Crítica: peça “Eu não dava praquilo”, com Cassio Scapin, reverencia a irreverente Myrian Muniz

“Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande…” Adélia Prado

5D III

É na comparação entre o assaltante de uma bolsa e um político que reside o segredo do monólogo protagonizado por Cassio Scapin em que a atriz Myrian Muniz é homenageada. Evidentemente o bandido do bem de pequeno porte tem mais autenticidade, outra expressão identificada com o universo da personagem, que entre dar a mão a Deus e ao diabo não deixa passar em branco uma suma necessidade: a força da palavra.

Essa descoberta é feita por Myrian em um sonho no qual conversa com seu amigo, o Papa, e lhe questiona se a hóstia é realmente o corpo de Cristo. O pontífice deixa claro que a resolução depende mais do olhar que do objeto, o que só corrobora com algo que na infância já se iluminara aos olhos da menina brincando de interpretar: a força das coisas que não existem, da imaginação. Com uma didática própria, Myrian Muniz apresenta a vida ao teatro.

Crítica: peça “Minha Querida” une fragmentos para rir com o drama e chorar com a comédia

“Sou um artista começando… a passar fome. Batam palmas senão onde vou bater bombo?” Wally Salomão

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Baseada nas obras da argentina Griselda Gambaro e do russo Anton Tchekhov, a peça “Minha Querida”, apresentada na Funarte pelo grupo de Teatro Universitário da UFMG, com direção de Rogério Lopes, une em fragmentos um coletivo de jovens atores cujo talento ajuda a brotar pelo texto crítico, ácido, e, sobretudo, bem humorado. Há uma visão de mundo a ser explorada pelos diversos personagens no corpo da mesma Olga: o ridículo da trajetória humana, inclusive nos momentos mais dramáticos. E o que sensibiliza é que esse olhar de deboche é sempre pautado por alguma ternura, afinal andam e se afogam todos nesse idêntico barco.

Há várias passagens impagáveis, como a canção em castelhano na ode à madeira, material de trabalho de um dos maridos enfadonhos da já cansada Olga. E o desejo que esta demonstra pela morte dele, nas entrelinhas, na exaltação com a possibilidade de um romance novo, mostra que os atores em cena estão dispostos a não poupar nada nem ninguém. Tudo é visto com uma desesperança crônica, até a própria profissão que, ainda em início de carreira, almejam. Afinal os aplausos ressoam sempre que há uma situação dramática, e o riso cobre o desespero sem o menor escrúpulo. Como na cena em que uma das atrizes se joga à porta e sai de lá encharcada de palmas: apenas mãos batendo, tão banais quanto qualquer cólica, é o que parece.

Joe Orton: o autor que usou a morte para causar o riso

“(…) se recusava a alimentar os corvos. (…) Recurso mofado e bolorento! Me chama de vadia para baixo. Me levanto com dignidade, subo na pia, faço um escândalo, entupo o ralo com fatias de goiabada.” Ana Cristina Cesar

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Um autor de teatro que talvez seja mais lembrado por sua morte completaria 80 anos de vida em 2013. Nascido em Leicester, no interior da Inglaterra, Joe Orton viveu somente 34 anos. Assassinado com nove marteladas na cabeça pelo amante Kenneth Halliwell, com quem se encontrou pela primeira vez na RADA (Royal Academy of Dramatic Art), uma das mais respeitadas escolas do gênero no mundo, ele ainda é pouco conhecido e encenado no Brasil, mas não é por falta de méritos.

Basta dizer que durante o ápice da breve trajetória, de 1964 a 1967, Orton trabalhava no roteiro para um filme sobre os Beatles, que naturalmente acabou recusado, devido ao gosto do autor por situações absurdas e subversivas. Sugerir um romance homossexual entre os rapazes da banda e o uso de substâncias alucinógenas não foi bem aceito pelos empresários preocupados com a imagem dos “bons moços”. Por motivo semelhante, Orton foi preso.

Entrevista: Quem quiser pode rir de Luis Lobianco, da Porta dos Fundos

“Todo mundo é sério menos eu.” Allen Ginsberg

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Luis Lobianco não teme o riso, neste caso sinônimo de sucesso. Embora o ídolo tenha cravado a “consagração com a vaia” e a “burrice da unanimidade”, o ator, uma das estrelas do projeto-empresa “Porta dos Fundos”, desfruta dos aplausos de forma serena. “Meu humor tem a função de divertir. Isso pode soar simples demais, mas acho que hoje subestimamos a importância de se divertir”, assina, e prossegue na conclusão do tema. “O humor tem infinitas funções: política, denúncia, informação, mas, se não for divertido, não serve pra nada. Tem muito ‘humor do bem’ que não tem graça nenhuma”, opina.

Com 20 anos de profissão começou no teatro aos 11, quando se mudou do Rio de Janeiro para Niterói. Tempos depois, aos 18, voltou à capital para receber o diploma da Casa das Artes de Laranjeiras. Também veio cedo o interesse pelo autor dos dois aforismos citados acima. “Fui precoce em Nelson Rodrigues. Era trágico, pornográfico, mas eu me divertia tanto e aquele humor me atraía”. Por esse motivo sabia em criança, de cor, as falas de filmes nacionais como “A Dama do Lotação”, “Rio Babilônia” e “Os Sete Gatinhos”, todos baseados em obras do escritor, dramaturgo e jornalista.

Jorge Dória: o primeiro ator brasileiro

“Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.” Rilke

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É do mais polêmico dramaturgo nacional a frase de que Jorge Dória era um canastrão. Nelson Rodrigues, numa de suas sandices graciosas afirmava com todas as letras que “o primeiro ator brasileiro tinha que ser canastrão”. Na continuidade da história contada por Antônio Abujamra a Paulo César Peréio no programa “Provocações” a revelação de que, dez anos mais tarde, ao assistir o mesmo Dória em cena, Nelson entrava chorando no camarim para corrigir-se: “Você não é mais o primeiro ator brasileiro!”.

Intérprete essencialmente cômico, com incursões marcantes por cinema, teatro e televisão, deu-se ao luxo de experimentar gêneros, tipos e de usar e abusar do carisma e principalmente do improviso. No palco Jorge Dória deixava “baixar o santo”, nas próprias palavras, e como de hábito defendia os princípios do humor, da graça e da liberdade. Do Lineu da primeira versão de “A Grande Família”, na década de 70, ao pai que não sabe onde errou em Zorra Total, nos anos 2000, a forma simples e enigmática de provocar o riso no povo.

Crítica: Peça “Discurso do Coração Infartado”, com Silvana Stein, reflete sobre inadequação

“escarneceu da velha cifra na tabela e falou de embuste, essa foi, à sua maneira, a mais estúpida mentira que a indiferença e a maldade inata puderam inventar, já que não era o artista da fome quem cometia a fraude – ele trabalhava honestamente – mas sim o mundo que o fraudava dos seus méritos.” Franz Kafka

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“Discurso do Coração Infartado”, monólogo protagonizado pela atriz gaúcha – mas radicada há doze anos em Belo Horizonte – Silvana Stein, que também dirige o espetáculo ao lado de Ricardo Alves Júnior; atende a uma demanda essencial nos tempos modernos: apara os excessos e oferece o mínimo de distrações sonoras ou visuais ao espectador, economiza nas tintas (todo o cenário consente ao preto e branco, assim como o protagonista) e investe em falas rápidas e compactas, sempre musicais, advindas da boca ou de qualquer outra estrutura, por exemplo: barulho da geladeira, da vizinha, televisão ou cachorro.

No anseio de um frustrado e envelhecido ator cômico cuja aspiração maior é interpretar os respeitosos papéis dramáticos escritos pela pena do inglês William Shakespeare, em especial “Hamlet”, o jogo de inadequação começa pelo real e atravessa o que é obscuro, ou fantasioso, a atingir o absurdo para, como numa prosódia de Kafka, revelar o besta e ralo cotidiano. Ou seja, Silvana, uma jovem mulher viçosa saboreia os martírios de um corpo deteriorado pelo tempo à espera da morte. Mas esta é somente a casca, afinal esconde uma alma carregada de sonhos e a habitual conseqüência na espécie humana: desilusão.

Alô, Dolly!, com Marília Pêra e Miguel Falabella brinda com humor preciso e canto robusto

“Acredito que aquele amor permanece tão forte e intenso em sua lembrança porque foi sua primeira solidão profunda, o primeiro trabalho íntimo com que o senhor elaborou sua vida.” Rilke

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“Alô, Dolly!” é peça de nostalgia para Miguel Falabella. O diretor, que vem se debruçando sobre o tema da retrospectiva ao vislumbrar os próximos passos – como na série televisa “Pé na Cova”, onde o enfoque é a morte e a natural tendência humana a recordar o passado ante a perspectiva futura – tem uma óbvia relação afetiva com o espetáculo e este sentimento o conduz. Primeiro por ter sido o primeiro musical que assistiu, aos nove anos de idade, época da montagem protagonizada no Brasil por Bibi Ferreira e Paulo Fortes, em 1966. A escolha de Marília Pêra para interpretar Dolly Levi segue o mesmo caminho. A atriz foi a primeira diretora de Miguel nos palcos.

Agora os papéis se invertem. Além de dirigir, Falabella atua e assina tradução e adaptação. No texto o acerto é em cheio, comprovando a boa mão do intérprete do rabugento comerciante Horácio para distribuir as palavras tanto nas canções quanto nos diálogos. Já a adequação poderia ter apostado numa cisão mais profunda com o original, ambientando a história em cidades nacionais que a comportariam perfeitamente, como São Paulo substituindo Nova York e qualquer outra interiorana do estado no lugar da caipira Yonkers. Não seria nenhum absurdo, afinal o próprio Falabella confessou a inspiração em Mazzaropi para a composição de seu personagem.

Cleyde Yáconis Desponta Para O Estrelato

“Do Drama, a mais viva expressão é o dia comum,
Que nasce e morre à nossa vista;
Diversamente, a Tragédia,

Ao ser recitada, se dissipa
E é melhor encenada
Quando o público se dispersa
E a bilheteria é fechada.” Emily Dickinson

Cleyde-Yaconis

O palco mal lhe sentia a presença, tal era a tamanha doçura e delicadeza com que o pisava. Cleyde, natural de Pirassununga, no interior de São Paulo, acostumara-se ao extremo cuidado. De cedo perdeu pai, por curso natural das coisas, nada das grandes tragédias ou a secular tempestade, o dilúvio, nada. O pai saíra de casa. Não mandou lembranças, nem carta de despedida houve. Entregues à sorte, essa seria agora a casa das três mulheres. A mãe, bem nutrida de carnes, e a irmã, jovem, incentivaram-na através do exemplo a não ficar parada. Ao invés disso, Cleyde, com sua quietude em cima do palco provava o contrário.

Começara no ramo da enfermagem, o que em parte explicava o cuidado; de outro, o primeiro contato com o mundo das artes havia se dado através de cabides e vestimentas. Estava responsável por deixar em ordem o guarda-roupa do Teatro Brasileiro de Comédia. Mas para a esguia figura a brincadeira de repente ficou séria. Não mais que um desastre. Assim compreende-se o fato de Cleyde Yáconis ter pisado a primeira vez, com a cautela característica, para atuar no palco. Evidentemente já lhe havia tropeçado quando afoita e apressadamente entrava para entregar a roupa a um colega.

Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen

“Assim, despertando de um sonho de horror à meia-noite, logo a pessoa acende a luz e se mantém quiescente, adorando o gaveteiro, adorando a solidez, adorando a realidade, adorando o mundo impessoal que é prova de alguma existência que não a sua.” Virginia Woolf

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O grito de “socorro” é precedido por uma ameaça viril. Mas é dentro da mulher ouvido, somente. Ela não pode desmantelar a harmonia da casa onde vive. Lá as crianças brincam com displicência, “tomando o cuidado exigido para manter em bom estado as estampas dos vestidinhos de babado e das camisas de marinheiro” a cobrirem os corpos tenros. A babá se dirige a uma delas dotada de paciência cristã. Pergunta se já pode servir o chá. É aí que a descoberta compete aos olhos.

A bacia de água quente em cima do móvel. O criado mudo ao lado da cama. O pano úmido sobre a testa. Enferma, coberta por uma bata branca do pescoço aos pés, a matriarca. No entanto, ao olhar para fora e desligar-se de pensamentos imersos, apalpa o próprio rosto, e não obstante o percebe corado. Da mesma maneira, há rubor em seus pés, apertados nas delineadas sandálias de couro persa. Ninguém na casa poderia supor a degradação de sua natureza enfadonha, uma abobalhada boneca a serviço de todos.

Teatro: Tio Vânia (Aos Que Vierem Depois De Nós)

“o coração está como que varrido” Tchékhov

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A decadência é uma ampola dúbia na visão do dramaturgo russo Anton Tchékhov, cuja peça “Tio Vânia” foi adaptada pela mais famosa companhia teatral de Minas Gerais, o Grupo Galpão. Com direção de Yara de Novaes, o enredo destrincha os êxodos no plano imaterial que levaram os habitantes de um casebre – caindo aos pedaços – ambientado na zona rural do século XIX, a enterrarem-se num espaço de adequação. É essa mesma estagnação prontificada por decadentes vidas que levará os corpos dessas almas a se chocarem.

De início, um silêncio incômodo leva os espectadores a se questionarem sobre a realização. A luz na cara afere a nudeza, auxiliada por uma esquálida árvore negra que serve de cenário, e nos confronta com uma intrigante característica da condição humana. Se o barulho e a escuridão escondem o podre de legumes e frutas, o mesmo se dá aos animais. E as vespas logo se animam ao induzirem a putrefação da carne. Revelar que ali habita um coração cardíaco, veias entupidas e o amolecimento dos ossos, só em raros momentos de silêncio e luz.