de prescindir do registro se habituou a um nicho, mas, sobretudo, pelo cinema, e que ainda poderá ser revisto. Foi através da sétima arte que Magnani teve a oportunidade de desenvolver, munido de seu rosto expressivo, ao mesmo tempo bondoso e marcado, uma das principais qualidades do ofício, a de desmentir a aparência, e oferecer uma personagem contraditória em si. Com sua habitual verve sarcástica e pessimista o diretor Sérgio Bianchi dirigiu Umberto em “Cronicamente Inviável” na pele de um escritor com as mais escusas premissas. A sensibilidade com que o ator leva a história é chocante.