Zé Wilker: o imortal Vadinho

“Quero
Ser o riso e o dente.
Quero ser o dente
E a faca.
Quero ser a faca
E o corte.
Em
Um só beijo
Vermelho.” Tom Zé

Ze-Wilker

Dois dos personagens mais marcantes da carreira do ator José Wilker protagonizaram triângulos que se não eram exatamente amorosos são certamente cheios de humor. O papel título conseguido na novela “Roque Santeiro” e a interpretação de Vadinho na primeira versão cinematográfica de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” exploram o absurdo da existência com pouco ou nenhum grau de profundidade.

Era aí que Zé Wilker deitava e rolava. Pois de uma forma sisuda, elegante, contida, sempre aproveitava as brechas para explicitar o cinismo, desencanto e ironia com que assistia a vida. E assistia do lado de dentro do copo, com uma predileção pela maneira pop de caminhar sobre os trilhos da mídia de grande massa em elementos descombinados, espalhafatosos na cor dos óculos e dos sapatos, rindo do culto à afetação, aos maneirismos.

As Músicas Que Clodovil Cantou

“Em assuntos de vital importância, o estilo, e não a sinceridade, é o verdadeiramente vital.” Oscar Wilde

Clodovil

O falar empolado e as idiossincrasias da personalidade tornaram Clodovil uma figura caricata. Infelizmente, a imagem que cristaliza o tempo nem sempre é a mais próxima da realidade. Estilista consagrado, após estrondoso sucesso passou a se dedicar menos à alta costura e mais àquilo que considerava a realidade da maioria da população de seu país, oposta à dele, já incorporado a uma privilegiada minoria da elite financeira do Brasil. Astuto, Clodovil tanto se ofereceu às artes como estas a ele. Criou moda para peças teatrais e filmes.

Nos palcos não apenas interpretou personagens, inclusive na televisão, quase unicamente sendo o próprio ou algo muito próximo disto – com algum disfarce de troca de nome, quando muito – como se deleitou a soltar a voz com o rigor e a elegância que pautaram suas costuras e alfinetadas, em canções tarimbadas. Além da pecha de barraqueiro, polêmico e briguento, alcunhas construídas pelo apresentador ao longo dos anos em programas muito populares, Clodovil foi um homem com talento e dom para a cultura e a arte.

O Reino do Samba de Carlos Imperial

“E era o seu rosto, sim, que estava entre versos andróginos,
preso em círculos de ar, sobre um instante de festa!
Boca fechada sob flores venenosas,
e uma estrela de cinza na testa.” Cecília Meireles

carlos-imperial

O pilantra que se auto-glorificava, Carlos Imperial, era mestre para advogar elogios em causa própria. Seus pupilos foram sempre dignos de receberem “Dez, nota dez!”, bordão que ele inventou para o carnaval carioca e que espalhava aos borbotões, infiltrando-se nos espaços mais obscuros com as ferramentas mais suspeitas que um rei pode utilizar. Seu Império subiu à superfície na base de muita esperteza, pilantragem e tino para a coisa, como ele próprio sugeria. O que ficou para a posterioridade? A imagem mal afamada de um sujeito querido por suas composições, cheias de suingue e ritmo balanceado, e contestado pela exibição barata de sua cafajestagem.

Mamãe passou açúcar em mim (pilantragem, 1966) – Carlos Imperial
Sem vergonha de utilizar métodos artificiais para promover seus objetivos, o Gordo, apelido de Carlos Imperial por sua postura corpulenta e despachada no comando de seus programas de TV ou no cinema, teve fundamental importância na criação do chamado rock jovem na música brasileira, que mais tarde ele rebatizaria de “pilantragem”. Depois de tentar lançar sem sucesso o ícone da Jovem Guarda que viria a ser Roberto Carlos e de participar da produção do primeiro álbum de Elis Regina, posta para rivalizar com Celly Campelo, Imperial viu no mulato Wilson Simonal sua mina de ouro descoberta. Foi pensando nele que o apresentador, cantor e agitador cultural mais aplaudido e vaiado nos anos 60, compôs a convencida “Mamãe passou açúcar em mim”, em 1966:

“Eu era neném, não tinha talco
Mamãe passou açúcar em mim
Mamãe passou açúcar em mim”

Nada além de Mário Lago

“Fiz um acordo com o tempo, nem ele me persegue, nem eu fujo dele, um dia a gente se encontra” Mário Lago

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Não à toa chamam Mário Lago poeta. Além da função literária, ele desempenhava os serviços de ator, compositor, radialista e teatrólogo. Tudo com poesia. Sem mencionar que por desvios dessa vida que a gente não imagina, formou-se em advocacia, embora procurasse algumas vezes, esconder o diploma adquirido. Fonte de suas escritas eram as mulheres, Auroras e Amélias. E também o fracasso, condição existencial do homem. Por fim, nada além, Mário Lago somente poeta.

Ai, que saudades da Amélia (samba, 1942) – Mário Lago e Ataulfo Alves
Mário Lago disse a vida inteira que Amélia não era mulher submissa, mas solidária, companheira, amiga nas horas difíceis. As feministas não o perdoaram por tais liberdades poéticas concedidas: “ás vezes passava fome ao meu lado, e achava bonito não ter o que comer”. A beleza do sofrimento retratada por Mário Lago, versos, e Ataulfo Alves, música, sobre a mulher idealizada, sinalizavam na realidade a dependência da atual esposa, segundo o próprio poeta: “Você não sabe o que é consciência, não vê que eu sou um pobre rapaz, você só pensa em luxo e riqueza, tudo que você vê você quer.” Lançada no carnaval de 1942, dividiu a preferência do público com “Praça Onze”, de Herivelto Martins e Grande Otelo, e o prêmio teve mesmo destino. No entanto, “Amélia” penou para conquistar garantida sumidade na música brasileira. Foi recusada por todos os cantores as quais se ofereceu, até que o próprio Ataulfo Alves resolveu gravá-la, com a companhia de Jacob do Bandolim tocando a introdução. A trajetória da protagonista não foi das mais suaves, mas ao final, estava consagrada. E olha que Amélia existiu de verdade.

Entrevista: Quem quiser pode rir de Luis Lobianco, da Porta dos Fundos

“Todo mundo é sério menos eu.” Allen Ginsberg

Luis-Lobianco-entrevista

Luis Lobianco não teme o riso, neste caso sinônimo de sucesso. Embora o ídolo tenha cravado a “consagração com a vaia” e a “burrice da unanimidade”, o ator, uma das estrelas do projeto-empresa “Porta dos Fundos”, desfruta dos aplausos de forma serena. “Meu humor tem a função de divertir. Isso pode soar simples demais, mas acho que hoje subestimamos a importância de se divertir”, assina, e prossegue na conclusão do tema. “O humor tem infinitas funções: política, denúncia, informação, mas, se não for divertido, não serve pra nada. Tem muito ‘humor do bem’ que não tem graça nenhuma”, opina.

Com 20 anos de profissão começou no teatro aos 11, quando se mudou do Rio de Janeiro para Niterói. Tempos depois, aos 18, voltou à capital para receber o diploma da Casa das Artes de Laranjeiras. Também veio cedo o interesse pelo autor dos dois aforismos citados acima. “Fui precoce em Nelson Rodrigues. Era trágico, pornográfico, mas eu me divertia tanto e aquele humor me atraía”. Por esse motivo sabia em criança, de cor, as falas de filmes nacionais como “A Dama do Lotação”, “Rio Babilônia” e “Os Sete Gatinhos”, todos baseados em obras do escritor, dramaturgo e jornalista.

Jorge Dória: o primeiro ator brasileiro

“Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.” Rilke

Jorge-Doria-primeiro-ator-brasileiro

É do mais polêmico dramaturgo nacional a frase de que Jorge Dória era um canastrão. Nelson Rodrigues, numa de suas sandices graciosas afirmava com todas as letras que “o primeiro ator brasileiro tinha que ser canastrão”. Na continuidade da história contada por Antônio Abujamra a Paulo César Peréio no programa “Provocações” a revelação de que, dez anos mais tarde, ao assistir o mesmo Dória em cena, Nelson entrava chorando no camarim para corrigir-se: “Você não é mais o primeiro ator brasileiro!”.

Intérprete essencialmente cômico, com incursões marcantes por cinema, teatro e televisão, deu-se ao luxo de experimentar gêneros, tipos e de usar e abusar do carisma e principalmente do improviso. No palco Jorge Dória deixava “baixar o santo”, nas próprias palavras, e como de hábito defendia os princípios do humor, da graça e da liberdade. Do Lineu da primeira versão de “A Grande Família”, na década de 70, ao pai que não sabe onde errou em Zorra Total, nos anos 2000, a forma simples e enigmática de provocar o riso no povo.

Cinema: Zózimo Bulbul

“O sol caía quase a pino sobre a areia e o seu brilho no mar era insustentável.” Albert Camus

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Da argila surgiram cabelos. Cabelos crespos, avolumados, em chumaços. Uma tira inteira com dentes de peixe foi retirada do bolso. Usou-a para penteá-los, embora desobedecesse à ordem da retina acesa, os olhos esbugalhados, as mãos cravejadas por estúpidas bolhas. Estourou-as uma a uma. Então notamos os braços: grossos e algemados.

“- Zózimo Bulbul”, emitiu o som solene e áspero. Na fronte, havia resquício de aparição antiga. Lembrava uma profecia, sombras, antepassados. “Africano”. Com única palavra compreendeu a dúvida, e nos revolveu em próprios enigmas. Não demorou a notar a espera de nossas atitudes, retirou o restante do corpo debaixo da lama, avançou rápido.

Humor: A Grande Família

“O poema é uma bola de cristal. Se apenas enxergares nele o teu nariz, não culpes o mágico.” Mario Quintana

A Grande Família

O seriado “A Grande Família” completa 40 anos da primeira exibição, em 1972, quando a trama escrita por um time de redatores, que ia de Max Nunes a Paulo Pontes, passando por Oduvaldo Viana Filho (o Vianinha) e Armando Costa, invadiu os televisores nacionais. Com direção de Milton Gonçalves, no primeiro ano, e Paulo Afonso Grisolli, nos seguintes, a atração contou com bela recepção do público, e permaneceu ocupando a grade até 1975.

Os personagens eram os mesmos. Centrada na família Silva, a série descortinava a rotina de Lineu, Nenê, Tuco, Bebel, Seu Flor, Agostinho e Júnior, o único filho do casal suprimido na mais recente versão (em virtude do viés político que tornou o personagem anacrônico com o passar do tempo). Esta iniciou-se em 2001, e trouxe como novidade, claro, a mudança dos atores. Porém a qualidade do elenco manteve-se intacta, inegável trunfo capaz de seduzir crianças, jovens e adultos de variadas idades.

Televisão: Marcos Paulo

“É terrivelmente triste que o talento dure mais do que a beleza” Oscar Wilde

Diretor de "Roque Santeiro"

Existe essa certa lenda de que ser galã atrapalha, ser galã incomoda, ser galã relega aos atores sempre os mesmos papéis. Bem da verdade, ser galã trará problemas se esta for a única qualificação do currículo.

Não era o caso de Marcos Paulo, além de bom ator, midiático, dominava os redemoinhos e entremeios das comédias românticas brasileiras, comumente denominadas novelas.

Humor: Avenida Brasil

“Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.” Augusto dos Anjos

Nina e Carminha

Viajei para o interior de Minas Gerais e constatei que Débora Falabella mantém o mesmo sotaque dos tempos em que ainda morava em Belo Horizonte. Esta mania de comer as letras finais e primeiras, deixando só o sumo do interesse entre dentes é patrimônio histórico desta terra.

Na pele da malvada / boazinha Nina, a menina de boneca de pano numa das mãos e faca afiada na outra protagonizou ao lado de Adriana Esteves uma das cenas mais comentadas nos últimos dias. Digo isto pois peguei um ônibus da capital para a cidadezinha interiorana e afirmo: tudo que supera as grades e porteiras da periferia homérica é digno de nota.