Alceu Valença: “A filosofia transformou a minha maneira de ver o mundo“

“Quanto mais desconfiança, mais filosofia.” Nietzsche

Um trauma marcou as primeiras relações de Alceu Valença, 73, com as artes. Nascido em São Bento do Una, no agreste meridional de Pernambuco, o músico viveu na cidade até os 7 anos, antes de se mudar, com a família, para a capital Recife. No pequeno município de 5 mil habitantes, havia dois cinemas, três grupos de teatro e uma banda de música. “Era uma cidade amiga da arte”, descreve. “E havia também a cultura popular dos cantadores, poetas, cordelistas, violeiros, coquistas e improvisadores; dos cegos cantores de feira e dos aboiadores que tangiam o gado com sua cantigas de forte influência mourisca. Tudo isso faz parte da minha formação primal, são os mesmos elementos que Luiz Gonzaga utilizou para formatar, por exemplo, o forró e o baião”, conta.

10 mineiros que poderiam ter nascido no Rio

“O mar de Minas não é no mar.
O mar de Minas é no céu
pro mundo olhar pra cima e navegar
sem nunca ter um porto onde chegar…” Domínio Público

Eles são mineiros, mas dedicaram filmes, livros e canções para aquela que é considerada por muitos como a “Cidade Maravilhosa”. Vocacionados para a criação, músicos, atores, escritores e cineastas partiram de todos os cantos das Minas Gerais em busca de uma oportunidade para exercer o seu ofício e acabaram se estabelecendo no Rio de Janeiro. Hoje em dia, não é incomum que eles carreguem o sotaque praiano e tragam a saudade das montanhas.

10 gringos que foram adotados pela música brasileira

“E em nossa pátria imóvel germinava e crescia
o amor com os direitos do orvalho.” Pablo Neruda

António Joaquim Fernandes morreu em setembro, aos 67 anos, vítima de câncer de pele. Com estas informações, poucos o reconheceriam. Foi no Brasil, para onde se mudou aos 11 anos, que o cantor nascido em Macedo de Cavaleiros, em Portugal, adotou o nome artístico de Roberto Leal, alcançando um enorme sucesso ao popularizar os fados de seu país. Assim como Roberto Leal, outros músicos vindos de fora escolheram o Brasil para expressar sua arte. Listamos alguns deles.

Letrux: “A prisão do Lula faz parte desse grande golpe em que estamos inseridos”

“Mas ela teve piedade de um covarde tolo,
Alimentou seu fogo,
Manteve suas brasas vivas.
O tempo é o mal.” Ezra Pound

As coincidências rondam a história de Letrux, 37, com Marina Lima. “Conheci a Marina no Hotel Marina”, diverte-se Letrux, ao relembrar o primeiro encontro, em 2008, no bairro Leblon, no Rio de Janeiro. A união musical se concretizou com “Puro Disfarce”, faixa de “Em Noite de Climão” (2017), que servirá de base para o show da dupla no Sarará. “Marina é minha madrinha musical. Amo como funciona a cabeça dela”, afirma Letrux. Preparando videoclipes para todas as canções de seu disco mais recente, a compositora promete gravar o sucessor de “Em Noite de Climão” em novembro e lançar, em breve, o single “Ouro Puro”, gravada por Elba Ramalho em 1989. Na entrevista abaixo, a artista multifacetada fala sobre encontros musicais, as características de sua geração, política, perseguição e censura à comunidade LGBT e defende a libertação do ex-presidente Lula.

Michel Melamed: “É hora de dizer não aos nazistas, e sim aos nossos artistas”

“A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito.” Thomas Mann

A primeira vez que ouvi falar em Michel Melamed foi na Faculdade de Comunicação e Artes, durante o curso de jornalismo, em 2008. O professor Márcio Serelle, que mais tarde escreveria o prefácio do meu primeiro livro (“Amor de Morte Entre Duas Vidas”), falava entusiasmado sobre o trabalho “Regurgitofagia”, um marco da dramaturgia nacional que unia diversas linguagens, como poesia, teatro e artes plásticas, e propunha uma radical interação com a plateia, onde cada reação sonora emitida por esta era captada por microfones e transformada em descargas elétricas que atingiam em cheio o corpo de Melamed. Como as aulas do professor Serelle me impressionavam, a partir deste momento ambos passaram a me impressionar.

O encontro “pessoal” com Melamed se daria pouco tempo depois, quando o ator, escritor, poeta, diretor teatral e futuro apresentador de televisão apresentou uma palestra para lá de performática na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais. Da cadeira onde eu estava, a poucos metros de distância do convidado, as provocações de uma palestra que nada afirmava, mas, ao contrário, lançava questões uma atrás da outra, borrando e rompendo as barreiras entre representação e realidade, confirmaram definitivamente a admiração pela personalidade artística de Melamed. Ao ter a oportunidade de entrevista-lo, também busquei as memórias remotas do personagem. Antes de ser contratado pelo Canal Brasil, ele foi espectador da emissora.

Fabiana Cozza: “Juristas do mundo todo reconhecem Lula como um preso político”

“Me armo de samba e poesia
E a minha melancolia
Logo se desfaz
Me prendo à toda beleza
E solto amor em meu cantar” Dona Ivone Lara & Delcio Carvalho

Fabiana Cozza, 42, é paulistana, mas suas relações com Minas vêm de longe. Em 2008, ela estreou na sala principal do Palácio das Artes ao lado de Maurício Tizumba e Sérgio Pererê. Posteriormente, participou de DVD e gravou canções dos dois artistas. Já com o sambista Dé Lucas o encontro se deu no Quintal Divina Luz, que ela chama de “quilombo da resistência negra em BH”. Por fim, em 2017, foi a vez de receber o convite para ser preparadora vocal do espetáculo de estreia das Negras Autoras, dirigido por Grace Passô e que levava ao palco Elisa de Sena, Júlia Dias, Manu Ranilla, Nath Rodrigues e Vi Coelho.

Entrevistas: Diretoras, atrizes, produtoras e pesquisadoras debatem sobre assédio

“arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação.” Clarice Lispector

Uma menina de 13 anos havia sido abusada sexualmente e contou a história para Tarana Burke. Na hora, a ativista afro-americana nascida no Bronx, nos Estados Unidos, não soube o que dizer. Mais tarde, ela entendeu que queria ter dito apenas “eu também”. Esse foi o gatilho para que Tarana criasse, em 2006, o movimento Me Too (tradução literal de “eu também”, em inglês), a fim de promover a empatia entre mulheres negras que foram vítimas de abuso sexual. A primeira plataforma digital a disseminar a campanha foi o Myspace, naquela época uma das mais populares redes sociais.

Passados 11 anos, o movimento voltou à tona, em 2017, com a força de uma ressaca marítima. Publicada no “The New York Times” no dia 5 de outubro daquele ano, a reportagem intitulada “Harvey Weinstein pagou os acusadores de assédio sexual por décadas” começou a minar um cruel império de silêncio, ao revelar o que parcela considerável da indústria cinematográfica norte-americana já sabia: o poderoso produtor de filmes de Hollywood era um contumaz abusador sexual.

Crítica: musical “Elza” celebra presente político, musical e humano

“Vagueia, devaneia
Já apanhou à beça
Mas pra quem sabe olhar
A flor também é ferida aberta
E não se vê chorar” Chico Buarque

A voz do milênio segundo a BBC de Londres não saiu pela tangente, com uma daquelas respostas burocráticas, quando questionada pelo apresentador Antônio Abujamra no programa “Provocações” (em 2010) sobre o que seria caso não fosse cantora. “Prostituta”, respondeu Elza Soares. O episódio não é abordado no musical “Elza”, mas a força desse gesto é o que rege a dramaturgia desse inquestionável sucesso de público. Pobreza, miséria, fome e luto foram palavras que atravessaram mais de uma vez o caminho da intérprete de timbre único, capaz de arrancar sons da garganta com uma técnica que, segundo ela, teria sido imitada por Louis Armstrong, numa das boas sacadas cômicas da peça. Aliás, o humor também é usado para explicar a voz de Elza. Pois, para além de vividos, os dramas, quando surgem, são todos enfrentados.

Crítica: peça “Josephine Baker: a Vênus Negra” conta história de dançarina com graça e didatismo

“Como disciplina,/Passa o lírio pelo solo negro;
Seu alvo rizoma não se abala/E sua fé nada teme.
Mais tarde, por entre a erva,/Balança a campânula de berilo;
A vida, entre torrões, esquecida agora,/Em êxtase e precipício.” Emily Dickinson

Quem procurar fotos de Josephine Baker (1906-1975) na internet vai encontrar de tudo: desde caretas a poses sensuais, com muita nudez e roupas extravagantes, algo que não era assim tão comum de ser registrado na década de 1920. Essa dicotomia entre o sublime e o ridículo marcou toda a trajetória da cantora e dançarina norte-americana, que foi uma das pioneiras na libertação feminina, mas que, em sua época, teve de travar ainda uma outra batalha: aquela contra o racismo que, a despeito dos que pregam alguns, permanece incrustado em nossa sociedade.

Crítica: Musical “O Fantasma da Ópera” é clássico ultrapassado

“pode escapar-nos, porventura, e desvanecer-se, porque não confiamos em fantasmas.” Virginia Woolf

A parafernália em torno de “O Fantasma da Ópera” justifica sua grandiosidade. Cumprindo a premissa dos musicais da Broadway, a nova versão brasileira do musical aposta numa estrutura que impressiona pelos atributos físicos. O cenário não deixa de destacar os itens que terão papel narrativo no desenrolar da trama, em especial o gigantesco lustre colocado sobre a cabeça dos espectadores. A reprodução de um coral de anjos e um brinquedo de um macaco instrumentista também chama atenção pela beleza dos objetos. A atuação da orquestra é outro ponto alto.

Mas, como de praxe, afora o que se impõe pela presença física ou sonora, todo o resto fica a dever. Um musical é, por mania, grandiloquente, ainda mais quando se encontra com o universo operístico. A expansão de gestos, vozes e cores é tamanha que chega ao nível da pirotecnia, o que não anula a capacidade do time de intérpretes líricos, em especial a do protagonista, cuja voz se destaca. Thiago Arancam compõe um Fantasma ao gosto dos fãs: ele toma a cena com vigor, pela força de sua garganta e a rudeza de seu gestual.