Crítica: espetáculo “19:45!”, da Miúda Cia, apresenta cena viva e pulsante

“nos dois estados encontro pontos de contato – o principal é a distância. Ainda que só diante da loucura tenha experimentado a sensação de eternidade.” Maura Lopes Cançado

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Original desde o princípio, a ousadia da “Miúda Cia.” aparece logo no prospecto do espetáculo, que em nada lembra a economia em voga no tal aspecto, e já anuncia bons prenúncios. De fato, a peça mostra a que veio, embora necessite certo tempo de maturação, o que encontra em seus 80 minutos de duração, com momentos mais altos do que outros, constatação compreensível, afinal de contas mesmo os clássicos dão suas derrapadas ou apresentam situações mornas que muitas vezes servem de preparação para o que seria o ápice. É certo que a narrativa fragmentada, quase episódica, dispersa a forma habitual que pressupõe início, meio e fim, o que não anula, contudo, o que podemos chamar de escalas na construção dramatúrgica. Os degraus de “19:45!”, por fim, se equilibram sobremaneira, com ritmo e harmonia.

A direção de Rita Clemente, que também assina a dramaturgia, toma conta da cena como principal responsável pelo êxito da montagem, compensando até eventuais irregularidades no texto, especificamente quando adota a tonalidade dramática. A narração em off soa empapada, e sua gordura a torna excessivamente artificial e sofisticada, sem o apuro da simplicidade. Nessas horas ocorre um óbvio distanciamento ante a história, inclusive na apreensão das metáforas que, reverente à estética, deixa vazar o seu conteúdo. A utilização dos objetos cênicos segue caminho contrário, é viva, inventiva, veloz, pulsante, e, com todo o lúdico permitido ao teatro ele toca e costura os temas mais espinhosos da atualidade com a fineza e ferocidade duma lâmina. Sempre que opta pelo sarcasmo, a abordagem tem sua pertinência ampliada.

Análise: Umberto Magnani vestiu de humanidade suas personagens

“Cresce destroço em minhas aparências.
Nesse destroço finco uma açucena.
(É um cágado que empurra estas distâncias?)
A chuva se engalana em arco-íris.
Não sei mais calcular a cor das horas.
As coisas me ampliaram para menos.” Manoel de Barros

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Talvez os principais papéis interpretados pelo ator Umberto Magnani estejam fora do alcance do público em sua maioria, não apenas pelo teatro que, além de prescindir do registro se habituou a um nicho, mas, sobretudo, pelo cinema, e que ainda poderá ser revisto. Foi através da sétima arte que Magnani teve a oportunidade de desenvolver, munido de seu rosto expressivo, ao mesmo tempo bondoso e marcado, uma das principais qualidades do ofício, a de desmentir a aparência, e oferecer uma personagem contraditória em si. Com sua habitual verve sarcástica e pessimista o diretor Sérgio Bianchi dirigiu Umberto em “Cronicamente Inviável” na pele de um escritor com as mais escusas premissas. A sensibilidade com que o ator leva a história é chocante.

Análise: Fernando Faro procurou a essência

“Alma é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora…” Rubem Alves

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Foi na ausência de Fernando Faro que Antônio Abujamra ganhou a incumbência de entrevistar Maysa para o programa “Estudos”, da TV Cultura, fortemente influenciado pelo mais que clássico “Ensaio”. “Baixo”, como era conhecido o sergipano de Aracaju criado em Salvador, na Bahia, teve uma reunião de última hora e passou o bastão para o âncora do também marcante “Provocações”. O resultado foi uma das mais fortes entrevistas já concedidas por uma artista, muito pelo temperamento de Maysa e o despojamento oferecido pela atração. Esse episódio, no entanto, em que a participação de Faro se deu em forma de ausência é fundamental na compreensão da ética e dos valores do jornalista que visava alcançar, sobretudo, a essência, o sentido.

Crítica: “Nós”, novo espetáculo do grupo Galpão, enaltece a comunhão

“Se o meu passado foi lama/Hoje quem me difama
Viveu na lama também/Comendo a mesma comida
Bebendo a mesma bebida/Respirando o mesmo ar…” Paulo Marques & Ailce Chaves

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A capacidade de lançar um olhar novo sobre textos clássicos permitiu ao grupo “Galpão” priorizar dramaturgias de autores consagrados ao longo de sua trajetória, sem, com isto, cair na reiteração ou na reverência pura, muito pelo contrário. Desta feita, porém, a companhia leva à cena um espetáculo contemporâneo, com direção de Marcio Abreu que também auxilia na dramaturgia com Eduardo Moreira. “Nós” alcança o mérito de abordar questões de momento sem perder a sua complexidade histórica e temporal, inclusive a partir do recurso cênico da repetição; e prova o quanto é possível panfletar com inteligência e resultado, desde que munido de duas características básicas: humor e sagacidade. O que é válido, até, para o enfoque trágico, quando se apontam dramas modernos sem resvalar no piegas, graças à poética proposta.

Análise: Phedra de Córdoba foi exemplo de arte e coragem

“É um limite igual ao véu
Por sobre o rosto da dama –
Mas cada dobra é um fortim
Com dragões por entre a renda.” Emily Dickinson

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Numa época em que se discute a transexualidade torna-se imperativo lembrar a partida de uma das nossas pioneiras. Phedra de Córdoda, nascida Rodolfo na Cuba de Fidel Castro, adotou o nome artístico e feminino aos 21 anos de idade, inspirada na mitologia grega, cuja tradução literal é “brilhante”. Nada mais apropriado para a atriz e dançarina que não dispensava o glamour. Phedra conheceu o produtor Walter Pinto, famoso pelo teatro de revistas, durante uma excursão da companhia à qual pertencia em Buenos Aires, e decidiu não mais retornar à terra de origem, fixando-se no Rio de Janeiro. Para quem não conhece o tratamento dado pelo regime de Fidel aos homossexuais cabe a autobiografia de Reinaldo Arenas, “Antes que Anoiteça”, de 1990.

Análise: Naum Alves de Souza aderiu à arte sem limites

“O menino poisa a testa
e sonha dentro da noite quieta
da lâmpada apagada
com o mundo maravilhoso
que ele tirou do nada…” Jorge de Lima

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Talvez nenhuma outra atividade do pensamento seja tão subjetiva, nem mesmo a física, mas há aqueles que levam a ferro e fogo a falta de limites da arte. Naum Alves de Souza foi dramaturgo, figurinista, cenógrafo, artista plástico e professor que estendeu suas habilidades sobre o balé, a ópera, a música, a televisão, o cinema e o teatro. De nome incomum, natural do interior de São Paulo, espantou proibições e foi capaz de provar a superação do conteúdo sobre a forma. Independente do suporte, de onde ou para quem estivessem seus trabalhos, o que fazia Naum era arte.

Ele está na capa, no figurino e no cenário do espetáculo “Falso Brilhante”, de Elis Regina; também lhe pertence a arte feita para o balé “O Grande Circo Místico”, com músicas de Edu Lobo e Chico Buarque inspiradas em poesia do alagoano Jorge de Lima; são dele os desenhos que ilustram o álbum; como se não bastasse dirigiu a peça “Suburbano Coração”, adaptou poemas de Adélia Prado para Fernanda Montenegro recitar e interpretar em “Dona Doida”, foi responsável pela direção artística do “Macunaíma” de Antunes Filho e criou a versão brasileira do boneco Garibaldo para a clássica Vila Sésamo.

Análise: Tereza Rachel foi uma autêntica atriz de vanguarda

“Deixai que assim se faça o teatro e comecem
As cenas de verdade
Penetrai bem fundo em toda a vida humana!
Se cada qual a vive, não muitos a conhecem,
A muitos ela engana.” Goethe

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Erguer um teatro no período da ditadura militar no Brasil não é para qualquer um. Talvez só para Tereza Rachel e Ruth Escobar, que lhe inspirou. Mulher, descendente de judeus nascida na baixada fluminense, no Rio de Janeiro, Tereza se destacou como uma das mais importantes atrizes do cenário nacional, não apenas por sua atuação diante das câmeras ou nos palcos, mas, em especial, pelas atitudes destemidas e corajosas, conferindo à palavra artista o seu valor de origem. Vanguarda é uma das melhores expressões que se usa para se referir à Tereza, quase sempre ligada a causas nobres, que iam contra o conservadorismo dos costumes e as tentativas de tolher as liberdades. Encenou em seu teatro autores que para além das nacionalidades traziam esses temas para o centro do debate. De Millôr Fernandes a Tennessee Williams, passando por Anton Tchekhov e Mario Vargas Llosa.

Crítica: “Urgente”, nova peça da Luna Lunera, deflagra opressões do cotidiano

“Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziguezagueante, rouco,
feito da impureza do minuto” Carlos Drummond de Andrade

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Existe o tempo circular, e o cronológico. Algumas coisas se repetem, outras mudam. Em seu novo espetáculo a Cia Luna Lunera traz Zé Walter Albinati de volta aos palcos, e arrisca parceria inédita com a Areas Coletivo de Arte, o que resulta na direção de Miwa Yanagizawa e Maria Sílvia Siqueira Campos, também participantes no texto com a trupe lunática e do cenário, junto de Yumi Sakate. A ousadia revela-se exitosa. Permanece, como de outras montagens e que se estabelece a cada nova peça como identidade da Luna Lunera a investigação das emoções e razões humanas, numa abordagem predominantemente existencial que não exclui contanto aspectos políticos, sociais e estéticos, sobretudo. A iluminação de Felipe Cosse e Juliano Coelho, o figurino e o cenário conseguem ótimas soluções para emoldurar o conteúdo. “Urgente” parte da vivência de cinco personagens que têm algo em comum para além do espaço compartilhado. Os atores trafegam entre fantasias reais.

Análise: 90 anos de Jerry Lewis, o rei da comédia

“A graciosa besta humana perde o bom humor, ao que parece, toda vez que pensa bem; ela fica ‘séria’!” Nietzsche

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Para se ter uma ideia da força de Jerry Lewis basta uma estória verídica contada por Orlando Senna, à época diretor da “Escola de Cinema” cubana. Diz o brasileiro que embora a “linha dura” do regime fosse terminantemente contra, o governo decidiu por permitir a exibição de um filme do ator e humorista norte-americano, mas tomou as devidas providências. “Como era uma comédia deslavada, instruiu os militantes a lotarem as salas, mas com uma condição, que não rissem durante todo o filme, pois desta forma a atração ficaria desmoralizada”, recorda e completa que estes se esforçaram sinceramente para conter a atração de cair na gargalhada. Porém, foi em vão.

Análise: 400 anos da morte de William Shakespeare, o bardo inglês

“‘Há algo de estranho, e que agora se
julgaria muito afetado na linguagem de Shakespeare
Cujos pensamentos comuns estão expressos em palavras
incomuns.’” Ezra Pound

Shakespeare

Muitos já questionaram se ele realmente existiu, tal como Cristo ou até mesmo Deus. E a comparação não é em nada gratuita. Para além do “Ser ou não ser”, o autor de “Romeu & Julieta” talvez seja tão conhecido quanto os outros dois, ao menos indiretamente. Está, por exemplo, na culinária mineira, uma das mais tradicionais do Brasil, na combinação de queijo com goiabada que leva o nome de uma das peças românticas do dramaturgo. Vira e mexe reaparece nos comentários políticos, quando se diz que algo não anda bem: “Há algo de podre no Reino da Dinamarca”, recorrem, trocando por vezes o nome do país.