Crítica: “Chacrinha, o Musical” diverte, mas não avança na história do protagonista

“Cada produto da fantasia, cada criação da arte deve, para existir, levar em si o seu próprio drama, isto é, o drama do qual e pelo qual é personagem. O drama é a razão de ser da personagem. É sua função vital, necessária para que ela possa existir.” Luigi Pirandello

Chacrinha, o Musical, com Stepan Nercessian

De volta aos palcos para celebrar o centenário de nascimento de Abelardo Barbosa, o espetáculo “Chacrinha, o Musical” deixa claro, desde o princípio, quais são os motivos do seu sucesso: ele está ali para divertir, e investe pesado em atrações que tragam riso e leveza ao público, tal como o protagonista homenageado, que imortalizou bordões do tipo: “eu não vim para explicar, vim para confundir”. Essa noção de que o que interessava a Chacrinha era a fantasia, e a ideia de que ele constituía sua personagem, sobretudo, no palhaço, é a responsável por um dos grandes trunfos da montagem. Logo na abertura, o cenário inspirado por cordéis pernambucanos (terra de nascimento do apresentador, natural de Surubim) sustém sobre a cena uma aura mágica, possibilitando ao espectador, justamente, fugir da realidade tacanha, obsoleta e pragmática a que a mera objetividade o relega. Cada núcleo de artistas que sobe ao palco – este disposto para reconstituir o esquema de auditório consagrado por Chacrinha – envolve a cena com coreografias bem ensaiadas, mas que em determinado ponto ficam monótonas.

Análise: Paulo Silvino colocou corpo expressivo a favor das piadas

“Posso inventar qualquer coisa, zombar dos outros, criar toda espécie de mistificações, fazer todo tipo de piadas e não ter a impressão de ser um mentiroso; essas mentiras, se quiser chama-las mentiras, sou eu, tal como sou; com essas mentiras, não simulo nada, na realidade com essas mentiras estou dizendo a verdade.” Milan Kundera

Paulo Silvino deu vida ao porteiro Severino

Se o modelo de beleza grega é pautado pela constância entre equilíbrio, simetria, harmonia e proporcionalidade, o que esta noção sugere como risível aponta justamente para o contrário. Diante deste segundo quadro, podemos nos deparar, frente ao ridículo, com outras duas possibilidades: repulsa ou empatia. Quando esta segunda reação acontece estamos, inevitavelmente, no campo do humor. No caso do ator Paulo Silvino, uma observação panorâmica revela o uso destas valências em todos os personagens que ele, literalmente, incorporou ao longo da trajetória. Não que sua representação buscasse o realismo ou alguma naturalidade, ao contrário. Com trejeitos e cacoetes típicos das definições de caricatura, Silvino soube colocar seu corpo expressivo e abundante a favor de piadas tão imediatas quanto uma assimilação física da realidade. Criou bordões cuja impulsão vinha mais da estética que do conteúdo. Prova é que a mera reprodução das palavras utilizadas não é capaz de alcançar o sentido delas quando imprimidas na tela por meio das atuações.

Entrevista: O encontro de Louise Cardoso com Leila Diniz

“Toda mulher é meio Leila Diniz…” Rita Lee

Louise Cardoso protagonizou o filme "Leila Diniz"

“Nem de amores eu morreria, porque eu gosto mesmo é de viver deles”. A frase pertence àquela que se habituou a contrariar padrões e dar a volta nos clichês. Mais do que atriz, Leila Diniz tornou-se símbolo da liberação feminina em plena ditadura militar no Brasil, tanto que, em 1969, após uma polêmica entrevista recheada de palavrões ao jornal O Pasquim, foi outorgada lei que ficou conhecida como Decreto Leila Diniz, e que ampliava a censura do regime antidemocrático. Não adiantou, pois ela seguiu desfilando liberdade até 1972, a despeito de empunhar bandeiras ou palavras tidas como as de ordem.

Quinze anos após a trágica morte de Leila num acidente de avião em Nova Déli, na Índia, Louise Cardoso recebeu a missão de interpretar a artista na cinebiografia lançada em 1987 e dirigida por Luiz Carlos Lacerda, o popular Bigode, amigo íntima da homenageada, tanto que trabalhou com ela, por exemplo, em “Mãos Vazias”, na adaptação para o romance de Lúcio Cardoso. “Assim que o convite chegou, a primeira coisa que fiz foi procurar conhecer a fundo a Leila. Vi seus filmes todos mais de uma vez, li muitas entrevistas dela, conversei com pessoas que conviveram intimamente, e depois o diretor Luiz Carlos Lacerda me emprestou os diários dela. Aí pude saber quem realmente era Leila Diniz, sua maneira de pensar o mundo, como sentia as pessoas, suas opiniões, desejos, sonhos, medos”, relembra Louise.

Crítica: peça “Sem título, óleo sobre tela” promove alegoria da situação política

“Imagine se vocês que escrevem fossem independentes! Seria o dilúvio! A subversão total. O dinheiro só é útil nas mãos dos que não têm talento. Vocês escritores, artistas, precisam ser mantidos pela sociedade na mais dura e permanente miséria! Para servirem como bons lacaios, obedientes e prestimosos. É a vossa função social!” Oswald de Andrade

Peça debate situação política do país

Datada de 2014, quando foi encenada pela primeira vez, a peça “Sem título, óleo sobre tela” parte de uma premissa política sem se prender exclusivamente a ela. A questão temporal também não engessa a montagem, que tem o mérito de oferecer elementos capazes de se conectar às várias sensibilidades. Dito isto, escapa da redoma que invariavelmente distancia o teatro que propõe certo engajamento nos últimos tempos, sem dar voltas ao redor de discurso cujo alvo é justamente o isolamento e a criação de nichos por parte das classes dominantes. Com uma dramaturgia, a rigor, simples, todo o potencial da trama está contido no subtexto e, nisto, o texto tem habilidade ao selecionar palavras que jamais se encerram em apenas um sentido. Assim como os gestos, já que o humor físico é uma das apostas feitas para trazer a reflexão através de risos.

Crítica: Peça “Cachorro enterrado vivo” contextualiza animalidades

“Palavras de fervor não peneiradas, de início apenas para adular
tal qual o olhar de um animal tragando luz
ou correr para buracos de rato” Ezra Pound

Leonardo Fernandes na peça Cachorro enterrado vivo

Baseada no mórbido acontecimento real que dá nome à peça “Cachorro enterrado vivo” ultrapassa a história em si para refletir sobre a existência. Ao superar essa primeira camada a soberba atuação de Leonardo Fernandes é quase que suficiente para dar conta do amplo espectro que a montagem aborda, não estivesse ele ainda auxiliado por preciosas escolhas de cenário, iluminação, figurino e trilha sonora, aspectos que elevam a tensão necessária. A decisão de incluir ‘suspiros’ cômicos para o espetáculo também surte o efeito não apenas de balancear o ritmo da narrativa como de, efetivamente, contribuir para a reflexão proposta: é um humor sempre mórbido, sádico, que nos leva a pensar sobre o que estamos rindo, afinal por mais que as bochechas se alarguem permanece o ranger de dentes ante a mandíbula tensionada, a garganta seca e amarga. Nada aparece por acaso no texto de Daniela Pereira de Carvalho, capaz de nos reservar surpresas em sua estrutura hábil, elástica.

Entrevista: Jhê Delacroix, entre a irreverência e a preocupação histórica

“Tomo para mim uma tarefa inteira:
A de guardar um tempo, o todo que recebe
E livrá-lo depois de um jugo permanente.
Outros te guardarão. Não eu que só pretendo
Libertar na alegria o coração e a mente.” Hilda Hilst

Obra da artista plástica Jhê Delacroix

Ela imitava Sandy e Simony e ouvia Daniela Mercury, não necessariamente ao mesmo tempo. Entre as faxinas da mãe “escutava uma gama imensa de música de um determinado estilo”, sucesso na época, como a dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. “Não nasci Clarice Lispector por pouco”, confessa ela que, ao ser questionada sobre o nome artístico, responde como a autora de “A Maçã no Escuro”. “É segredo, só as crianças sabem”, ri-se. Assim Jhê Delacroix, natural de Niterói, no interior do Rio de Janeiro, e residente em Belo Horizonte há quatro anos mantém o mistério e não entrega pistas de parentesco com o pintor francês famoso por telas políticas, de que é o maior exemplo “A Liberdade Guiando o Povo”. Mas deixa claro que com seus 28 anos e alma lavada sem ter onde secar – para parafrasear Cazuza – navega entre a irreverência e a preocupação histórica. De volta à meninice Jhê recorda seus primeiros tempos. “Sempre amei escutar música e como também tinha essa aptidão imitava os artistas pros meninos mais velhos pra poder enturmar”.

Crítica: “Cheiro de Manga” saúda o corpo como a um estado de espírito

“A pele trans (luz). Si/dá. A carne é mansa. E den
tro o hirto centro: semen/te do existir e hi
fen do prazer. Não vi?/E é fruta. E ou é fruto
do inconsciente? Abrupto/estar, não-ser-aí?
Ou é silêncio ou gri/to? Ou é sumo ou suma
teológica? Uma/fruta? Fruto-em-si?” Heládio Brito

Laura de Castro protagoniza Cheiro de Manga

“Cheiro de Manga” nasce após uma experiência de Laura de Castro na África. Ou é possível conceber que o espetáculo é gerido durante a viagem, e que a sua permanência no corpo de Laura o trazem agora a outras plagas. Pois uma das capacidades do teatro é a de alargar tempo e espaço; outro fato pelo qual seria redutor restringir a atração à dança. “Cheiro de Manga” tem por princípio propor muito mais do que movimentos coreografados, embora a partir deles dispare suas noções de estupor e identidade – mas eles, aqui, são ponto de partida (disparador) e não chegada, não conclusão, longe de aspirar a algo retilíneo e determinado. Os elementos cênicos como o cenário, o figurino, a trilha sonora e as pontuais inflexões da luz corroboram na direção da mesma frequência de despojamento e encontro propostos pelo corpo de Laura. Ele respira, escuta, fala, cheira, toca, e expande suas sensações interiores para fora. Assim, a experiência ocorre na acepção da palavra, de assimilação no gesto, no ato, na sensibilidade da pele que através de caminhos encontra alma.

Crítica: “Danação” transforma em beleza um fardo da existência humana

“Lembra minhas palavras uma a uma. Eu poderei voltar. Te amo, e parto, eu incorpóreo, triunfante, morto.’” Ana Cristina Cesar

Eduardo Moreira protagoniza Danação

A escrita de Raysner de Paula chama a atenção há algum tempo nos palcos de Belo Horizonte. Em “Danação” os méritos são comprovados. No espetáculo que leva pela primeira vez à cena Eduardo Moreira em atuação solo não é pouca coisa que o texto se assanhe como maior destaque. Cumpre dizer que o ator do Grupo Galpão colabora incisivamente para que as palavras tenham carne, na pele de mais de uma personagem que a intérprete invoca com ritmo e perspicácia. A história tem toda uma cadência própria, que tanto texto quanto Eduardo conseguem levar de tal modo a que as ilações tornem-se, de fato, palpáveis. Há, aqui, duas importantes premissas da narrativa, ambas relativas às noções de tempo e espaço. A primeira é a de carregar o teatro à sua origem, campo da imaginação, fértil, em que se amplia um caminho por sua característica simbólica, invocando a transformação através do gesto abstrato. Ou seja, ainda que o ocorrido seja inventado, é esta invenção que também tem a capacidade de modificar o real. De outra, a cena contemporânea do teatro assimila a nítida preocupação em aproximar-se, na busca de uma experiência mais coletiva e compartilhada, revolvendo o terreno da passividade para posições proativas, denotando-se como política independente do tema tratado. Neste caso há um atravessamento de tons e gêneros que costuram a unidade.

Crítica: “Ser – Experimento Para Tempos Sombrios” pinta retrato poético e incisivo da realidade

“Por alguns momentos, apenas alguns momentos, é como se houvesse assim uma espécie de esperança, de possibilidade de esperança. Seja o que for, você está quase alcançando. O teu braço está tão estendido que essa parte que junta com o corpo parece que vai rasgar. E as pontas dos dedos podem sentir assim quase como. Um formigamento, uma dormência. A vibração dessa coisa que está lá, por enquanto ainda longe deles, prestes a ser tocada.” Caio Fernando Abreu

Rafael Bacelar protagoniza "Ser - Experimento para Tempos Sombrios"

Nascida no seio da tradicional família mineira em Belo Horizonte, já no século XXI do ano de 2013, a TODA DESEO é um coletivo que prima, desde o início, por ampliar as possibilidades. Com uma temática ligada ao universo trans, mas, sobretudo, atenta às questões de identidade, a companhia acumulou em pouco tempo trajetória relevante e necessária, principalmente por conseguir conjugar suas inquietações de conteúdo sem desabalar a estética, a forma, e, principalmente, a poética de seu trabalho. “Ser – Experimento Para Tempos Sombrios” leva o coletivo a um novo campo de exploração, embora ainda lá estejam seus pilares: a performance, a experimentação e o remodelamento de tabus em totens. A TODA DESEO quer transformar as consciências, e para isto não dispensa a linguagem do corpo e a emoção com a qual se nos atravessa a arte. Desta vez, porém, há diferenças fundamentais, qualidade inerente àqueles que partem na busca incessante da mudança e, além, da modificação. Para começar promove habilidosa fusão entre sandice, somente aparente, e realidade, a fim de estender, expandir e alargar possibilidades de corpo e alma. Ao passear por gêneros a montagem expressa as múltiplas sensações da vida.

Crítica: “Rosa Choque” é peça-manifesto inteligente e necessária

“Longe daquele leito ameno
Somos um sonho que eles sonham.
Suas pálpebras retêm sombras.
Nada vai lhes acontecer.
Trocamos a pele e nos movemos
Dentro de um outro tempo.” Sylvia Plath

Rosa Choque discute questões de gênero

Se a “brincadeira” que marca o início do espetáculo soa repetida e familiar é porque fala, justamente, do quão atual e sério é o tema tratado. A pertinência do conteúdo é envelopada com fina e, ao mesmo tempo, penetrante camada estética, direcionada para seu redor como uma lâmina. “Rosa Choque” consegue abordar questões repisadas na contemporaneidade sem permitir que sua ânsia e clamor percam o viço e a força. Ao contrário, entre a representação e a performance, a dramaturgia fechada e a interativa, oferece uma peça-manifesto que traz em seu bojo fatores que permitem uma nova reflexão, porque condensada através de concepção estética que é direta e também simbólica. Nisso a direção é sagaz em combinar os elementos que tem a seu dispor para que seja reforçada a fineza textual. Figurino, cenário, luz, projeções e músicas contribuem para adensar as circunstâncias. E ainda surpreendem. Longe de prejudicar a fluência da trama, o experimentalismo acalora as cenas.