Teatro: Dona Flor e seus dois maridos

“É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar” Dorival Caymmi

clássico de Jorge Amado

Atrevo-me despudorado à definição fácil e inflamada de personagens criados por Jorge Amado. Insatisfeito com esse texto, sigo, pois ele não alcançará o torcer das emoções, a roupa molhada estendida no varal ao sol, para secar. Ao que o temporal impele o desfeito. E ela segue lá, roupa, molhada, centrífuga, estendida no varal.

Eu estou fraco, tácito. Nunca vi nada que me fragilizasse tanto, abrisse rachaduras e jorrasse sangue dos meus cilindros para todos os lados. Deu vontade de crispar, morrer ali mesmo estendido e debruçado nos braços de Vadinho (Marcelo Faria – o demônio), dona Flor (Fernanda Vasconcellos – a santa) e Doutor Teodoro (Duda Ribeiro – o santo).

Teatro: Palácio do Fim

“Casca oca:
a cigarra
cantou-se toda.” Bashô

Camila Morgado

Toma conta a emoção como sola de sapato gasta, essa expressão milenar. Mas é a verdade. Num trabalho convicto, construtivo, gentileza de artesão. Casinha de João de Barro, inspeciona dos gravetos ao pôr do sol (vermelho rubro a chatear).

Os discursos costurados, linha de algodão, plumas de flores brancas, soltas, Deus desunindo todo num só chavão: ‘humano, demasiadamente humano’, pego emprestado o livro empoeirado de Nietzsche, na biblioteca das minhas obsessões. Pesado texto, num pesar Cristo.

Teatro: R & J de Shakespeare – Juventude Interrompida

“‘Hamlet’ seria Hamlet,
Inda que Shakespeare não o criasse,
E ‘Romeu’, embora sem mais lembranças
De sua Julieta,” Emily Dickinson

Romeu e Julieta

É bom conhecer lugares novos. Adentrar outros labirintos. Percorrer solilóquios horizontes, onde na imensidão o vazio e o silêncio ouvem vozes. Neste sentido, a peça ‘R & J de Shakespeare – Juventude Interrompida’, adaptação de Joe Calarco traduzida por Geraldo Carneiro e dirigida por João Fonseca, eleva o mérito.

Banalizando a densidade da história, de fato, pueril e ingênua, sem com isso perder a universalidade e franqueza, do romance entre Romeu e Julieta, o enredo carrega as tintas no humor escracho, focado nos dotes físicos dos atores para tais intervenções.

Teatro: O Libertino

Cássio Scapin destaca-se em peça dirigida por Jô Soares

Cássio Scapin

Chegar até o destino é um problema. Afinal, a filosofia oferece muito mais perguntas do que soluções. Essa é a função atroz reverenciada pelo humor de Jô Soares e seus dirigidos no espetáculo ‘O Libertino’, apresentado no teatro SesiMinas no último domingo.

Romance do dramaturgo francês Éric-Emmanuel Schmitt, a peça recebe contornos que aproximam o espectador brasileiro de uma realidade de época, fator por vezes aplaudido, mas que no meu julgo perde um pouco do charme da apresentação, tão bem disposto em roupas (ou na falta delas, no caso do ator principal Cássio Scapin) e cenário.

Teatro: Tennessee Williams

“Uma linha pode ser direita ou uma rua. Mas o coração de um ser humano?” Tennessee Williams

Dramaturgo norte-americano

Preencher uma página em branco como um quarto empesteado de algemas de vidro. Um menino solitário trancafiado emite o próprio ego em mugidos de desespero e rancor. Ambos sãos, sentimentos negros, pintados com o nanquim pegajoso e grudento de dias posteriores.

Papai não aceita a homossexualidade do filho, sem sequer suspeitar dos beijos e lânguidos desejos aspirados qual cocaína nas noites macias de colchão branco e revistas masculinas por sob o pijama listrado.

Teatro (Crônica)

“Assim É… (Se Lhe Parece)”  Pirandello

Crônica

O Teatro. O que é o Teatro? Lembro-me da minha primeira experiência distante do claustro solitário, calabouço que armara para minhas vertigens diárias. Foi através do Teatro. Antes, divertia-me desenhando em cartolinas cores e desvios retos e justos que depois enfeitavam a parede dos armários. Muito antes ouvia frases que se não me anotavam somente na cabeça, julgo hoje terem sido os primeiros rompantes artístico-filosóficos (sem a pretensão que regularmente emana de tais palavras).

Teatro: Rádio Nacional

Boas atuações e direção musical sublimam essência do espetáculo

Teatro brasileiro

Simples como um cisne nada n’água. Direto como uma flecha voa do arco. Com ótima atuação dos atores e boa história de fundo interligando os números principais, ‘Rádio Nacional’ prende a atenção do espectador quase integralmente.

Com direção dividia entre artística, musical e de vídeo por Fábio Pilar, Helvius Vilela e Vicente Maués respectivamente, e supervisão geral de Bibi Ferreira, o espetáculo aposta as fichas do Cassino da Urca nas excelentes músicas da época e no humor temporal (e ganha).

Teatro: Cabaret

Musical com Cláudia Raia tem pecados e virtudes

Cabaret

Muito luxo, purpurina, plumas e paetês sonegam os olhos da platéia com rímel e sexo aparente. Superficialmente, o musical ‘Cabaret’, estrelado por Cláudia Raia em versão brasileira de Miguel Falabella não subtrai espaço para dúvidas: é uma delícia.

No entanto, o teor dos diálogos muitas vezes fica abaixo de todo o glamour exibido com qualidade no cenário (construído com requinte, com destaque para as cortinas e o vídeo instalado), nas coreografias (mérito a Alonso Barros) exuberantes e libidinosas, na iluminação soberba, e principalmente da imponente apresentação da orquestra.

Teatro: Sem Pensar

Peça com Denise Fraga provoca riso quase lágrima

Teatro

Chuva cai morna em nossos lares. Enquanto espectros esparsos esperam graças, quatro personagens rodeados. Denise nos espera na porta. Sorriso franco. Sorriso oco. Camaleônico. Inspeciona o palco com os tamancos da representação. O ar e a pausa são inevitáveis para a comédia dramática.

Preciso me aquietar, aconchegar na cadeira. Mas aquela sobrancelha lagartixa me penteia. Perde o rabo, e segue à espreita, língua de fora gruda na asa do mosquito.

Teatro: Nelson Rodrigues

O gênio do escritor brasileiro que revolucionou a dramaturgia e o jornalismo

Teatro brasileiro

Nelson Rodrigues foi, a vida inteira,um misto entre o sagrado e o profano. Foi tarado e santo, gênio e louco, revolucionário e reacionário, e por fim ninguém melhor do que ele próprio para defini-lo: foi um anjo pornográfico.

Suas peças e crônicasnada mais são do que o retrato dele próprio e do que o cercava e moldurava.Como todo artista, sua obra está completamente contaminada dele mesmo, da flor da pele ao pó do osso (como diria Caetano Veloso).