5 parcerias raras de Supla

“Desconfio, pois, dos contrastes superficiais e do pitoresco aparente; eles sustentam sua palavra por muito pouco tempo. O que chamamos exotismo traduz uma desigualdade de ritmo, significativa no espaço de alguns séculos e velando provisoriamente um destino que bem poderia ter permanecido solidário.” Wally Salomão

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Batizado Eduardo Smith de Vasconcelos Suplicy, filho da sexóloga, apresentadora e política Marta Suplicy e de Eduardo Suplicy, um dos senadores mais atuantes da história do PT, Supla sempre foi uma figura exótica no cenário da música brasileira, provavelmente por se considerar, ele próprio, um “bicho estranho” nesse meio. Identificado com a cultura norte-americana desde cedo, foi um dos primeiros a adentrar o universo punk com o apoio da mídia. Ao longo da vida Supla fez de quase tudo, e não se pode afirmar a presença inconteste da qualidade, mas se estabeleceu como uma autêntica celebridade. Cantou com Cauby Peixoto e Roger, da banda “Ultraje a Rigor”, participou de filme com Angélica e “Os Trapalhões”, além de escrever música com Cazuza. Abaixo apresentamos um pouco dessas raras parcerias.

1 música para Dercy Gonçalves

“É a vida mais que a morte, a que não tem limites.” Gabriel García Márquez

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Dercy Gonçalves talvez seja das poucas artistas da história que conseguiu atravessar as décadas tornando-se cada vez mais popular. A imagem que ficou é a da senhora de mais de 100 anos, desbocada e irreverente, mas esse humor escrachado e cheio de improvisos já era uma das marcas da atriz quando ela surgiu para a chanchada brasileira na década de 1950, e atuou em peças e “teatros de revista” hilários ao lado de nomes como Oscarito, Grande Otelo e Zé Trindade, seu par mais repetido nas telas de cinema. Dercy fez de si a própria personagem, uma mulher que rejeitou todos os estereótipos e limites que se impunham ao gênero e transformou a graça em receita de vida. Com sua voz peculiar e delirante foi tão livre que se aventurou, inclusive, na música.

Rosa dos Ventos

“O vento assovia de frio
nas ruas da minha cidade
enquanto a rosa-dos-ventos
eternamente despetala-se” Mario Quintana

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Centros culturais espalham-se no Brasil. Entre os espalhados, amontoados, aqueles que carregam no sobrenome a alcunha de favelados.

Centros culturais oferecem atividades que a escola deveria oferecer. Mas não há escola por aqui.

Pois se a escola muitas vezes deturpa, aqui deturpados são sem escola e sem oração.

Vemos aqui sujeitos no palco, da vida e do teatro. Sujeitos na pista, de dança e de corrida. Música para os ouvidos, mente e coração.
Tudo se une, se amontoa, espalha.

O palco invade a pista, que invade a cabeça que liga direto ao coração dos que assistem e participam.

É uma iniciativa fundamental para o país. Merece louros e aplausos. Surgida por conta da mais pura necessidade, da falta total, do abandono, da exclusão.

A Música & a Dança de Lennie Dale

“Mais: que ao se saber da terra/não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas/fortes, terrenas, maciças,
mas se orgulha de ser terra/e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,/para vencer quem duvida.” João Cabral de Melo Neto

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Quando chegou ao Brasil, no início da década de 1960, trazido pelo produtor e diretor Carlos Machado para compor a coreografia de “Elas Atacam Pelo Telefone”, o ítalo-americano Lennie Dale, nascido Leonardo La Ponzina na periferia de Nova York; já desfrutara de relativo sucesso na terra natal. Era uma promessa cujo gênio ameaçava, desde cedo, as estruturas vigentes. Integrante do musical da Broadway “Amor, Sublime Amor”, foi barrado pelo diretor Jerome Robbins para a versão cinematográfica. Não deu outra, sem pensar duas vezes carregou as malas cheias de collant e brilho para Londres e passou a ensaiar em uma sala alugada com as portas abertas a fim de exibir seu rebolado.

Daí foi um pulo para participar de programa na televisão italiana com a presença do astro da dança e das telonas Gene Kelly e, logo em seguida, da coreografia do filme “Cleópatra”, protagonizado por ninguém menos que Elizabeth Taylor, de quem se tornou amigo e guardou histórias saborosas para contar entre os mais próximos. Anos depois, também encantou Liza Minelli, e a dirigiu em espetáculos. Tudo isso antes de desembarcar em terras brasilis. O que lhe deu mais do que a cancha necessária para fomentar o estilo de dança da bossa nova, e influenciá-la até no jeito de cantar. Ao registrar dois discos valia-se de estribilhos rítmicos e sonoros para compensar a ausência de voz.

Centenários 2016: Clóvis Bornay representou elite carioca de sua época

“Mãe dos jogos latinos e gregas orgias,
Lesbos, dos beijos lânguidos e dos fogosos,
Ardentes como sóis, frescos quais melancias;
São o ornato das noites e dias gloriosos;” Baudelaire

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Num quadro satírico o comediante Agildo Ribeiro o apresenta como “um dos raros brasileiros alegres desse país”. Clóvis responde com bom humor, sua principal característica. Museólogo por formação e folião por farra, Bornay foi personagem carnavalesco fundamental na transição da música para a fantasia, dos adereços sonoros para os visuais, embora não tenha feito feio como intérprete de deliciosas e maledicentes marchinhas, tais como “Vamos furunfar”, “Dondoca” e “Fla Gay”, e como jurado de Chacrinha e Silvio Santos. Foi partícipe e emblema maior da tal “Cultura da Imagem”, fundada, sobretudo, nas aparências. Tanto que o diretor do “Cinema Novo” Glauber Rocha o utilizou no filme “Terra em Transe” para dar conta desse caráter alegórico.

Análise: Principal marca de David Bowie foi recriá-las

“manchados por esses brilhos úmidos, mudavam de cor com a alacridade de camaleões:” Truman Capote

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Originalidade e proposição são paradigmas fundamentais para a arte, desde o princípio. David Bowie os cumpriu com rigor e teve todo mérito nessa honra. Andrógino, criou personagens para a música, o mais emblemático de todos eles Ziggy Stardust, com o qual abordava a vida interplanetária, e atuou como protagonista e com destaque também no cinema, nos filmes “Fome de Viver”, “Furyo, em nome da Honra”, “Labirinto”, em peça teatral da Broadway, “O Homem Elefante”, e mais uma infinidade. De fato, ficar parado não era para Bowie. Daí a dificuldade em sublinhá-lo, traçar um limite para o artista. Logo, é padrão associá-lo genericamente ao pop, gênero que, por método e na definição, apreende a vários. Ou como bem dito por um dos vértices do nosso Tropicalismo, o bom baiano Gilberto Gil: “Ser pop é querer gostar de tudo”.

Racismo nosso de cada dia…

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.” Joaquim Nabuco

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Embora comum a todos, a morte é sempre extraordinária. Nas circunstâncias que levaram o ator e artista plástico Antônio Pompêo, de 62 anos, é possível designar fortes traços de racismo. De acordo com a companheira e atriz Zezé Motta, com quem fundou e participou de movimentos favoráveis à causa negra, o colega estava “recluso e morreu de tristeza”, por ter tido um “talento mal aproveitado”. Para o artista não existe pior condenação do que o limite. E Pompêo estava confinado a uma sociedade de classes, onde os papéis que lhe cabiam, não raro, na arte e na vida, eram os do submisso.

Como para provar não se tratarem de fatos isolados na sociedade brasileira, o dia da morte de Pompêo também obrigou, horas antes, ao namorado misterioso da apresentadora do canal no Youtube Jout Jout Prazer a se posicionar e mostrar o rosto contra as retaliações de racismo sofridas na internet em razão de fotos do rapaz que começaram a circular. Caio causou furor ao quebrar a expectativa dos que o imaginavam segundo o modelo grego de beleza ocidental, ou o príncipe num cavalo BRANCO dos contos de fada. Ele que se considera “pardo”.

Análise: 80 anos de Woody Allen, cineasta do diálogo

“O coração é um músculo muito elástico.” Woody Allen

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Que as influências de Woody Allen variam e passam por nomes como Groucho Marx até Fellini é ponto pacífico. Mesmo por que a citação literal e solta são uma das marcas de seus filmes, impregnados, sobretudo, pela personagem do diretor, inclusive quando não é ele o protagonista; mas um dos que aceitam o desafio de reviver o seu alter ego na grande tela. Acontece que o decorrer desses 80 anos de vida, quase a totalidade deles dedicados à arte, garantiram ao diretor uma marca maior do que a de suas personagens, suas referências e os próprios filmes. Essa característica é fruto tanto do pensamento elaborado de Woody Allen quanto da maneira singular de filmagem (embora destaque-se em outras áreas como a música e a literatura, o grande público o reconhece no cinema). Ponto que melhor revela suas contradições, as fraquezas e méritos.

Crítica: musical “Oratório – A Saga de Dom Quixote e Sancho Pança”, da Cia. Burlantins, combina tradição e modernidade

“Aquele que foi chamado o mais encantador dos loucos não foi também dos seres humanos o mais sábio?” Miguel de Cervantes

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O encontro da “Cia. Burlantins” com a história de Dom Quixote de La Mancha criada por Miguel de Cervantes em 1605, na Espanha, revela a união de tradições, mas também a renovação delas. É nessa dicotomia que trabalha o musical encenado pela primeira vez em 2012, e que chega, com frescor, ao quarto ano em cartaz e peregrinando. Com roteiro bem costurado por Eid Ribeiro e direção segura de Paula Manata, o que salta aos olhos na montagem são os figurinos criados por Maria Luiza Magalhães e Janaína Castro, além de bonecos e cenário que ficam a cargo de Conrado Almada e Eduardo Félix.

Isto porque os acessórios e a vestimenta servem para transportar o espectador ao universo fantástico e lúdico do protagonista. A percepção de que o “Cavaleiro da Triste Figura” cria novos significados para o mundo através de sua lupa deturpada da realidade tem seu ponto nevrálgico, sobretudo, nesse acordo tácito tão comum ao teatro e à arte, o que, nas palavras do poeta Manoel de Barros pode ser compreendido pela máxima: “Hei de monumentar os insetos”. Além de uma ode à fantasia, procura extrair o valor daquilo que, pelo costume e a norma, não o mereceria. Em que Arthur Bispo do Rosário é outra referência importante.

2 músicas cantadas por Marília Pêra

“Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação.” Mario Quintana

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Embora tenha se destacado, principalmente, como atriz, Marília Pêra foi uma artista de múltiplos talentos, o que comprovam sua formação prática e teórica. Iniciou a trajetória como bailarina e integrou o corpo de peças de teatro em que reverenciava e vivia Carmen Miranda. A influência musical na carreira e na vida de Marília pode ser sentida por duas circunstâncias. Em primeiro lugar, os discos que gravou e dos quais participou como intérprete, e em segundo a busca por uma dicção para suas personagens que, para os mais atentos trazia sempre algo de musical, e mais do que isso, de ritmo, de tempo, de respiração. Atributos fundamentais para a comédia, onde se destacou, mas também em outras vertentes como o drama e o romance. Marília foi uma atriz completa.