Entrevista: Coautor de “Elite da Tropa”, Luiz Eduardo Soares lança novo livro

“Trememos com a violência do conflito que está sendo travado dentro de nós, o combate entre o definido e indefinido, a batalha da substância com a sombra. Porém, se a luta chegou a este ponto, lutamos em vão, porque a sombra triunfará.” Edgar Allan Poe

Luiz Eduardo Soares

Os debates programados para o evento “A Política da Psicanálise – Na Era do Direito ao Gozo”, que acontece na capital na sexta-feira (26) e no sábado (27), no Espaço Cultural CentoeQuatro (praça Rui Barbosa, 104, Centro), também abrirão janelas para a cultura.

A presença do cientista político e escritor Luiz Eduardo Soares é um exemplo. Um dos coautores do livro “Elite da Tropa” (que se transformou no sucesso cinematográfico “Tropa de Elite”, de José Padilha) é o mote não apenas para abordar os temas consumo de drogas e violência, mas também para apresentar sua mais recente investida no mercado editorial: “Tudo ou Nada” (Nova Fronteira).

Crítica: Peça “Aqueles Dois”, da Cia. Luna Lunera, captura sentido da obra de Caio Fernando Abreu

“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.” Caio Fernando Abreu

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A montagem expressiva da Cia. Luna Lunera para o conto do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, transforma o espetáculo “Aqueles Dois” num produto de entretenimento e reflexão de alta categoria. Isso porque os recursos adotados enfatizam a complexidade e inventividade do escritor que, ao aderir a uma cultura pop jamais largou mão de preceitos que lhe eram caros, como a experimentação e o existencialismo interiorizado, que tinha em Clarice Lispector sua maior referência. Provam-se escolhas acertadas as de recriar os “dois” protagonistas em quatro personagens, e a maneira como a miscelânea de citações do autor é colocada em cena. Uma das características que saltam aos olhos nos textos de Caio é justamente a menção a outras obras. Daí outro enriquecimento. Tanto no texto quanto na peça espalham-se música, artes plásticas, dança, cinema, literatura e teatro, e ainda uma pitada de confusão entre real e imaginário, a tentativa de deserdar a distância entre o sujeito ativo e o sujeito pasmo. Cláudio Dias, Guilherme Théo, Marcelo Souza e Silva e Odilon Esteves dão conta desse recado em atuações de destaque. Zé Walter Albinati divide com os quatro a direção ágil e nada óbvia.

Entrevista: O Universo Cabeludo de Carlos Careqa

“Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.” Allen Ginsberg

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Rogério Skylab esquece de perguntar o assassino de Carlos Careqa em sua canção “Eu Quero Saber Quem Matou”, mas Cida Moreira, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Tetê Espíndola não deixaram de prestigiá-lo em seu CD de estreia, “Os Homens São Todos Iguais”, em 1993, com sugestiva capa recheada de ironia, e eis aí bom indício de por onde trafega o compositor, ainda que afirme em seu terceiro disco: “Não Sou Filho De Ninguém”, lançado em 2004. Dez anos depois contabiliza dez títulos na discografia, além de participações e trabalho como produtor. Muito longe desses números, ao acaso, redondos, Carlos traça seu caminho na inventividade. “O mercado não quer um cara rebelde como eu. Não quero ficar cantando a mesma música a vida toda”, afirma.

Nascido em Lauro Muller, interior de Santa Catarina, o intérprete mudou para Curitiba aos cinco anos, e lá se formou como artista frequentando grupos de teatro e participando de campanhas publicitárias. Sobre a importância da arte dramática em seu processo de composição musical, define: “Importância Suprema. Tudo é cena. E a todo o momento tenho que prestar atenção no que está acontecendo, e isto vai virando música”. Já a possível “escolha” por uma carreira pautada no mercado independente é rechaçada. “Eu não optei. As coisas foram acontecendo. Tenho ideias, e assim vou caminhando. A música independente é isto, sem amarras, sem gente mandando. Faço o que quero, o que me der na telha. Não faço música experimental. Acho que eu faço coisas bem palatáveis, mas sou independente por que a vida me quis assim”.

Crítica: Tímida, “Cássia Eller” explode em direções diversas em “O Musical”

“Eu poderia ser um monge do Nepal
Um jardineiro, um marinheiro, etc e tal
E não há nenhuma outra hipótese que eu não considere, mas
O que eu queria mesmo ser é a Cássia Eller” Péricles Cavalcanti

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É difícil, num musical cheio de méritos, apontar um só. Então vamos por partes, como sentenciou Jack. Figura lendária na história da música brasileira, principalmente na renovação da imagem do rock a partir dos anos 1990, Cássia Eller tem a sua trajetória contada em espetáculo dirigido por João Fonseca, o mesmo de Cazuza, com a ajuda fundamental de Vinícius Arneiro na mesma função e outros nomes importantes, como Gustavo Nunes, que idealizou e produziu a empreitada, Lan Lan, percussionista que namorou e trabalho com Cássia, na direção musical, Fernando Nunes, outro que conviveu com a protagonista, na codireção musical, e Patrícia Andrade, responsável pelos textos. Mas entre tantos brilhos individuais a cena é dos atores.

Cássia Eller, mimetizada por Tacy de Campos, que já fazia cover da cantora antes de estrelar a peça, entra de costas, em escolha acertada que logo de saída apresenta traço importante de sua personalidade: a timidez excessiva, ou até, quem sabe, certo desinteresse e enfastiamento de convenções sociais. Convenções estas que a intrépida artista fazia questão de colocar abaixo quando, no palco, transformava-se numa poderosa Cássia pelo simples poder de sua voz, nem eram precisos atos extremos que, vez ou outra, apareciam, como a mania de exibir os seios que a marcou anos depois. Mas tudo isto, fica claro, sempre foi muito mais fruto de uma espontaneidade genuína e duma criança indígena que cultivou em si do que atos mercadológicos.

Comédia De Três Ratos

“Muitas vezes vi nos teatros de variedades, antes da minha entrada em cena, um ou outro par de artistas às voltas com os trapézios lá do alto junto ao teto. Eles se arrojavam, balançavam, saltavam, voavam um para os braços do outro, um carregava o outro pelos cabelos presos nos dentes. ‘Isso também é liberdade humana’, eu pensava, ‘movimento soberano’. Ó derrisão da sagrada natureza! Nenhuma construção ficaria em pé diante da gargalhada dos macacos à vista disso.” Franz Kafka

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O Senso comum do escritor
Na noite do acontecido uma coisa azul embargou a imagem. Era coisa posta, nunca existente até aquela noite. Ao menos o que vizinhos relataram. Na noite do acontecido uma coisa verde embargou a paisagem. Era coisa velha, muito assimilada em livros de história. Ao menos o que vizinhos relataram. Eu, dono da casa, não tive a coragem de ir revelá-la. O enfrentamento, para a pouca idade, é coisa que excita, mas para um velho, apenas atormenta, asfixia e mata. Na noite do acontecido uma coisa verde espalhou as margens. E então pude ver dentro do vermelho o azul da noite. Mas eu uma criança velha o dono da casa nunca tive coragem de revelar a imagem, a paisagem, ou mesmo o livro de história, ou mesmo o que os vizinhos falaram. Na noite do acontecido. Na noite do acontecido. Uma coisa. Azul. Embargou. Espalhou. Uma. Verde. Margem. Minha vida é um livro aberto, mas algumas páginas estão queimadas.

Entrevista: Zezé Motta costura as linhas de atriz e cantora

“Ao fim de alguns dias, habituado a seus lábios, não pensava em outras delícias.” Raymond Radiguet

Zeze Motta - Credito rogerio ehrlich

Num banquete oferecido pelo produtor Guilherme Araújo, todos se sentaram à mesa para reverenciá-la. Entre os presentes estavam autoridades da música como Caetano Veloso, Rita Lee, Moraes Moreira, Luiz Melodia, e outros. Algumas ausências sentidas como as de Chico Buarque e Francis Hime, mas nada que atrapalhasse o espetáculo. Essa história bem poderia ser a de Xica da Silva, mas é a de Zezé. “No começo incomodava um pouco, porque sonhava em imprimir meu nome na mídia: ‘Zezé Motta’. Mas depois percebi que ela era uma ótima madrinha!”, afirma, com a sonora gargalhada, ao relembrar os preparativos para o lançamento do seu primeiro LP e também o sucesso nas telas de cinema que a acompanha até hoje. “Ainda tem gente na rua que me chama de ‘Xica’”, confessa com o humor que é característico.

Hoje aos 70 anos, completados no último dia 27 de junho, Zezé Motta faz planos tanto para a carreira de atriz quanto para a de cantora. Em agosto retorna às novelas da Rede Globo, afastada desde “Sinhá Moça”, de 2006, em “Boogie Oogie”, nova atração do horário das 18h, onde viverá a empregada Sebastiana. Já em relação aos palcos, mantém certo mistério, mas continua dando voz a sucessos da carreira e em especial da seara do samba, deixando no ar um projeto inscrito na lei de incentivo à cultura em busca de patrocínio e gravadora. No último álbum lançado por Zezé, “Negra Melodia”, em 2011, pela gravadora Joia Moderna, do DJ Zé Pedro, a artista cantou músicas de Jards Macalé e Luiz Melodia, e o processo de decisão por este repertório rendeu boas histórias e ótimas risadas, como de costume na trajetória de Zezé Motta.

Crítica: “Cazuza – Pro dia nascer feliz – O Musical” não alivia barras nem emoções

“Todo dia a insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito!” Cazuza

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A trajetória de Cazuza já foi contada em cinema, livro e televisão, e agora chega ao teatro com o musical “Pro dia nascer feliz”, mas é inegável que a melhor montagem da vida do protagonista foi feita por ele mesmo no contato diário com pessoas e sentimentos que transformou em canções. O próprio Cazuza afirma que “no final tudo vira letra de música”, ao conciliar-se com o namorado Serginho em uma das muitas brigas apresentadas no espetáculo.

Aliás, um dos maiores acertos do musical é não aliviar a barra para seu herói, como o próprio sempre fez questão. Preferia ser “amado por uns e odiado por outros como Caetano” do que “amado por todos como Roberto Carlos”. Além da persona pública explosiva, tendente a chiliques, esculhambações e agressividades, fica clara a ternura de Cazuza nos atos subliminares, nas palavras doces ditas em meio a ameaças, no humor inteligente e ágil usado para enfrentar a morte, na flexibilidade das ideias em contraposição à rispidez dos modos, e a comoção final a um personagem que tinha tudo para soar antipático é a catarse de uma vida legada à integridade, sem meios termos ou poucas palavras.

5 Músicas Cantadas Por Grande Otelo

“Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir” Hilda Hilst

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Nas palavras de Herivelto Martins, Grande Otelo tinha “mania de compositor”. O pequeno Sebastião Prata que nasceu em Uberlândia transformou-se num dos maiores atores cômicos do Brasil, e morreu como o inconfundível Grande Otelo no aeroporto de Paris, quando se preparava para receber uma homenagem. Imortalizado na alma brasileira de Mário de Andrade, ao interpretar Macunaíma no cinema e receber o prêmio de melhor ator, Otelo também se destacou como cantor e compositor de grandes sambas.

Praça Onze (samba de carnaval, 1942) – Herivelto Martins e Grande Otelo
Em 1941, quando ficou sabendo da intenção da prefeitura de demolir a Praça Onze, abrigo dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, Otelo indignou-se e escreveu versos românticos e tristonhos sobre o fato. Então levou a letra para músicos como Wilson Batista, Max Bulhões e Herivelto Martins, a fim de que a musicassem. Nenhum deles se interessou muito, mas o azar de Herivelto era que esse o via todo dia, pois os dois trocavam-se juntos no Cassino da Urca. Herivelto dizia que não cabia samba naquela letra, pois o que Otelo tinha escrito era um romance, com versos do quilate de “Oh Praça Onze, tu vais desaparecer”. Eis que devido à insistência diária do noviço compositor, Herivelto irritou-se e começou a cantar de improviso versos sambados, dizendo para o humorista: “O que você quer dizer é isso: vão acabar com a Praça Onze, não vai haver mais escola de samba, não vai…”, Otelo empolgou-se e começou a escrever ali mesmo os outros versos da canção, enquanto Herivelto tocava a melodia no violão. Quando ficou pronta, a música foi gravada pelo Trio de Ouro com a companhia de Castro Barbosa, e trouxe na execução uma novidade inventada por Herivelto e que fez grande sucesso entre os foliões, o uso do apito para dar ritmo. Todos que sentiam a perda da Praça cantaram e dançaram na avenida a música que dividiu o prêmio de melhor samba do ano de 1942 ao lado da clássica “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Grande Otelo ria como fazia rir, apesar da tristeza pela perda da praça, ele conseguiu o que queria.

Zé Wilker: o imortal Vadinho

“Quero
Ser o riso e o dente.
Quero ser o dente
E a faca.
Quero ser a faca
E o corte.
Em
Um só beijo
Vermelho.” Tom Zé

Ze-Wilker

Dois dos personagens mais marcantes da carreira do ator José Wilker protagonizaram triângulos que se não eram exatamente amorosos são certamente cheios de humor. O papel título conseguido na novela “Roque Santeiro” e a interpretação de Vadinho na primeira versão cinematográfica de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” exploram o absurdo da existência com pouco ou nenhum grau de profundidade.

Era aí que Zé Wilker deitava e rolava. Pois de uma forma sisuda, elegante, contida, sempre aproveitava as brechas para explicitar o cinismo, desencanto e ironia com que assistia a vida. E assistia do lado de dentro do copo, com uma predileção pela maneira pop de caminhar sobre os trilhos da mídia de grande massa em elementos descombinados, espalhafatosos na cor dos óculos e dos sapatos, rindo do culto à afetação, aos maneirismos.

Crítica: peça “Humor”, do grupo Quatroloscinco, é melhor quando não se explica

“Dever de legisladores e magistrados
de cuidar pelo interesse sobre a literatura
e princípios de… bom humor…” Ezra Pound

Humor

Com texto próprio o grupo “Quatroloscinco – Teatro do Comum” se propõe a desvendar e apresentar os enigmas que emergem da palavra “humor”, título da nova empreitada. O trabalho dos atores é notável, assim como a montagem de cenário, trilha sonora, figurinos e os criativos efeitos visuais, como penas que voam de travesseiros e até da boca do médico. A construção em prosa com floreios à poesia se vale de excelentes ironias, como as direcionadas aos profissionais das áreas de saúde, direito e das artes cênicas, e a proposital mistura entre real e imaginário chega, de fato, a confundir a plateia, neste que é certamente o principal mérito da encenação.

O único porém fica por conta do excessivo monólogo que o intérprete de Amadeu trava com o público. Na tentativa de relativizar ele expõe uma opinião que é, justamente, objetiva. Isto empobrece a principal magia do teatro, jamais centrada na auto-explicação, mas sim no auto-entendimento de cada espectador. As imagens formadas na menção de pombos, cactos, cartas não recebidas, entre outras, contribuem para o clima árido a contemplar a cena, enquanto esta se debate com a caricatural chancela imprimida pelas personagens, seus artefatos e afetações. A irreverência e imprevisibilidade da trama como um todo merece destaque.