Crítica: Espetáculo “O Deszerto” manifesta ânsia de liberdade

“não insisto na memória
das coisas obsoletas
as cartas os namorados os poemas que escrevo
são filhos bastardos
sem colo
sem tetas” Bruna Kalil Othero

Nova montagem da companhia Mulheres Míticas mantém princípios do grupo

O rigor e a acuidade plástica não estão ali por acaso. “O Deszerto” é espetáculo que se sustenta em fortes bases estéticas, estruturando sua cenografia a partir de uma noção simbólica muito definida. Há consciência acima de tudo. Para chegar aonde pretende a montagem é habilidosa e inventiva ao combinar recursos caros à cena contemporânea. Mantém-se a concepção de que tudo não passa de teatro já no cenário, na minúcia dos figurinos, na presença da iluminação e outros objetos de cena, tais como microfones, rocas de fiar, reproduções no telão, a música e mais tantos detalhes, ao mesmo tempo em que a palavra e a movimentação das personagens procuram eclodir no espectador alguma constatação palpável e imediata. Essa transição é feita de maneira especialmente bem conduzida e desafiadora, propondo que o jogo se estenda até a realidade, com uma direção que, além de não se acomodar, encontra soluções pertinentes àqueles casos. O clamor que se vê no palco toma por medida a transformação compartilhada.

Crítica: “Migrações de Tennessee” tenta apreender universo do dramaturgo

“Não quero realismo. Quero mágica. Sim, mágica. Tento dar isso às pessoas. Sei que deturpo as coisas! Digo o que deveria ser verdade. Se isso é pecado, castigue-me!” Tennessee Williams

Migrações de Tennessee recria histórias do dramaturgo

Decidir levar ao teatro a vida de um dos mestres no ofício não é tarefa fácil, e requer coragem. “Migrações de Tennessee” procura apreender com reverência o universo do autor de “Um Bonde Chamado Desejo”, “Gata em Teto de Zinco Quente”, “De repente, no último verão” e outros clássicos, ao oferecer em pílulas alguns episódios e personagens que teriam servido de inspiração para o dramaturgo. Um dos inúmeros méritos da obra de Tennessee Williams foi o de infundir a tramas novelescas aspectos que inspecionavam prodigiosamente a alma humana, salpicando de poesia situações sórdidas e trágicas, sem que a fluência fosse prejudicada, justamente do que se ressente a atual montagem. Ao optar por uma dramaturgia de forte teor descritivo, com recorrente utilização do texto na substituição de ações, nem sempre a transição de uma situação a outra alcança a coesão necessária, travando a peça em ocasiões importantes. A música, ao contrário, sempre presente nos textos do homenageado, é quem consegue em alguns instantes amarrar esse laço. E configura, aqui, um acerto. Outra solução que surte efeito, e que está, por sinal, agregada à trilha, é a de recriar o som de objetos no palco, garantindo calor às cenas e preenchendo a atmosfera com uma certa aura dos anos em que o rádio teve o seu esplendor.

Crítica: “Colóquio Sentimental” analisa degradação das relações afetivas

“uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor” Ana Martins Marques

Colóquio Sentimental aborda tema comum a todos

Se o título pomposo implicar numa distância à primeira vista, lembre-se: não se deve julgar pela capa o livro. Aos primeiros passos de “Colóquio Sentimental” o conteúdo se descobrirá conhecido, íntimo. A aparente banalidade do tema diz muito a seu respeito: os movimentos mecânicos, repetitivos, os automatismos das relações que se denominam “afetivas” e a lenta degradação que instalam, revelando, outra vez, que não se deve julgar a capa antes do livro; por trás da palavra “afetiva” se concentrarão sentimentos de angústia, ansiedades reprimidas e a necessidade de controle e domínio presentes na forma estabelecida como a consensual para constituir uma existência plena. Os sentimentos são esgarçados através de linguagem mimética, em que a dança desempenha papel decisivo, não apenas pela concisão dos movimentos, prenhes de sentido, mas por que sublinha com beleza o que se imagina. Precisa, contundente e criativa, direção e dramaturgia partem de um amplo campo analítico; detentoras desse embasamento remodelam as intenções e os discursos guiadas por sede estética, que se sacia. O texto é cabal, vai às veias.

Crítica: “De Tempo Somos – Um Sarau do Grupo Galpão” celebra vida no teatro

“sou um rio de palavras/peço um minuto de silêncios
pausas valsas calmas penadas/e um pouco de esquecimento
apenas um e eu posso deixar o espaço/e estrelar este teatro
que se chama tempo” Paulo Leminski

De Tempo Somos celebra trajetória do grupo Galpão

Embora pareça em alguns momentos uma banda o Galpão é eminentemente um grupo de teatro, provavelmente o mais bem sucedido do país, referência interna e no exterior. A capacidade de se embrenhar nas raízes – ao partir em turnê, por exemplo, pela região do Vale do Jequitinhonha – e, ao mesmo tempo, aguçar o olhar para o estrangeiro configura uma das riquezas presentes entre os valores da companhia, que aparece com vigor nesta montagem. “De Tempo Somos – Um Sarau do Grupo Galpão”, nada mais é do que uma celebração da trupe à vida no teatro. Pois o teatro é a vida do Galpão. Com uma dramaturgia simples, atores e atrizes, que se revezam como instrumentistas e intérpretes musicais em cena, transmitem com calor as emoções que se estabelecem, criando um vínculo sincero com a plateia e, novamente, afirmando um de seus valores mais caros. Tudo por que, fora a intimidade com os versos e as canções selecionadas, a elaboração é teatral, e ao optar por esse prisma, justamente a essência do grupo, a afetividade que marca as escolhas ressoa de maneira ainda mais pertinente em cena. Principalmente por que o clima de diversão no palco estende-se a todo mundo. Temos aqui um interessante recurso dramatúrgico, em que cada personagem é construída em cima da personalidade do intérprete, e não o contrário.

Crítica: “Fauna”, do grupo Quatroloscinco, extingue limites pela força da experiência

“Será um gato um tigre mínimo de salão?” Pablo Neruda

Fauna tem atuação de Assis Benevenuto e Marcos Coletta

Todos os elementos caros à cena contemporânea estão presentes em “Fauna”, peça que comemora os 10 anos de atuação do grupo “Quatroloscinco”. É esse um espetáculo moderno, na acepção da palavra, que busca apreender o instante e se abre para o inevitável momento presente. Com pleno domínio e consciência cênica Assis Benevenuto e Marcos Coletta materializam noções como as de performance, improviso e fragmentação que resultam, primeiramente, na extinção de limites inerentes a um certo tipo de teatro, e que recolocam a atividade frente à sua origem: buscar, questionar, investigar e isto requer mais ouvir as respostas do que apresentá-las. Logo, nesta montagem, ninguém está eximido do risco e do desconhecido, nem personagens, que se confundem com os atores, nem o público, que recebe a oportunidade de atuar. Mas não nos enganemos, toda visão de futuro verga o olhar para o começo, e essa consciência, aqui, se faz presente. É possível dizer que Bertolt Brecht e Luigi Pirandello dão suas bênçãos. É o teatro, teatro; que, por isso, mais vida é. E por ser inventada aqui se concebe a partir de uma almejada horizontalidade. Em alguma medida o ciclo que se repete nunca é o mesmo; o novo logo será velho, o velho para sempre existe: como memória, reminiscência ou atavismo. Parábola em que está contido todo o frescor do rio e o convite à transformação.

Crítica: “A última vida de um gato” presta importante homenagem a Dedé Santana

“Aprendera no Circo, há idos, que a palavra tem
que chegar ao grau de brinquedo
Para ser séria de rir.” Manoel de Barros

Dedé Santana protagoniza "A última vida de um gato"

Associado eternamente ao humorístico “Os Trapalhões”, Dedé Santana não parece se ressentir disto, pelo contrário, demonstra orgulho e gratidão. Artista de circo, antes do estouro nacional fez pequenas participações em filmes como, por exemplo, “A Espiã Que Entrou Numa Fria”, ao lado do intérprete de Zé Bonitinho. Acostumado a servir de “escada” para os companheiros – ou seja, aquele que prepara terreno para que outro se consagre com a piada – na montagem dirigida por Victor Peralta com texto de Alexandre Ribondi é Felipe Cunha quem faz o “garçom” para Dedé marcar os gols. Fica claro desde o início que, mais do que propor um tema, toda a dramaturgia serve, principalmente, para reverenciar e homenagear o protagonista, tornado recentemente “Embaixador do Circo no Brasil”. Aos 80 anos no palco o ator reflete sobre morte, perdas, saudades. A construção do enredo permite que se explicitem os recursos e a qualidade dramática que, ao longo da carreira, lhe foi tantas vezes subestimada. Acerto que torna ainda mais importante este salve. “A última vida de um gato”, como supõe o título, admite que o artista está no passo final da longa caminhada, e a hora é de realizar uma justa retrospectiva.

Crítica: Peça “Nosso estranho amor” se permite a delicadeza

“Não, nunca fui moderna. E acontece o seguinte: quando estranho uma pintura é aí que é pintura. E quando estranho a palavra aí é que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí é que começa a vida.” Clarice Lispector

"Nosso estranho amor" conta com músicas de Caetano Veloso

Parece fora de moda dos palcos de BH a temática do amor e suas imbricações, ainda mais quando se trata de uma relação convencional a dois, neste caso, entre uma mulher e um homem. Se a história parece repetida, a abordagem dispõe de um delicado trabalho. É essa delicadeza a que se permite que ganha maior destaque em “Nosso estranho amor”, com direção de Cláudio Dias que tece um sensível panorama das confissões – através de silêncios – dos desencontros – por meio de toques e gestos – e, sobretudo – das turbulências da paixão, de caráter tanto construtivo quanto de destruição, com uma satisfatória ilação entre dança, sentimento e sensações. A simplicidade dos objetos cênicos não impede que, criativamente, tornem-se elementos que carregam ao teatro a aura da fantasia e, principalmente, da possibilidade. Se este é o campo da imaginação aqui a liberdade tem a premência de se ofertar.

Crítica: Peça “…Ricochete!” não deixa claro aonde quer chegar

“na líquida tarde azul zanzou, sem lugar, desguiando-se,” Luiz Ruffato

Peça Ricochete tem direção e atuação de Rita Clemente

É inusitado que, embora faça referência ao título logo em sua abertura, o que suporia explicitá-lo, a peça “Ricochete” deixe escapar o seu significado. Com três pessoas em cena, nos papéis de uma mãe, um filho e um entregador de sanduíches com sua moto, além de interferências pontuais que ecoam a voz de uma atendente pelo telefone, ora vividas por um ator, ora por outro, o enredo, que procura girar em círculos como sugere a própria estrutura cenográfica, parece enredar a si próprio e, nesse contínuo movimento, perder-se mais do que encontrar alguma solução para as intenções a que se aludem. De tanto apontar para mais de uma direção nenhuma delas encontra o tempo necessário para cristalizar-se e ganhar consistência. O texto, por sua assertividade, acaba por imprimir uma pretensão que prejudica a construção das personagens, tornada frágil, e que consequentemente acarreta num irregular desempenho do trio de intérpretes. A direção também parece confusa.

Crítica: “Ensaio para senhora azul” expressa realidade líquida

“E que a chuva no meu rosto
Faça crescer tenro caule
De flor. (Ainda que obscura.)” Hilda Hilst

Ensaio para senhora azul apresenta solo de Kelly Crifer

O teatro requer coragem, e disponibilidade. No caso de “Ensaio para senhora azul” essa característica é preponderante no jogo que se estabelece entre personagem, atriz e público. No solo de Kelly Crifer a atuação se vale de enganos sem os quais seria impossível levar toda a complexidade proposta adiante. A luz é um desses truques, capaz de tornar palpável apenas através de cores as diferenças entre fantasia e realidade, exatamente o que a presença da intérprete procura misturar. No entanto, é justamente ela quem comprova a todo instante certa materialidade, a partir de uma dicção coloquial e de texto que, a despeito da conotação poética e metafórica procura afirmação frente a questões agudas e, nesse sentido, sensitivas, tanto quanto sensíveis. A dramaturgia a que se chegou com Assis Benevenuto, Kelly Crifer e o diretor Robson Vieira, tomou por base palavras dos já citados, além de Grace Passô e Viviane Ferreira, e suas passagens inspiradoras superam aquelas irregulares.

Crítica: “máquina”, da miúda cia., condensa gêneros para refletir a morte

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

Espetáculo "máquina" é baseado na obra de Valter Hugo Mãe

É difícil enumerar as qualidades de “máquina”, espetáculo da miúda cia. de teatro, não pela raridade, justamente em razão da fartura. Pois é esse um espetáculo raro, a começar pelo cenário, seu maior destaque. Além da inventividade, a estrutura, a despeito de sua rigidez aparente, não bastasse o fator estético ali se coloca com a finalidade de ressaltar as emoções das personagens, devolvendo o teatro ao seu lugar de origem: o espaço lúdico da criação, do deslocamento, do brincar e da transformação – pois se coloca é um equivocado modo de dizer, a estrutura, em verdade, desloca-se e nos leva juntos. É esse movimento constante e nunca óbvio – mas que não se apresenta como mera acrobacia estética, ao contrário, interfere pontualmente na história – que permite à narrativa, também, transitar pelos gêneros que sustentam a complexa natureza humana, como o humor, a tragédia e o romance, ao refletir sobre a morte, e não apenas, abranger questões relativas a maneiras de organização política e como elas afetam diretamente as relações interpessoais. O texto, inspirado em obra de Valter Hugo Mãe, só contribui para o espetáculo.