Crítica: peça “Memórias de Ana” é acessível porque diz respeito a todos

“Uma maneira simples de sentir a linguagem é quando ela falta.” Heidegger

Memórias de Ana traz recursos para inclusão de cegos, surdos e mudos

Somente a proposta inovadora não seria suficiente para tornar “Memórias de Ana” um espetáculo interessante. O mérito reside justamente de que essa linguagem democrática e inclusiva usa dos gestos em sua qualidade cênica que, para além de informar, capta e distribui emoções. Pois é com sentimentos e sensações que se conta uma história. Protagonistas em cena, Dinalva Andrade e Andressa Miranda atravessam com segurança e delicadeza as nuanças da personagem, com destaque para o tom jocoso, e criam, ainda, uma relação harmônica entre si. Dinalva também participa da dramaturgia, ao lado de Allan Machado, que é, sem dúvida, o grande trunfo do espetáculo. Como foi dito, tudo é observado e tido como recurso cênico, extrapolando, assim, sua condição exposta. A função da arte é propor a liberdade, ou alguma libertação.

Análise: 10 anos de Inhotim, museu reconecta arte à natureza

“A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.” Manoel de Barros

Inhotim é reconhecido como maior museu de arte a céu aberto da América Latina

Reconhecido como o maior museu de arte a céu aberto da América Latina, o instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, no interior de Minas Gerais, circula a sua, até aqui, exitosa trajetória ao comemorar 10 anos de história. Exitosa não apenas por que a efeméride é digna de aplausos, mas pelo fato de ter sabido construir, ao longo do tempo, um espaço de celebração da cultura quase sempre democrático. Além das exposições de arte contemporânea, principal cartão-postal do projeto conduzido pelo empresário Bernardo Paz, o instituto passou a produzir e oferecer também espetáculos de música, teatro, cinema, dança e a abrigar, inclusive, a literatura. Tudo isso, portanto, transformou o Inhotim em importante foco de debate e experiência cultural. Experiência esta, esteticamente, sempre ligada à natureza, verdadeiro diferencial da atração, para onde, de alguma forma, tudo converge, sempre. Obras célebres de Hélio Oiticica e Adriana Varejão têm por companhia tulipas, frondosas árvores e borboletas, além de uma infinidade de cantos de pássaros.

Somos todos iguais?

“Nestas noites, na Itália inteira, há telescópios voltados para o céu. As luas de Júpiter não barateiam o leite. Mas nunca foram vistas, e agora existem. O homem da rua conclui que poderiam existir muitas outras coisas também, se ele olhasse melhor.” Bertolt Brecht

Os Operários, obra de Tarsila do Amaral

Um dos fundamentos da cultura, mas, sobretudo, da arte, é que ela gera perspectiva, te tira do lugar de conforto ou lhe permite colocar-se no tão famoso lugar dos outros. Mais do que isto, abre (não fecha) parênteses, expande as possibilidades, sublima e fricciona os horizontes, em suma, oferece a liberdade, pois a mortal função da arte é propor a liberdade, ou, ao menos, alguma libertação. Daí que as pessoas percam de vista sua importância, pois impalpável, afinal de contas ela age sobre os modos, comportamentos, visões, e, em última análise, sobre o coração, pois é seu dever transformar não através de teses elaboradas e argumentos com prazo científico de validade, mas através da emoção, tocando-nos. Tenho uma regra básica para definir se algo me comoveu no terreno da arte: é preciso arrepiar-me. A partir deste instinto, deste gesto, percebo e descubro se algo me agradou ou não, e, só depois disso, parto para elaborar a análise em cima da crítica das qualidades e falhas.

Entrevista: Bruna Kalil Othero, a voz e o corpo da nova poesia

“mastiguei
a poesia
com meus dentes civilizatórios
comi
as suas carnes
degustei-lhe
os ossos” Bruna Kalil Othero

Bruna Kalil publicou livro de poesias aos 20 anos

Embora exista quem diga que para o poeta o silêncio é um sinal de perfeição, Bruna Kalil Othero começa com palavras “anônimas por serem voz do povo”, como diria Jorge Amado, e que bem prescindiriam de aspas, mas que ela faz questão de assinar para se juntar ao coro. “Primeiramente, Fora Temer”, declara. Em seguida ao agradecimento pelo convite para a entrevista, a mineira da capital nascida numa primavera do ano de 1995 começa a traçar o próprio percurso por palavras que muitas das vezes nascem não se sabe de onde e vão para qualquer lugar, ou para todos os lugares, tal sua amplidão e sede de liberdade. “Eu já queria publicar desde os 15 anos de idade. Aos 19, já com a gaveta cheia, percebi que havia um livro ali. Encontrei uma estética norteadora – aqui, o quase – e organizei os poemas. Com a organização feita, fui à caça de editoras. Recebi alguns orçamentos, caríssimos inclusive, mas não queria publicar nesse esquema, que é o mais comum para autores iniciantes, infelizmente. Daí encontrei o Gustavo Abreu, editor da Letramento. Conversamos, ele gostou do projeto e seguimos parceiros até hoje”, celebra.

Como se constata, Bruna, aos 21 anos incompletos, publicou o primeiro livro aos 20, “Poétiquase”, no ano passado. Afora isso, sua experiência catalogada inclui também participação na antologia “Sarau Brasil”, de 2014, e nas publicações “O Emplasto” e “Germina – Revista de Literatura e Arte”. Com o poema “Memória Estéril” venceu recentemente, em julho, o prêmio Maria José Maldonado de Literatura, da Academia Volta-redondense de Letras.  Nele estão presentes os versos: “não insisto na memória/das coisas obsoletas/as cartas os namorados os poemas que escrevo/são filhos bastardos/sem colo/sem tetas”. Estudante de Letras na UFMG, a escritora empreende pesquisa que analisa a presença do corpo na poesia contemporânea brasileira de autoria feminina, publica em blogs, já escreveu peças de teatro, romance, contos e promete novo livro de poesias para o ano que vem. “Guardo um tanto de coisas novas na gaveta, leia-se Google Drive”, brinca. Para quem quiser encontrá-la, para além dos livros, Bruna também tem realizado e participado de diversos saraus e eventos ligado à literatura e as artes em geral na sua cidade.

Artigo: Por que só agora, Lula?

“Demonstrar-lhe que, para a vida, se nasce de tantos modos, de tantas formas… Árvore ou pedra, água ou borboleta… ou mulher… E que se nasce também personagem!” Luigi Pirandello

Lula é investigado pela Lava Jato

Uma das poucas coisas que se aprende com o jornalismo é que versões oficiais dificilmente interessam, pela natureza de seu caráter que as impede de alguma sinceridade para além das aparências. Logo, é preciso ser auspicioso e perspicaz a fim de estimar o que brasões e espelhos escondem. Noutras: quais interesses movem os envolvidos? Para investigar e planejar a derrubada de figuras poderosas é imperioso contar com o apoio e suporte de outras tão ou mais poderosas do que ela. Isso diz a história, as peças de Shakespeare e alguns filmes de Rossellini. Trocando em miúdos, não haveria o golpe militar de 1964 ou a eleição de Collor sem certo respaldo importante, global, robusto. Maquiavel diz que um príncipe não deve formar “exército de mercenários”, pois poder e dinheiro mudam de mãos, e aquelas que foram beijadas tendem a ser dispensadas com o escárnio e escarro citados pelo poeta Augusto dos Anjos.

Como democratizar o Teatro no Brasil?

“A rã queria ser um passarinho.
Só se for em teatro, meu amor.
Em teatro você faz o passarinho
e eu faço a rã.
Teatro não é troca de experiências?” Manoel de Barros

Grupo Maria Cutia se apresenta em espaço aberto

Há que se praticar preços populares. Mas não é o suficiente, como comprova a experiência atual. Também há que se compreender que democratizar não passa só por torná-lo popular, mas, sim, em incentivar e alcançar o acesso de pessoas que pertençam a diferentes camadas sociais e grupos. Não raras são as montagens de caráter contundente e forte apelo no tangente a dramas sociais do país – como os relativos a preconceitos de toda ordem, exemplificando-se os contra gays, lésbicas e mulheres – e em que se presume que os ouvidos e olhos mais necessitados de encontrar tais discursos se encontram longe daquelas plateias. Também não é novidade espetáculos de expressiva adesão numérica, mas todos, por assim dizer, do mesmo algarismo, ou do mesmo alfabeto, mantendo inócua e ineficiente a tal democratização do teatro que é, ainda, e, sem dúvida, uma das artes mais restritas a guetos. Infelizmente.

Crítica: A vida de Teresa D’Ávila ganha o palco do CCBB BH

“Fiquei mais corajosa,
igual a mulheres que julgava levianas
e eram só mais humildes.” Adélia Prado

Ana Cecília Costa e Joca Andreazza na peça "A Língua em Pedaços"

No ano passado, a atriz Ana Cecília Costa teve o insight de levar aos palcos brasileiros um pouco da vida e da obra da espanhola Teresa D’Ávila (ou Santa Teresa de Jesus – 1515/1582). O que ela descobriu, na seqüência, é que esse, digamos assim, “chamado”, acontecia justamente às vésperas das comemorações alusivas aos 500 anos de nascimento da poetisa e freira, canonizada em 1622 pelo papa Gregório XV. Uma coincidência “pra lá” de feliz, portanto. “A Língua em Pedaços”, espetáculo baseado no texto (inédito no Brasil) do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, sob a direção do competente Elias Andreato, chega agora ao CCBB BH (Circuito Cultural Praça da Liberdade), cumprindo temporada até início de setembro. Em cena, Ana Cecília mostra o embate entre a religiosa e um inquisidor, apresentado como “arauto da poderosa Igreja Católica no final da Idade Média, e que a acusa de heresia” e interpretado por Joca Andreazza (que substituiu Marco Antônio Pâmio, da montagem original). A estreia, na quinta-feira, 11, foi dedicada à memória do cantor e compositor mineiro Vander Lee, falecido (precocemente) há pouco mais de uma semana.

Crítica: Eduardo Dussek domina palco e plateia com repertório misto

“Nada acabará, grita o matagal!
Nada ainda começou…” Eduardo Dussek & Luiz Carlos Góes

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Formado pela escola do teatro “besteirol” na década de 1980, Eduardo Dussek recusa-se a revelar a idade, “algo entre os 50 e a morte”, debocha, figura de linguagem com a qual se esbalda e cativa o público que assistiu à apresentação do artista na sala Juvenal Dias, pertencente ao Palácio das Artes, como encerramento do 2º Inverno das Artes, na última segunda-feira. Com a mistura característica de humor e música, e pleno domínio tanto do instrumento, um luxuoso piano de cauda, das obras e até das reações do público, com trajetória calcada na irreverência que lhe aperfeiçoou, inclusive, o dom do improviso, Dussek presenteou os fãs também com um repertório misto, indo com desenvoltura do romantismo ao escracho, ou, como gosta de dizer, as “baixarias”. Em comemoração aos 40 anos de carreira, desfilou sucessos em versões renovadas, como “Rock da Cachorra”, ao estilo bossa nova, e “Cantando no Chuveiro”, interpretada em inglês. Não faltaram piadas e sátiras.

Análise: Crítico, Sábato Magaldi foi além do óbvio

“Poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi.” Oswald de Andrade

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Sábato Magaldi pertenceu a uma época em que era permitido e incentivado conciliar rigoroso arcabouço teórico à fluidez e pontualidade do texto jornalístico. Natural de Belo Horizonte cedo migrou para o Rio de Janeiro e logo depois São Paulo, capitais onde praticamente tudo acontecia em termos de inovação estética e criativa, recebendo cantores, escritores, artistas plásticos, cineastas e encenadores de todas as regiões do país. Sua preocupação era especificamente com o teatro, embora nesse meio não se restringisse a nada. Sábato dava pitacos em textos alheios, auxiliava atores em início de carreira e discutia concepções de cenografia com os montadores, mas foi, sempre, e, sobretudo, um crítico que soube enxergar além do óbvio. Que o digam Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Oswald de Andrade, entre inúmeros outros.

Análise: Guilherme Karan tinha embocadura própria para as personagens

“Eles se habituam logo com o deboche. Basta um pouco de tédio…” Jean Genet

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Fala-se muito no humor da importância da respiração, da pausa, do momento certo de enumerar a piada, ou a deixa, ou a fala. Essencial, tal aspecto, porém, não raramente precisa do acompanhamento de outro, que nem sempre recebe a mesma atenção da crítica e nem dos próprios atores, mas que, em benefício dos que o percebem e utilizam cria para estes a possibilidade de uma “marca”, o que em outros tempos era adquirido pelo “bordão”, capaz de diferenciá-los ainda que confinados a um mesmo espectro de personagem. Com a paulatina desvalorização das intérpretes de um número só, o que se configurava como certo “estilo” para os atores esmaeceu-se em privilégio de certa diversidade.