Análise: Luiz Carlos Miele combinou arte e entretenimento

“Nunca confie no artista. Confie na história.” D. H. Lawrence

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Para Miele é difícil dizer o que vinha primeiro, arte ou entretenimento. Com um jeito despretensioso, descolado e bonachão, parecia priorizar, sempre, a brincadeira, a diversão da plateia e, principalmente, a sua. Foi daquelas personagens em que não se distingue com clareza onde começa o ator e termina o músico, sempre reinterpretando a própria imagem. Miele esteve presente nos acontecimentos mais relevantes da música popular brasileira, em especial no período de explosão da bossa nova e da classificada MPB quando, como fiel escudeiro do jornalista e letrista Ronaldo Bôscoli, criou programas de televisão e apresentações em teatro para Elis Regina, Wilson Simonal, Pery Ribeiro, Leny Andrade e outros nomes de peso. Mas Miele não se contentou em ficar apenas atrás das cortinas.

5 perguntas nunca respondidas por Paulo César Peréio

“Gênio não é eterno. Depois que ele morre, jamais nascerá outra coisa igual. O medíocre a gente nem percebe que morreu. E, já no dia seguinte à morte de um medíocre, aparece um igualzinho no lugar. A mediocridade, então, é eterna! O gênio, não: todos os gênios são perecíveis”. Paulo César Peréio

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Ás vésperas de completar 75 anos, o ator Paulo César Peréio, um dos mais relevantes do cinema brasileiro, consentiu em receber e responder às perguntas de uma entrevista. No entanto, um tempo depois, com a habitual letargia que o caracteriza no período recente, desistiu, sob a alegação de não manobrar bem a tecnologia, ao descobrir que a distância entre São Paulo e Belo Horizonte nos separava e que não seria possível um encontro à vera, tête-à-tête, pessoalmente.

Como já havia sido feito, e com enorme sucesso, com a artista Elke Maravilha, resolvemos imaginar o que Peréio responderia a essas perguntas que chegaram até ele, mas nunca retornaram a mim. Com larga experiência no cinema, no teatro, e na televisão, o próprio intérprete diz se considerar “uma personalidade performática, um ator essencial, nunca fui um ator característico, aliás, eu não tenho nenhum caráter”, considera com o tom debochado que, quase sempre, empregou a suas personagens. Sem mais delongas, vamos ao exercício lúdico e fantasioso.

Análise: 80 anos de Plínio Marcos, uma voz mordaz e audaciosa

“Já que a voz do injustiçado não é ouvida eles têm direito à cólera.” Plínio Marcos

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Reza a lenda que Nelson Rodrigues não salvava quase ninguém no teatro brasileiro, na categoria dos dramaturgos, e mais do que para não cair ele mesmo num cenário unânime, elegera uma sonora exceção. “Esse Plínio Marcos é bom”, palavras que teriam sido ditas pelo autodenominado “anjo pornográfico”. Outra especulação curiosa sobre Plínio Marcos é a de ser o autor mais censurado do país. A essas benesses, respondia sem falsa modéstia, e com o senso de humor afiadíssimo: “Fiz por merecer. Nunca fiz nada para agradar ninguém”, e, quando finalmente o Brasil se livrou do regime militar, nem por isso deixou de marginalizar Plínio Marcos, que arrematava, “a nova censura é a mídia”.

O teatro de Plínio Marcos, suporte que abrigou com maior relevância e destaque suas produções artísticas, é tão característico quanto o daquele que o elogiou. Tanto Nelson Rodrigues quanto Plínio colocam o dedo em feridas sociais, nos quadros de imobilidade e no que o comportamento humano instaurou de artificial e hipócrita em suas construções civilizatórias. Em Plínio Marcos toda a afetação é extirpada e o que resta é o retrato humano em sua crueza e hostilidade, contra o qual grita com uma voz mordaz e audaciosa. O autor aponta sua lente para os excluídos, fala “da gente que sempre pega a pior, que come da banda podre, que mora na beira do rio e quase se afoga toda vez que chove e que só berra da geral sem nunca influir no resultado”.

Análise: Betty Lago reinterpretou a própria irreverência e estilo

“A moda sai de moda, o estilo jamais.” Coco Chanel

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Betty Lago surgiu para as passarelas, como modelo, na década de 1970, o que por si só já guarda diferenças nada sutis em relação aos anos 1990 e 2000, e torna descabidas as comparações com Gisele Bündchen. A época aplaudia e dava espaço para mais personalidade e menos comedimento, o que logo de cara se percebe ao constatar a beleza que uma e outra representam.

Betty levou para a TV o próprio estilo e personalidade. Não se absteve em pertencer à categoria de intérpretes cuja maneira de ser prevalece ao personagem. Betty Lago é sempre Betty Lago, desfilando para os fotógrafos de Nova York ou sob os olhos atentos dos que a viam de longe, como atriz ou apresentadora, mas que se aproximavam da artista pelo caráter ao mesmo tempo despojado e elegante que conferia às suas atuações.

Caio Fernando Abreu: um retrato de sua vida e obra

“cheio de projetos e sonhos, molhado de amor por tudo, procurando a síntese.” Caio Fernando Abreu

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Caio Fernando Abreu costumava dizer que escrevia seus textos como lentes de aproximação, a partir de uma referência cinematográfica, um zoom que vai aos poucos revelando o que há por trás das aparências, por trás, inclusive, de todo lodo e de toda lama, já que, segundo ele mesmo, o que “há dentro de uma pessoa, está dentro de todas”. Não por acaso o escritor cuja obra se desvelou nas décadas de 1970, 1980 e 1990 é hoje uma referência do estilo, e já pode ser tratada como um clássico, tal como os ídolos Clarice Lispector, Virginia Woolf e a mentora exotérica e espiritual Hilda Hilst, entre outros. Abaixo, pequenos retratos e descrições de sua vida e obra.

Entrevista: As surpresas musicais de Mariana Arruda

“Mas nem uma mulher em chamas
Cede o beijo assim de antemão
Há sempre um tempo, um batimento
Um clima que a seduz
E eis que nada mais se diz
Os olhos se reviram para trás
E os lábios fazem jus” Chico Buarque

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Mariana Arruda surpreende. Inclusive para quem já a conhece. Atriz do grupo “Maria Cutia” desde 2006, ela estreia o espetáculo em que homenageia Chico Buarque, uma de suas maiores, senão a maior, paixão. E canta, entretém, diverte. A busca de originalidade e a mescla em sua vida são duas constantes. “Minha paixão por Chico Buarque vem desde cedo. Quando criança ouvia suas canções cantadas por Elis, Gal e Nara. Esse amor foi crescendo e, em 2005, a paixão tornou-se objeto e o Chico foi tema da minha dissertação de mestrado na Faculdade de Letras da UFMG”. “Francisco”, o atual projeto, foi realizado através do financiamento coletivo na plataforma “Variável 5”. Mariana retorna, então, ao início desse processo que desemboca em apresentação criativa.

“Foram dois anos intensos, ele e eu, suas tantas letras e histórias. Sua obra, inúmeras outras vezes, foi também motor inspirador dos meus experimentos de cena nas pesquisas no teatro, dos meus cartões de aniversário, das dedicatórias de livros… finalmente, chegou o dia de celebrar esse amor platônico”, sublinha. Mas Mariana não está sozinha nesse embalo. E o afeto aparece também para conduzir as participações. “O show começou a surgir nas minhas aulas de canto com a Babaya. Convidei o Leandro Aguiar que também é professor e tem uma história com a música e o teatro, assim como eu. Ele foi do grupo ‘Ponto de Partida’ e escolheu a dedo cada músico para compor a banda e, já no primeiro ensaio, vivemos uma sintonia plena”, garante.

Entrevista: O charme musical de Kícila Sá

“Pés, para quê os quero, se tenho asas para voar?” Frida Kahlo

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Se todo grande time começa com um bom goleiro, a busca de autenticidade começa pela assinatura, no que Kícila Sá não faz por menos. “Posso dizer que sou eu mesma. Quando escrevo, penso no que estou sentindo e como gostaria de me expressar. Pode ser algo do dia a dia, ou um ideal. Acredito que buscar a minha própria voz é uma auto-descoberta, pois a cada dia descubro que posso ser tantas e todas, mas que sou honesta quando sou eu mesma”, afirma. Cantora, atriz e compositora, a artista dispensa, por ora, a “dançarina”, apesar de se expressar no palco com desenvoltura e também posar para fotos com domínio de cena. Natural de Belo Horizonte, emerge no cenário independente da capital. Lançou o primeiro EP em 2012, e atualmente prepara tributo ao centenário de nascimento de Billie Holiday, ao lado de seis outras cantoras.

Esse e outros projetos fazem parte da agenda de Kícila Sá, que não dispensa o mistério. “Sem previsão de show no momento. Minha banda e eu vamos fazer uma imersão para trabalhar num projeto novo. É hora de parar de fazer show e focar. Quero lançar um disco em breve, mas ainda vou soltar na rede um clipe e um vídeo-poema. Estou gravando um curta-metragem com o diretor Ivo Costa que se chama ‘O Presente de Camila’, que deve sair no segundo semestre, e também fica pronto o longa-metragem ‘OTTO’, em que também participo como atriz. Tenho um show dia 28 de junho com o ‘Farside’, que é um projeto de música eletrônica, em que participo com o produtor Daniel Romano, o músico Gabriel Guedes e o baterista Rodrigo Carioca. Têm várias produções em andamento. Não vou contar tudo, pois muita coisa precisa ser finalizada”.

5 músicas cantadas por Zacarias

“Vejo as asas, sinto os passos
de meus anjos e palhaços,
numa ambígua trajetória
de que sou o espelho e a história.
Murmuro para mim mesma:
‘É tudo imaginação!’

Mas sei que tudo é memória…” Cecília Meireles

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Mauro Gonçalves já era conhecido nas rádios de Minas Gerais por suas locuções e imitações antes de levar para a segunda e mais conhecida versão do programa “Os Trapalhões” a personagem de Zacarias. Adornado com voz fina, risada característica, peruca, roupas e gestos infantis, Mauro era considerado pelos outros integrantes do quarteto o único “realmente ator”. Não só pela formação; Didi e Dedé são oriundos do circo, e Mussum do samba, mas especialmente pela gama de recursos que dominava.

Embora tenha se consagrado interpretando Zacarias, Mauro já demonstrara talento em mais de uma personagem no rádio, na TV Itacolomi, na “Praça da Alegria” e inclusive nos palcos de teatro, onde foi premiado com a peça “A Dama do Camarote”. Fazendo uso de sua voz bastante peculiar, criada, diga-se de passagem, especialmente para a personagem, Zacarias, mais de uma vez, interpretou músicas que ganharam todo um charme e humor em filmes ou programas dos “Trapalhões”. Não por acaso o nome da personagem era inspirado num galo que teve ainda na infância, morando em Sete Lagoas.

Centenários 2015: Palhaço Carequinha foi sinônimo de alegria

“Hoje tem marmelada? Tem, sim senhor!
Hoje tem goiabada? Tem, sim senhor!
E o palhaço, o que é? É ladrão de mulher!” Bide e Paulo Barbosa

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A origem da palavra palhaço vem de seu radical “palha”. Isso porque, na Itália, era dela que se constituía a roupa do palhaço. Em inglês, o termo é associado a camponeses e a seu meio rústico. De uma forma ou de outra o palhaço é ligado à simplicidade, e o sentimento que desperta não poderia ser menos complexo: alegria. Daí por que a infância seja a morada do palhaço. No Brasil, Carequinha, vivido por George Savalla, foi sinônimo de alegria para 7 gerações distintas, e reacendeu em adultos a inocência da infância, além de exacerbar essa formação nas crianças.

Carequinha foi um palhaço tradicional, que teve tempo de nascer no circo e ali se consagrar. Filho de uma trapezista e um acrobata que largou a batina por amor à mãe, órfão do pai aos dois anos, Carequinha foi criado pelo padrasto, que assim o rebatizou quando tinha cinco anos, ao colocar-lhe uma peruca sem cabelos na cabeça. Esta o acompanhou pelo resto da vida. Múltiplo, foi também conhecido pelo pioneirismo, e afirmava ter modificado a visão clássica da personagem. “Fiz do palhaço um herói, e não um bobo que só leva farinha na cara. Modifiquei o estilo. A intenção era fazer do palhaço ídolo e não mártir”.

Crítica: “Acredita na peruca” reitera talento de Luiz Fernando Guimarães

“Um romance não devia começar nunca a partir dos sentimentos. Um romance devia começar com ciência e terminar com um acordo.” Oscar Wilde

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Não raro um jogador de futebol confirma sua habilidade em campos esburacados. Essa imagem, reflexo do Brasil, useiro em tornar a dificuldade mola para seu trampolim, aplica-se à estreia de Luiz Fernando Guimarães na televisão paga. “Acredita na peruca”, ideia original do protagonista, reitera o talento de Luiz Fernando pelas faltas que apresenta.

Dirigido e roteirizado pela dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho, especialistas em musicais bem recebidos pelo público, o programa oferece texto calcado no humor físico, onde as trocas de farpas entre as personagens raramente ultrapassam os trocadilhos, as colocações que sublinham estereótipos ou as alusões a fatores da moda, numa tentativa de modernidade pouco eficaz. Nesse contexto, Eucir de Souza, um bom intérprete, fica vendido.