A Música & a Dança de Lennie Dale

“Mais: que ao se saber da terra/não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas/fortes, terrenas, maciças,
mas se orgulha de ser terra/e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,/para vencer quem duvida.” João Cabral de Melo Neto

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Quando chegou ao Brasil, no início da década de 1960, trazido pelo produtor e diretor Carlos Machado para compor a coreografia de “Elas Atacam Pelo Telefone”, o ítalo-americano Lennie Dale, nascido Leonardo La Ponzina na periferia de Nova York; já desfrutara de relativo sucesso na terra natal. Era uma promessa cujo gênio ameaçava, desde cedo, as estruturas vigentes. Integrante do musical da Broadway “Amor, Sublime Amor”, foi barrado pelo diretor Jerome Robbins para a versão cinematográfica. Não deu outra, sem pensar duas vezes carregou as malas cheias de collant e brilho para Londres e passou a ensaiar em uma sala alugada com as portas abertas a fim de exibir seu rebolado.

Daí foi um pulo para participar de programa na televisão italiana com a presença do astro da dança e das telonas Gene Kelly e, logo em seguida, da coreografia do filme “Cleópatra”, protagonizado por ninguém menos que Elizabeth Taylor, de quem se tornou amigo e guardou histórias saborosas para contar entre os mais próximos. Anos depois, também encantou Liza Minelli, e a dirigiu em espetáculos. Tudo isso antes de desembarcar em terras brasilis. O que lhe deu mais do que a cancha necessária para fomentar o estilo de dança da bossa nova, e influenciá-la até no jeito de cantar. Ao registrar dois discos valia-se de estribilhos rítmicos e sonoros para compensar a ausência de voz.

Crítica: peça “O Marido da Minha Mulher” sustenta papéis consagrados

“As noivas modernas preferem conservar os buquês e jogar seus maridos fora.” Groucho Marx

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Datada de 1987 a peça “O Marido da Minha Mulher” conta a história linear do homem que morre em um acidente e volta para atazanar a vida da viúva, do amigo e de um potencial desafeto. Com mudanças pontuais no enredo que contextualizam e se valem de bordões e situações contemporâneas e simpáticas ao espectador da cidade, o período de lançamento do espetáculo tem muito a nos dizer sobre ele. Os quase 30 anos em cartaz são parte importante para analisar o nível de transformação social que ocorreu no país, e, preponderantemente, a falta de uma política efetiva de educação e incentivo à cultura, que a modificasse na essência, não a que se atém às suas margens.

O texto de Sérgio Abritta, que também dirige, reforça e sustenta papéis consagrados na sociedade brasileira, em que o machismo e a homofobia, além de costumes de praxe, eram práticas comuns e bem aceitas, referendadas entre todas as classes. Se naquela época a história já buscava afrouxar e modificar esses estereótipos, para os tempos de hoje eles soam ainda mais inconvenientes e conservadores. Nesse sentido, o riso que desperta soa como um assentimento da montagem a esses papéis outrora bem mais estabelecidos. Há um sentido moral da peça que representa nichos ainda bastante protuberantes na sociedade moderna, e que se incomoda de ter que dividir cada vez mais espaço com as novas tendências.

Crítica: peça “Ignorância”, do grupo Quatroloscinco, denuncia estado de violência das relações

“Édipo não sabia que dormia com a própria mãe e, no entanto, quando compreendeu o que tinha acontecido, não se sentiu inocente. Não pôde suportar a visão da infelicidade provocada por sua ignorância, furou os olhos e, cego, deixou Tebas. (…) O homem é responsável pela própria ignorância.” Milan Kundera

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Dividida em esquetes, a peça “Ignorância”, do grupo Quatroloscinco, também partilha seus integrantes, tendo Assis Benevenuto e Marcos Coletta a cargo do texto correto e da segura direção, e Italo Laureano e Rejane Faria na atuação, com performances dignas de aplausos. A linguagem buscada é a da representação marcada, antinatural. Encenado pela primeira vez em 2015 o espetáculo aborda situações contemporâneas de olho na origem, ao que parece ser seu grande trunfo. A cenografia de Eduardo Andrade e Cristiano Cezarino interfere, com méritos, diretamente na montagem. A iluminação de Rodrigo Marçal também dá seus recados. Já o figurino proposto por Lira Ribas cumpre a função de igualar os atores no palco. A trilha sonora do “Barulhista” causa o incômodo pertinente.

As cenas que se desenvolvem entre a introdução e o fechamento da peça se destacam no conjunto da obra. Na primeira delas a originalidade na distribuição das representações tem algo a nos dizer sobre os papéis sociais desempenhados, e evoca, ainda, sem o caráter da cópia ou repetição, os ecos de “Deus da Carnificina”, da dramaturga Yasmina Reza levada ao cinema, em 2011, pelo diretor Roman Polanski. Na segunda, a comicidade alivia a violência do diálogo. De tom predominantemente sarcástico, o enredo busca denunciar, em suma, esse estado de violência das relações, disfarçado pela aura da civilidade e do ato, quase constante, de “lavar as mãos”; a trágica indiferença.

Análise: Principal marca de David Bowie foi recriá-las

“manchados por esses brilhos úmidos, mudavam de cor com a alacridade de camaleões:” Truman Capote

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Originalidade e proposição são paradigmas fundamentais para a arte, desde o princípio. David Bowie os cumpriu com rigor e teve todo mérito nessa honra. Andrógino, criou personagens para a música, o mais emblemático de todos eles Ziggy Stardust, com o qual abordava a vida interplanetária, e atuou como protagonista e com destaque também no cinema, nos filmes “Fome de Viver”, “Furyo, em nome da Honra”, “Labirinto”, em peça teatral da Broadway, “O Homem Elefante”, e mais uma infinidade. De fato, ficar parado não era para Bowie. Daí a dificuldade em sublinhá-lo, traçar um limite para o artista. Logo, é padrão associá-lo genericamente ao pop, gênero que, por método e na definição, apreende a vários. Ou como bem dito por um dos vértices do nosso Tropicalismo, o bom baiano Gilberto Gil: “Ser pop é querer gostar de tudo”.

Racismo nosso de cada dia…

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.” Joaquim Nabuco

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Embora comum a todos, a morte é sempre extraordinária. Nas circunstâncias que levaram o ator e artista plástico Antônio Pompêo, de 62 anos, é possível designar fortes traços de racismo. De acordo com a companheira e atriz Zezé Motta, com quem fundou e participou de movimentos favoráveis à causa negra, o colega estava “recluso e morreu de tristeza”, por ter tido um “talento mal aproveitado”. Para o artista não existe pior condenação do que o limite. E Pompêo estava confinado a uma sociedade de classes, onde os papéis que lhe cabiam, não raro, na arte e na vida, eram os do submisso.

Como para provar não se tratarem de fatos isolados na sociedade brasileira, o dia da morte de Pompêo também obrigou, horas antes, ao namorado misterioso da apresentadora do canal no Youtube Jout Jout Prazer a se posicionar e mostrar o rosto contra as retaliações de racismo sofridas na internet em razão de fotos do rapaz que começaram a circular. Caio causou furor ao quebrar a expectativa dos que o imaginavam segundo o modelo grego de beleza ocidental, ou o príncipe num cavalo BRANCO dos contos de fada. Ele que se considera “pardo”.

Crítica: musical “Oratório – A Saga de Dom Quixote e Sancho Pança”, da Cia. Burlantins, combina tradição e modernidade

“Aquele que foi chamado o mais encantador dos loucos não foi também dos seres humanos o mais sábio?” Miguel de Cervantes

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O encontro da “Cia. Burlantins” com a história de Dom Quixote de La Mancha criada por Miguel de Cervantes em 1605, na Espanha, revela a união de tradições, mas também a renovação delas. É nessa dicotomia que trabalha o musical encenado pela primeira vez em 2012, e que chega, com frescor, ao quarto ano em cartaz e peregrinando. Com roteiro bem costurado por Eid Ribeiro e direção segura de Paula Manata, o que salta aos olhos na montagem são os figurinos criados por Maria Luiza Magalhães e Janaína Castro, além de bonecos e cenário que ficam a cargo de Conrado Almada e Eduardo Félix.

Isto porque os acessórios e a vestimenta servem para transportar o espectador ao universo fantástico e lúdico do protagonista. A percepção de que o “Cavaleiro da Triste Figura” cria novos significados para o mundo através de sua lupa deturpada da realidade tem seu ponto nevrálgico, sobretudo, nesse acordo tácito tão comum ao teatro e à arte, o que, nas palavras do poeta Manoel de Barros pode ser compreendido pela máxima: “Hei de monumentar os insetos”. Além de uma ode à fantasia, procura extrair o valor daquilo que, pelo costume e a norma, não o mereceria. Em que Arthur Bispo do Rosário é outra referência importante.

2 músicas cantadas por Marília Pêra

“Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação.” Mario Quintana

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Embora tenha se destacado, principalmente, como atriz, Marília Pêra foi uma artista de múltiplos talentos, o que comprovam sua formação prática e teórica. Iniciou a trajetória como bailarina e integrou o corpo de peças de teatro em que reverenciava e vivia Carmen Miranda. A influência musical na carreira e na vida de Marília pode ser sentida por duas circunstâncias. Em primeiro lugar, os discos que gravou e dos quais participou como intérprete, e em segundo a busca por uma dicção para suas personagens que, para os mais atentos trazia sempre algo de musical, e mais do que isso, de ritmo, de tempo, de respiração. Atributos fundamentais para a comédia, onde se destacou, mas também em outras vertentes como o drama e o romance. Marília foi uma atriz completa.

Romance De Três

“Primeiro é o beijo
Quente, procurando
A língua procurando a outra
E vendo se a boca combina
Se combina o beijo” Cazuza

Rene-Magritte-The-Lovers-1928

Posse
Na boca aberta estar dentro. Na boca de dentes e língua. Na boca molhada estar dentro. Na boca que é pura saliva. Na boca como na avenida. Libido dos dentes; tensão da língua. Os dentes que trincam. A língua que adoça a gengiva. A língua com seu sabor molhado. A língua se arrisca; entre os lados, o fim e o começo e, sobretudo, dentro. Dentro a língua; dentro da língua; a língua dentro. Língua de vida, língua saliva. E os dentes em seu cortejo. Abram alas para a língua. E os dentes em seu cortejo, na caverna da boca a língua-morcego. E os dentes em seu cortejo: mordem, arranham e soltam faísca. E os dentes em seu cortejo: marcam o corpo com o branco do leite. Abram alas para língua. Que desejo, que deseja… Dentro da boca, ser possuída…

Análise: Bel Garcia se entregou com força e gana ao teatro

“o céu era açúc ar lu minoso
comestível vivos cravos tímidos
limões verdes frio s choc olate
s. so b, uma lo co mo tiva c uspi
ndo vi o letas” e. e. cummings

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Pecado e virtude são os dois lados da mesma moeda, diria o outro. Esse pecado do teatro é o de não deixar registros, senão na memória e no coração dos que o viram naquele instante, donde reside também sua mágica. Bel Garcia, uma das fundadoras da “Cia dos Atores”, tida e havida por sua predileção pelo experimental, mas que nem por isso deixou de cativar e comover plateias; foi uma atriz que se entregou com força e gana ao teatro. Atuou em papéis que destacavam um lado cáustico e foi, principalmente, a Ofélia de “Ensaio.Hamlet”.

Crítica: peça “O Capote”, de Gógol, debate dramas modernos

“Desapareceu e eclipsou-se um ser que ninguém defendera, que ninguém estimara, por quem ninguém se interessara, que não chamara a atenção nem mesmo de um naturalista, desse que não perde a oportunidade de espetar com um alfinete uma simples mosca e examiná-la com um microscópio” Gógol

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Não é por acaso que Nikolai Gógol é considerado um clássico. Não lhe cabe a crítica do autor “datado”. Embora ambiente suas histórias na Rússia do século XIX, com riqueza de detalhes descritivos e especial atenção às particularidades da metrópole, a essência do texto provoca reflexões que não se esgarçam com o tempo. Daí extrai-se duas hipóteses: ou o ser humano não evolui ou seus problemas de fundo existencial são sempre os mesmos. Na montagem dirigida por Yara de Novaes, com adaptação de Drauzio Varella e Cássio Pires, a boa combinação dos elementos originais do conto “O Capote” junto à inserção de novas linguagens e perspectivas deixa em aberto essa pergunta.