Análise: Principal marca de David Bowie foi recriá-las

“manchados por esses brilhos úmidos, mudavam de cor com a alacridade de camaleões:” Truman Capote

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Originalidade e proposição são paradigmas fundamentais para a arte, desde o princípio. David Bowie os cumpriu com rigor e teve todo mérito nessa honra. Andrógino, criou personagens para a música, o mais emblemático de todos eles Ziggy Stardust, com o qual abordava a vida interplanetária, e atuou como protagonista e com destaque também no cinema, nos filmes “Fome de Viver”, “Furyo, em nome da Honra”, “Labirinto”, em peça teatral da Broadway, “O Homem Elefante”, e mais uma infinidade. De fato, ficar parado não era para Bowie. Daí a dificuldade em sublinhá-lo, traçar um limite para o artista. Logo, é padrão associá-lo genericamente ao pop, gênero que, por método e na definição, apreende a vários. Ou como bem dito por um dos vértices do nosso Tropicalismo, o bom baiano Gilberto Gil: “Ser pop é querer gostar de tudo”.

Racismo nosso de cada dia…

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.” Joaquim Nabuco

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Embora comum a todos, a morte é sempre extraordinária. Nas circunstâncias que levaram o ator e artista plástico Antônio Pompêo, de 62 anos, é possível designar fortes traços de racismo. De acordo com a companheira e atriz Zezé Motta, com quem fundou e participou de movimentos favoráveis à causa negra, o colega estava “recluso e morreu de tristeza”, por ter tido um “talento mal aproveitado”. Para o artista não existe pior condenação do que o limite. E Pompêo estava confinado a uma sociedade de classes, onde os papéis que lhe cabiam, não raro, na arte e na vida, eram os do submisso.

Como para provar não se tratarem de fatos isolados na sociedade brasileira, o dia da morte de Pompêo também obrigou, horas antes, ao namorado misterioso da apresentadora do canal no Youtube Jout Jout Prazer a se posicionar e mostrar o rosto contra as retaliações de racismo sofridas na internet em razão de fotos do rapaz que começaram a circular. Caio causou furor ao quebrar a expectativa dos que o imaginavam segundo o modelo grego de beleza ocidental, ou o príncipe num cavalo BRANCO dos contos de fada. Ele que se considera “pardo”.

Análise: 80 anos de Woody Allen, cineasta do diálogo

“O coração é um músculo muito elástico.” Woody Allen

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Que as influências de Woody Allen variam e passam por nomes como Groucho Marx até Fellini é ponto pacífico. Mesmo por que a citação literal e solta são uma das marcas de seus filmes, impregnados, sobretudo, pela personagem do diretor, inclusive quando não é ele o protagonista; mas um dos que aceitam o desafio de reviver o seu alter ego na grande tela. Acontece que o decorrer desses 80 anos de vida, quase a totalidade deles dedicados à arte, garantiram ao diretor uma marca maior do que a de suas personagens, suas referências e os próprios filmes. Essa característica é fruto tanto do pensamento elaborado de Woody Allen quanto da maneira singular de filmagem (embora destaque-se em outras áreas como a música e a literatura, o grande público o reconhece no cinema). Ponto que melhor revela suas contradições, as fraquezas e méritos.

Crítica: musical “Oratório – A Saga de Dom Quixote e Sancho Pança”, da Cia. Burlantins, combina tradição e modernidade

“Aquele que foi chamado o mais encantador dos loucos não foi também dos seres humanos o mais sábio?” Miguel de Cervantes

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O encontro da “Cia. Burlantins” com a história de Dom Quixote de La Mancha criada por Miguel de Cervantes em 1605, na Espanha, revela a união de tradições, mas também a renovação delas. É nessa dicotomia que trabalha o musical encenado pela primeira vez em 2012, e que chega, com frescor, ao quarto ano em cartaz e peregrinando. Com roteiro bem costurado por Eid Ribeiro e direção segura de Paula Manata, o que salta aos olhos na montagem são os figurinos criados por Maria Luiza Magalhães e Janaína Castro, além de bonecos e cenário que ficam a cargo de Conrado Almada e Eduardo Félix.

Isto porque os acessórios e a vestimenta servem para transportar o espectador ao universo fantástico e lúdico do protagonista. A percepção de que o “Cavaleiro da Triste Figura” cria novos significados para o mundo através de sua lupa deturpada da realidade tem seu ponto nevrálgico, sobretudo, nesse acordo tácito tão comum ao teatro e à arte, o que, nas palavras do poeta Manoel de Barros pode ser compreendido pela máxima: “Hei de monumentar os insetos”. Além de uma ode à fantasia, procura extrair o valor daquilo que, pelo costume e a norma, não o mereceria. Em que Arthur Bispo do Rosário é outra referência importante.

2 músicas cantadas por Marília Pêra

“Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação.” Mario Quintana

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Embora tenha se destacado, principalmente, como atriz, Marília Pêra foi uma artista de múltiplos talentos, o que comprovam sua formação prática e teórica. Iniciou a trajetória como bailarina e integrou o corpo de peças de teatro em que reverenciava e vivia Carmen Miranda. A influência musical na carreira e na vida de Marília pode ser sentida por duas circunstâncias. Em primeiro lugar, os discos que gravou e dos quais participou como intérprete, e em segundo a busca por uma dicção para suas personagens que, para os mais atentos trazia sempre algo de musical, e mais do que isso, de ritmo, de tempo, de respiração. Atributos fundamentais para a comédia, onde se destacou, mas também em outras vertentes como o drama e o romance. Marília foi uma atriz completa.

Crítica: exposição “Arte da Nova Berlim” rechaça o consumismo barato

“Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.
Seus limites não transporia desmedida
Como estrela: pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.” Rilke

EXPOSICAO COLETIVA DE ARTISTAS PLASTICOS DA ALEMANHA NO CCBB

Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte até 11 de janeiro de 2016, a exposição “Arte da Nova Berlim” apresenta no título palavra alemã que significa “espírito de uma época”. São 29 os artistas do país com obras na mostra que, apesar dessa heterogeneidade é homogênea no discurso que rechaça o consumismo barato de tempos nem tão distantes, mas que já parecem fadados ao fracasso da espécie humana tanto no presente quanto no futuro próximo. As formas e moldes de abarcar essa ideia são múltiplas.

Esse provavelmente é o grande trunfo da exposição, que revela a diversidade e tolerância almejada pelas sociedades mais desenvolvidas em seu aspecto de direitos humanos e sociabilidade. O que é mostrado, em diferentes números, é que sem uma percepção igualitária das relações econômicas, essa perspectiva permanecerá utópica, dando mais combustível e munição para a arte. Num dos trabalhos de maior teor experimental, um vídeo demonstra a performance do artista que, com arco e flecha, caça em supermercados mantimentos como leite em caixa e carne congelada. Uma ironia que não deixa escapar o primitivismo de certas elaborações tidas como evolucionárias.

Análise: 70 anos de Leila Diniz, mulher sem cortes

“Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
O mar é das gaivotas
E de quem sabe navegar.

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Porque não sabem que o mar
É de quem o sabe amar.” Leila Diniz

leila-diniz

Carlos Drummond de Andrade a homenageou em poesia. Martinho da Vila, Erasmo Carlos, Rita Lee, Elton Medeiros, Paulo César Pinheiro, Carlinhos Vergueiro e Taiguara o fizeram em canções. Milton Nascimento se valeu de um delicado poema de Leila para criar a música “Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”, título oriundo de frase da protagonista, que ajuda a entender um pouco de sua personalidade. Não bastasse isso, a histórica entrevista para “O Pasquim”, recheada de palavrões censurados e em que pregava, principalmente, o “amor livre” e a “liberdade sexual da mulher”, gerou uma enérgica reação do regime militar em vigência, e a censura prévia à imprensa ganhou, à boca pequena, o nome popular de “Decreto Leila Diniz”.

Análise: Luiz Carlos Miele combinou arte e entretenimento

“Nunca confie no artista. Confie na história.” D. H. Lawrence

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Para Miele é difícil dizer o que vinha primeiro, arte ou entretenimento. Com um jeito despretensioso, descolado e bonachão, parecia priorizar, sempre, a brincadeira, a diversão da plateia e, principalmente, a sua. Foi daquelas personagens em que não se distingue com clareza onde começa o ator e termina o músico, sempre reinterpretando a própria imagem. Miele esteve presente nos acontecimentos mais relevantes da música popular brasileira, em especial no período de explosão da bossa nova e da classificada MPB quando, como fiel escudeiro do jornalista e letrista Ronaldo Bôscoli, criou programas de televisão e apresentações em teatro para Elis Regina, Wilson Simonal, Pery Ribeiro, Leny Andrade e outros nomes de peso. Mas Miele não se contentou em ficar apenas atrás das cortinas.

Rock in Rio 2015: controvérsias e destaques nos 30 anos do festival

“(meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando na cidade moderna)
(seu obscuro arrastar os pés é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)” Allen Ginsberg

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Passados 30 anos de sua primeira edição, o Rock in Rio 2015 começou as comemorações de sua efeméride com três dias de shows lotados na capital do Rio de Janeiro. Entre atrações nacionais e internacionais destacaram-se o reencontro do antigo casal Pepeu Gomes e Baby do Brasil, rememorando sucessos dos “Novos Baianos”, a apresentação com o vocalista Adam Lambert substituindo Freddie Mercury no “Queen”, o sempre aclamado Elton John, além de bandas de heavy metal como Korn, Metallica, e homenagem para Cássia Eller feita por Zélia Duncan, Mart’nália e outros.

O clima de nostalgia predominou, e diferenças substanciais puderam ser notadas entre um momento e outro. Por exemplo, na primeira edição somente “Barão Vermelho”, que ainda tinha Cazuza à frente de seus vocais, e os “Paralamas do Sucesso”, saíram imunes das vaias e agressões entre as bandas brasileiras que se apresentaram no festival. Herbert Vianna, inclusive, protagonizou uma defesa ostensiva de Eduardo Dussek, que se apresentara antes de sua banda, convidando quem vaiava a trabalhar para subir ao palco no próximo festival. Fato este que não foi privilégio daquele ano.

Crítica: Sátiro e irreverente, Jards Macalé lança primeiro DVD ao vivo

“Quando eu nasci
Um anjo louco
Um anjo torto
Um anjo doido
Veio ler a minha mão” Torquato Neto & Jards Macalé

Macalé - foto de Dulce Helfer

Sátiro, selvagem, gaiato. Com essas palavras alguns músicos e convidados definem o protagonista nos extras do DVD. Há também os que preferem as atribuições propícias ao nome: MACALÍSTICO, MACALÉA, JARDS JACARÉ. Não são raros os artistas cultos que utilizam a irreverência para fugir do pedantismo. De Antônio Abujamra a Paulo César Peréio, passando por Cazuza, com parada providencial em Paulo Leminski, Jards Macalé é mais um deles. Só que Macalé, como seus pares, nunca foi só mais um.

Relegado ao lugar de “maldito”, o músico que tentou suicídio na década de 1980, renasce. Além de ter música no próximo álbum de Ney Matogrosso, Macalé agora lança seu primeiro DVD. Com formação erudita e goles na fonte de João Gilberto e Baden Powell, o músico apresenta trabalho coerente com a sua trajetória, subvertida pela tradição da diversidade. Há de tudo um pouco em Jards Macalé, e seus parceiros comprovam. Dos tropicalistas Torquato Neto e Wally Salomão ao samba de breque malandro de Moreira da Silva.