Peça Meu Tio É… Tia! – Crítica Teatral

“escancaro os tabus, mas não revelo os mistérios.” Rita Lee

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A peça “Meu Tio é… Tia!”, há nove anos em cartaz na capital mineira, chega ao palco do Palácio das Artes por conta da39ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. O descuido com a parte técnica, como evidentes chiados e falhas no microfone dos atores, deixa transparecer o desdém com o “santo de casa”, ou, em outras palavras, a crença de que “a grama do vizinho é sempre mais verde”.

O que não livra o espetáculo de críticas contumazes. Há, obviamente, embora sem creditar a “homenagem”, uma transposição do enredo de “A Gaiola das Loucas”, originalmente francesa, para a realidade regionalista. Várias piadas aprecem adaptadas a clichês e locais de Belo Horizonte. Outro artifício usado é recorrer a expressões “hit” na web e na TV. As novelas da Rede Globo servem de esteio e aparador.

Teatro: Walmor Chagas

“A arte não está no geral, mas no detalhe.” Stanislavski

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Esta é a história de um senhor de idade acometido por uma tentativa fúnebre de suicídio. Que se revelou vitoriosa. O fracasso da existência terrena frente à material morte parece-me assunto para outra hora. Antes é necessário concentrar-se nesse homem, estendido sobre uma cadeira de balanço, cujo sangue agora espesso, duro, cobre-lhe o colo, onde jaz um revólver calibre 38, esvaziado da única bala que lhe penetrou o ventre cinza e insosso.

Embora a aparência de um revólver possa suscitar em alguns o medo, tal perspectiva locomover-se-á ao extremo oposto, se o apontarmos para pensamentos de infância. A maneira pomposa à qual me refiro ao denominá-lo “senhor de idade” certamente incomoda o falecido, que mais tarde verão, ainda vive. Por isso o trataremos por velho, não idoso, e aqui revelamos as dificuldades advindas da diabetes, para caminhar, e a praticamente extinta visão.

Entrevista: Bibi Ferreira

“O fato de sermos habitados por uma nostalgia incompreensível seria mesmo assim o sinal de que existe um além.” Eugène Ionesco

Bibi Ferreira

Bibi Ferreira acaba de lançar novo CD, ‘Natal em Família’, pela Biscoito Fino. Concomitantemente, a partir do dia 8 de janeiro, retoma os palcos do Rio de Janeiro, no Municipal Carlos Gomes, com o espetáculo ‘Histórias & Canções’. Nada mal para uma iniciante. Com a exceção de que a entrevistada, aos 90 anos, totaliza igual quantia de carreira. Acredite, com 24 dias de vida, ela estreava no teatro.

Na ocasião, Bibi substituiu uma boneca desaparecida instantes antes da apresentação de ‘Manhãs de Sol’, de Oduvaldo Vianna. De lá para cá, interpretou Edith Piaf, deu voz e corpo à palpitante ‘Gota d’água’, peça de Chico Buarque e Paulo Pontes, além de uma intensa dedicação ao teatro, tanto na direção quanto protagonizando. O passar do tempo lhe legou muitas lembranças e uma certeza única: “Sou uma batalhadora, uma atriz, uma mulher feliz”, diz.

Teatro: Vermelho

“Todos sabem que a inteligência nos faz desembocar apenas nas névoas do ceticismo.” Salvador Dalí

Antônio Fagundes Teatro

Há um homem sentado de costas. Avisto luzes por sobre as cores, abajures baratos, um silêncio, o barulho. Tapetes, tapumes, escondem cadeiras, teto, assoalho. A cena é um mistério. Reverbera o vermelho, intacto.

Se assim continuasse, caso não descobrissem se tratar do homem aquele visto como galã, e os quadros tivessem sido referendados a um esdrúxulo bruxo, ou  a um mendigo abstrato, haveria os aplausos robustos ao final da apresentação?

Teatro: Suellen Ogando

“Declina o sol,
Levita a d’alva;
Silentes os pássaros
Nos ninhos,
Busco o meu.
E a lua em flor
No alto zênite,
Se assenta
E sorri na noite.” William Blake

Suellen Ogando, talvez você nunca tenha ouvido falar nesse nome, admito o desconhecimento, afinal evidências nem sempre associam fielmente a balança. É que o teatro, e o de Belo Horizonte, não é contemplado com tantos olhos quanto os para os televisores.

Sem afeição de caso ou demérito contrário, todos buscam lugar ao sol, e a peneira é grande, gorda, rechonchuda, quase nunca justa. Porque os que estão no alto, vítimas dos aplausos, não lhes tiro os elogios nem lego culpa. Apenas quero falar de Suellen Ogando.

Opereta: A Viúva Alegre

“Jamais deves buscar a coisa em si, a qual depende tão somente dos espelhos. A coisa em si, nunca: a coisa em ti.” Mario Quintana

Opereta Franz Lehár

A dúvida se impõe logo de cara: “A Viúva Alegre”, direção geral de Jorge Takla e musical de Silvio Viegas, é ópera ou teatro? O dever dos definidores já nos favoreceu e impediu o prosseguimento dessas perguntas insossas.

Trata-se de uma “opereta”, misto de apresentação onde estão reunidas as matizes de um e outro, pois os atores se dividem entre o canto e a dramaturgia, e a língua encenada pode ser a nativa. Além disso vislumbra-se os figurinos de Fabio Namatame e a cenografia de Paulo Corrêa, curvilíneas e ordeiras.

Entrevista: Cássio Scapin

“Moralidade é simplesmente uma atitude que adotamos frente às pessoas que não gostamos.” Oscar Wilde

A Viúva Alegre

Depois de se apresentar em Belo Horizonte com a peça “O Libertino”, dirigida por Jô Soares, o ator Cássio Scapin volta à capital atuando em outro espetáculo de contexto histórico: “A Viúva Alegre é um clássico, a opereta mais encenada no mundo”.

Porque isso acontece? As razões, para o intérprete de Njégus, segundo ele um “personagem cômico”, estão, em primeira estância, no pano de fundo da tragédia cômica cheia de traços oscarwildeanos que expõe a aristocracia em suas atitudes mais sórdidas: “A música em si é belíssima, maravilhosa, só ela já vale o espetáculo”, anima-se.

Teatro: Hell

“cada um de nós, de repente, vai morrer em algum momento terrível e aterrorizar todos os nossos amantes e apodrecer o mundo – e estragar o mundo” Jack Kerouac

Bárbara Paz

A infernal Bárbara Paz está de volta em “Hell”, que me desdiga seu sobrenome. A atriz divide com a iluminação o posto de principal atração do espetáculo, dirigido por Hector Babenco e adaptado de livro da escritora francesa Lolita Pille.

Pílulas e pílulas são engolidas por Bárbara na mesma proporção e medida em que esta fuma seu cigarro indevassável, cheira o pó branco da mortífera cocaína e se deleita entre cortes e costuras das roupas e marcas que se insinuam tão descartáveis quanto ela mesma.

Teatro: Ensina-me a viver

“No pórtico de Belém
os ciganos se congregam.
São José, cheio de chagas,
amortalha uma donzela.
Teimosos fuzis agudos
pela noite reverberam.
A Virgem cura os meninos
com salivinha de estrela.” García Lorca

Glória Menezes Teatro

Da onde vem o riso? De onde vem à morte? Sóis, vida. Inúmeras despedidas. O humor pode aparecer na parede, num relance, na casca ou na bola de um sorvete. Os negros fiapos de pera apodrecida descascados em cena pela faca amolada de Colin Higgins ajudam a enternecer, entreter e tecer o suco de coloração creme e seca da peça “Ensina-me a Viver”.

Nas claquetes cinematográficas arrastadas em princípio qual cortinas de castelos belgas, logo a influência mórbida dos ingleses tilinta os talheres. Há um veneno de serpente no chocalho do réptil feminino cascateado no vestido da mãe. Persegue o rabo e morde o próprio filho. Uma dinamite prestes a explodir. Vulcão em erupção. Fios da cerca eletrificada.

Teatro: Pterodátilos

“Mas sem provocar ninguém, aceito apenas as rimas
De minha natureza estranha, sensível e sensual” Arrigo Barnabé

Teatro com Marco Nanini

Após a barba feita, um banho de água fria. Sento-me desconfortado nas cadeiras acolchoadas do pequeno teatro intitulado consciência. Nela submerjo até os meus antepassados, “Pterodátilos”, neles descubro a face oculta, cabra sacrificada do banquete servido com requinte e crueldade.

Sóbrio, sombrio, solvente, despeço-me da paz enganosa, ao sucumbir diante do vestido de Marco Nanini, uma garotinha de 15 anos, penas e planos, as primeiras de galinha, as segundas intenções de voos aterrorizantes e devastadores. É no sorriso banguela o oco do mundo casto.