5 personagens inesquecíveis de Elias Gleizer

“Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento.” Mario Quintana

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Se há atores que ficam marcados por uma personagem, há outros que se consagram interpretando um tipo. No caso de Elias Gleizer, foram dois: o padre e o avô. Mas no âmbito de uma análise mais depurada o que se poderá constatar é que tratam de um estilo só: Elias parece ter carregado para a tela a forma simples e de bem com a vida do cotidiano longe das câmeras. No jargão popular, o “boa praça”, e para os mais antigos, típico “bonachão”.

Outra característica que não escapa ao trabalho de Elias Gleizer é o de ter conseguido levar para a televisão, habitualmente criticada pela consistência rala, uma atuação capaz de despertar emoção, simpatia e entretenimento. Sem abrir mão deste último, Elias, que atuou bem pouco no cinema e no teatro, enriqueceu a história da teledramaturgia nacional, desde os tempos da TV Tupi, onde começou em 1959, até a TV Globo, em 2014.

5 perguntas nunca respondidas por Elke Maravilha

“Mas, ao escrever-lhe, tinha em mente outro homem, um fantasma feito das lembranças mais ardentes, das leituras mais belas, dos desejos mais intensos; e, ao final, ele tornava-se tão verdadeiro e acessível que ela palpitava maravilhada, sem poder, todavia, imaginá-lo claramente, de tanto que ele se perdia, como um deus, sob a abundância de seus atributos. Morava em uma região azulada, onde escadas de seda balançavam-se nas sacadas, sob o sopro das flores, sob o luar. Sentia-o por perto; ele viria e a arrebataria toda em um beijo. A seguir, caía do alto, dilacerada, pois aqueles impulsos de amor vago a cansavam mais do que as grandes devassidões.” Gustave Flaubert

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Elke Maravilha é uma das mais exóticas e pitorescas personalidades do cenário brasileiro, basta olhar o número de vezes em que interpretou a si mesma em novelas, cinemas e seriados para constatar essa afirmação. Elke é, em si, a sua própria personagem. Natural da Rússia, despatriada no país de origem e cassada no Brasil, onde veio para morar e combateu a ditadura, Elke adotou a nacionalidade alemã. Como cantora é capaz de interpretar em seu primeiro idioma, o russo, mas também em português e alemão, indo de peças bávaras a xotes do sertão nordestino, em homenagens a Luiz Gonzaga.

Conhecida, sobretudo, como jurada de programas de calouros, onde fez fama junto a um público massificado, Elke começou a carreira como modelo, e o exemplo de beleza grega que ao longo do tempo foi substituído pelo exotismo pode ser conferido em fotografias antigas. Assim, Elke exerce o papel de uma força irreverente, libertária, culta e que ao mesmo tempo despreza todos os pedantismos, lugares comuns e baratos. Em outras palavras Elke conserva aquela qualidade tão cara a todos os artistas, o poder de transformação, a capacidade da contradição, o eterno martírio da dúvida e a busca pelo prazer.

O humor no cinema brasileiro

“Do cômico ao excitante, haveria somente um passo?” Milan Kundera

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As comédias nacionais são a nova vedete dos barões da indústria cinematográfica. Tradicionalmente, o Brasil é um país onde o humor se impõe, não por acaso aqui se instala a “piada pronta” e também os ditados, que buscam elaborar e mistificar uma realidade que tende para a fantasia, a caricatura. Essa característica pode ser vista em outras áreas, por exemplo, as artes plásticas, através das charges, e mais recentemente o teatro também vem sendo alvo de um número excessivo de montagens cômicas, especialmente após o aparecimento da categoria denominada “stand-up comedy”, uma importação norte-americana, como se supõe pelo nome.

No cinema essa “tradição oral” é mais antiga. O primeiro gênero que se estabeleceu na telona como linguagem brasileira, embora obviamente influenciado pela cultura europeia, foi o das chanchadas, típica comédia de costumes. Por essa brecha entraram para a história da arte brasileira nomes como Grande Otelo, Oscarito, Dercy Gonçalves, Consuelo Leandro e o pioneiríssimo Ankito, raro caso de artista que ainda assinava sem sobrenome. Num segundo momento, referenciado por essa trupe, o cinema apresentou um leque mais variado, tanto de humor quanto de abordagem, através inclusive da pornochanchada, que acrescentava a nudez e o erotismo a situações ridículas e absurdas. Daí para frente houve a consagração de Jorge Dória, Tonico Pereira, Hugo Carvana e muitos outros baluartes do estilo.

POP-PÓS-ART (COM TOQUES DE SURREALISMO): A NOVA (PÓS) ARTE DA COLAGEM

“Mas é que eu não sabia que se pode tudo!” Clarice Lispector

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Pop-pós-art não é um movimento, nem alistamento, nem chamada. Até porque essas degenerações já estão passadas. Pop-pós-art pode ser entendida como um novo gênero, ou pra ficar mais bonito ainda, nova arte da colagem.
Sua influenciadora, a pop-art criava leituras novas através da imagem de ícones populares. A pop-pós-art não descarta nem limita populares, eruditos ou celebridades. Cria leituras e imagens novas a partir de frases, citações, textos, poemas, figuras, figurinhas e figurões pop e cult.
A matéria prima do processo é a colagem, que redimensiona o material ao deslocá-lo de seu lugar de origem, criando assim um novo (ou novos) significado (s) para ele.
A idéia da crítica depende do estilo do autor, podendo ser cínica ou feroz. Dessa forma, a utilização das colagens funciona não apenas como crítica àquele que está sendo referido, mas também como homenagem, e mais ainda, como explicitação das referências do autor, mostrando de onde partiu a idéia daquela sentença. (conferindo teor confessional ao gênero)

Análise: Antônio Abujamra foi de canastrão a astro provocador

“Se têm a verdade, guardem-a!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da
técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

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Antônio Abujamra era um canastrão. É o que “corria à boca pequena em Porto Alegre”, revela Paulo César Peréio na entrevista ao “Provocações”, programa que Abujamra conduziu por mais de 14 anos na TV Cultura. A figura imponente e segura, o tom grave e dramático, emprestado das tragédias gregas (“Ai de mim, essa palavra deveria ser dita por uma Medéia”, dizia na abertura), a recusa ao pedantismo e ao mesmo tempo da modéstia são adjetivos e observações que não dão conta do tamanho da importância de Antônio Abujamra para a cultura e a arte no Brasil. Talvez por isso a comparação seja um meio mais efetivo no esforço de analisa-lo, de defini-lo: em termos de qualidade a associação é a Pelé no esporte. O que também dá a dimensão da diferença de tratamento a essas duas esferas. Pegando-se emprestada outra provocação de seu amigo Peréio, pode-se dizer que, assim como Paulo César, Abujamra não era “um ator característico, mas essencial, aliás eu não tenho nenhum caráter”, concluía.

Crítica: peça “Beije minha lápide” esmaece força do texto de Oscar Wilde

“É um absurdo nos dividirem em gente boa ou má. Somos apenas encantadores ou entediantes.” Oscar Wilde

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Numa definição clássica a linguagem é um fim em si para o texto literário, enquanto para o jornalístico serve como base à informação. Não significa que ambas não sejam nutridas por uma estética e, evidentemente, o conteúdo. No entanto, a arte, pela própria conotação, tem maior apreço pelo envelope, a forma, o invólucro. Ritmo, estrutura, vocabulário garantem, ou não, o impacto, que deve ser causado no jornalismo pelo fato em si. É este o pecado primeiro da montagem “Beije minha lápide”, com texto de Jô Bilac e direção de Bel Garcia, pois, ao se apropriar de passagens importantes da obra do dramaturgo, aforista e escritor britânico Oscar Wilde, elimina o contexto que lhes garantia o viço, mas essa originalidade, que por tal circunstância não seria lamentável, resulta numa leitura superficial, que tende para a demagogia e confere um tom entre o piegas e a piada.

É possível observar fenômeno parecido na internet. Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Caio Fernando Abreu e muitos outros, por caminharem, como um Lupicínio Rodrigues da canção popular, na tênue linha entre o derramamento de autoajuda e a precisão acabam arrolados junto a Paulo Coelho quando as frases são pinçadas a bel prazer e lançadas à deriva. Da mesma maneira uma declaração de um político ou celebridade para um jornal, retirada do todo, e que, por estratégia publicitária, estampará a manchete, ganhará contornos mais ridículos e escandalosos. Neste cenário não há como Marco Nanini, ator de reconhecidos recursos, e que protagoniza a peça, escapar de soar inseguro, hesitante, melodramático, com atropelos nas falas que desmentem a dicção quase sempre perfeita apresentada em outros trabalhos. Com esse abacaxi nas mãos não há como produzir omelete. Cenário e iluminação não contribuem, e a trilha sonora é discreta.

Liberdade e intolerância na internet

“Ele é um cidadão livre e seguro da Terra, pois está atado a uma corrente suficientemente longa para dar-lhe livre acesso a todos os espaços terrenos e, no entanto, longa apenas para que nada seja capaz de arrancá-lo dos limites da Terra. Mas é, ao mesmo tempo, também um cidadão livre e seguro do céu, uma vez que está igualmente atado a uma corrente celeste calculada de maneira semelhante. Assim, se quer descer à Terra, a coleira do céu o enforca; se quer subir ao céu, enforca-o a coleira da Terra. A despeito de tudo, tem todas as possibilidades e as sente, recusando-se mesmo a atribuir o que acontece a um erro cometido no primeiro ato de acorrentar.” Franz Kafka

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Sim, Chuck Berry fields forever, mas rock não é mais nosso tempo, como o ex-ministro e eterno tropicalista Gilberto Gil cantou. A rumba, o mambo, o samba e o rhythm ´n´blues são filhos de Xangô, mas e o pai do nosso virtual tempo? Será que já chegou? A internet, um dos suportes mais utilizados pelo virtual promove em certa escala uma inversão, na medida em que altera a relação entre produtor e consumidor, colocando-os numa disposição anárquica em referência à produção e escolha de conteúdo. Isso em parte, pois os filtros desses mecanismos ainda são controlados pelos mesmos, mas não apenas por eles, e essa é a grande novidade da internet, mais gente envolvida na produção e na recepção de conteúdo.

A internet não destrói os nichos geográficos e sociais construídos no território físico pelo homem, nem deixa de construir novos deles, posto que é notório que esse tal ser humano, em via de regra, sempre se sentiu mais confortável quando posto em contato com seu semelhante. O diferente tende a gerar um certo desconforto e desemboca algumas vezes pro que se costuma chamar de preconceito e discriminação. Assim sendo, têm-se uma coletividade individualista, ou um individualismo coletivo, gerado não pela internet, mas pelo homem desde que se viu como gente. É difícil determinar se a internet contribuiu para uma maior individualidade ou não, posto que estabelece-se um paradoxo a partir do momento que ela se propõe a e permite uma grande interação entre os agentes participantes, além de vasta diversidade de estética e conteúdo.

Análise: Barbara Heliodora foi de crítica a celebridade

“Seria perpetuamente encenado
No coração humano –
Único teatro que, sabidamente,
O proprietário não consegue fechar.” Emily Dickinson

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A principal contribuição de Barbara Heliodora ao teatro foi a clareza, a transparência e a honestidade com que emitiu suas análises. Outra característica fundamental diferencia duas atividades em que é tênue a linha entre a ofensa e a fidelidade ao ofício: a elegância; paradigma presente também no humor. O que explica por que era tão difícil se defender de Barbara, tanto para o bem quanto para o mal. Passar pelo crivo de Heliodora correspondia a ter uma música cantada por Elis Regina na década de 1970. Daí a importância da crítica.

Foi a partir do fim do regime militar que Barbara ganhou espaço de destaque na imprensa, ao lado de outro nome não menos particular e controverso, Paulo Francis. Versada em Shakespeare, ampla conhecedora da obra do “bardo inglês”, tradutora e ensaísta, Heliodora soube fazer a transição, com relativa tranquilidade, entre o mundo acadêmico e literato e a realidade dos jornais diários. A agudeza das palavras incomodou, foi motivo de reclame e insinuações de preferência aos amigos.

Entrevista: Denise Lopes Leal coloca Shakespeare na rua

“Hei de monumentar os insetos!
(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os
pés dos seus discípulos.
São Francisco monumentou as aves.
Vieira, os peixes.
Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos.
Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)
Com esta mania de grandeza:
Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas de orvalho.” Manoel de Barros

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Não chega a ser coincidência que a primeira e a recente experiência de Denise Lopes Leal no teatro tenha em comum o “bardo inglês”. Talvez destino. Certo é que esse ciclo se inicia na década de 1990. “Lembro que o primeiro espetáculo que assisti e que mexeu comigo foi o ‘Romeu e Julieta’ do Grupo Galpão, em 91, 92”, constata. Tinha por volta de 6 ou 7 anos, e estava na cidade natal, Sabará, onde ainda mora, no interior das Minas Gerais. “Aquilo ali me tocou de um jeito, que eu queria fazer aquilo. Eu queria fazer o que eles faziam. E eles faziam teatro na rua. Além de ter gostado da apresentação, gostei de ser na rua, para todos”, sublinha. Essa característica democrática Denise trouxe para a mais nova montagem. “Se essa rua fosse minha” conversa com o espaço público, e William Shakespeare, claro.

O sadomasoquismo no cinema

“Ah, as pessoas põem a ideia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil esse pecado. (…) Sexo é o susto de uma criança.” Clarice Lispector

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A obra surrealista do espanhol naturalizado mexicano Luis Buñuel, e que por anos viveu na França, certamente recebeu influência do artista plástico Salvador Dalí. Mas também atuou de maneira assertiva sobre outros nomes. Por exemplo, o pernambucano Alceu Valença se vale do título de um dos filmes mais controversos de Buñuel para batizar uma popular canção. “La Belle de Jour” do compositor é transportada para a tropical praia de Boa Viagem, enquanto a película de Buñuel passa-se em dois campos distintos. O primeiro diz respeito a um frio interior francês, já o segundo, aparentemente na imaginação da protagonista, não economiza na temperatura. O tema do sadomasoquismo, além da conotação de tabu moral, servia para espezinhar a hipocrisia burguesa, o ideário religioso e a tênue linha entre prazer e dor. Não mudou muito até agora.

Nessa década de 2010, quem puxa a fila do assunto chega pela indústria como best-seller, produção americana com recorde de arrecadação no cinema, pontos que nos permitem notar, de cara, o diferencial entre as duas obras. “50 Tons de Cinza” é também baseada em livro, o que parece ser a única ligação com “A Bela da Tarde”, de Buñuel e que tem Catherine Deneuve no papel principal, tirada das páginas de Joseph Kessel. Além de preocupações estéticas, a intenção provocativa, e o habitual misto entre delírio e realidade, justamente por essas características Buñuel ergue com unhas e dentes a bandeira da reflexão, o que lhe impede concessões à rápida assimilação mercadológica. E. L. James, ao contrário, é um produto de mercado feito para o mercado. Está intrinsicamente ligada a ele. Se Buñuel criticava o moralismo, o folhetim contemporâneo só o reforça.