Show: Adriana Partimpim

Moça dos agudos de cristal Adriana Partimpim encanta adultos e crianças

Show infantil

Era abril de 1989, provavelmente em um outono menos frio que o de agora, e o jornalista, cronista e escritor (se todas não forem a mesma coisa) Caio Fernando Abreu escrevia sobre uma moça de 21 aninhos, verdes olhos, platinados cabelos e cotê demi-punk que, sem lembrar Gal, Marina ou Elis, encantava a todos (inclusive uma Marisa Monte presente na platéia) com seus agudos de cristal.

Os mesmos 21 aninhos que ela tinha na época se passaram e, por incrível que pareça, a moça rejuvenesceu. Pintou de pretos os cabelos platinados que já não têm mais nada de cotê demi-punk, colocou uma roupa de bailarina e manteve os mesmos verdes olhos. Além disso, a outra coisa que não mudou foram os olhos que a admiravam empolgados em mais uma de suas histórias, como a contar reais contos de fadas, tanto infantis quanto adultos. A moça também mantém os mesmos agudos de cristal.

Show: Aline Calixto

Cantora apresenta mistura de músicas dos dois álbuns lançados

Show UFMG

No centro do furacão: uma flor. Morena, cacheados cabelos negros brada branda: sou negona, branca, samba. Aline Calixto pisa de sandália o picadeiro armado na Universidade Federal de Minas Gerais para contar a própria história. Contar? Não. Professora de mão cheia adverte, diverte: Canta. Tem uma voz que impressiona. Martinho da Vila põe na panela a gemada carioca.

Convicta cadência crava no mar de estrelas homenagens a Oxossi e Iemanjá. Lavradas na Bahia de Roque Ferreira e nos pergaminhos de Rodrigo Santiago e Douglas Couto, entusiasmam. Desinibida desenvoltura hipnotiza e arremata o público: “E lá fui eu, pro caldeirão, e lá fui eu…todo enfeitiçado pro seu coração!”. Pérola mineral do compositor Affonsinho.

Show: Warley Henrique

Cavaquinista mineiro presta homenagem à altura de Waldir Azevedo

Cavaquinho mineiro

Aquecidos os instrumentos, o show começa morno para o que está por vir. Grande atração da noite, o cavaquinista que irá solar Waldir Azevedo é o último a entrar em cena, onde já lhe aguardam os acompanhantes, Gustavo Monteiro no violão, Ricardo Acácio e Robson Batata comandando as percussões.

Ao atacar a primeira leva de músicas no instrumento principal daquela chuvosa confraternização, Warley Henrique não esboça gracejos ou palavras. Somente se entrega ao cavaquinho que a ele pede esmola e recebe de troco notas e mais notas premiadas.

Show: Arnaldo Antunes & Edgar Scandurra

Brasil aproxima-se da África em projeto inspirado da dupla

Show

Descontraídos e afiados, Arnaldo Antunes e Edgar Scandurra conduzem o mastro do navio que leva o Brasil até Mali. Com a baixa do escriba africano Toumani Diabaté a curva acentuada da cintura que se avista ao longe suspende o movimento por breves momentos, a fé a desembocar ferozmente num açoite intencional.

Percalços sugeridos na travessia pela falta que um homem faz são logo repudiados com doses cavalares de adrenalina imanada por ecos, senhas, guitarra e tambor. O chão do convés é terremoto. As velas aglutinam-se em vulcões. Uma agitada tempestade resoluta abrange o cosmos do Sesc Palladium.

Show: Wilson Souza

Músico apresentou repertório do novo disco no Conservatório UFMG

Contas a pagar

O desconhecido quase sempre gera desconfiança. Suspeita e medo que logo se desfazem aos primeiros acordes tocados no violão dedilhado por Wilson Souza, catarinense que há três anos trocou os mares do litoral pelas montanhas de Minas. E diz adorar Belo Horizonte, sendo que é possível acreditar pela espontaneidade e ânimo com que conduz o espetáculo.

Primeiro apresenta ‘Mulher’, para em seguida colocar na roda a música que dá nome ao show, a hipnotizante ‘Contas a pagar’, nome espirituoso que justifica a levada apreciada por seu condutor. Interrompendo a parte meramente instrumental, chama ao palco o primeiro convidado.

Show: Quem Não Chora Não Mama

Projeto Pizindin homenageia Jacob do Bandolim com performance luxuosa

Grupo de Choro

A noite em homenagem a Jacob não poderia ter outro convidado como destaque especial: o bandolim. Carregado pelas mãos sensíveis do jovem solista Marcos Frederico, os dois, instrumento e instrumentista, se encarregaram de enfeitar a festa com anedotas, timbres e notas.

Acalentado pelo carisma e simplicidade do seu idealizador, o veterano mestre do gênero Mozart Secundino, responsável pelo manejo do violão, o grupo de choro ‘Quem Não Chora Não Mama’ subiu ao palco do Conservatório da UFMG na noite da última segunda-feira em sua completude que reúne características mistas dos integrantes.

Show: Quarteirão do Soul

Espaço reservado para a dança e estilo norte-americanos atrai vários olhares

Dança em BH

Por mais que o ditado permaneça e as aparências continuem enganando, ninguém parece levar isso muito a sério na capital mineira, mais precisamente na Praça Sete ou atrás do Mercado Central, no que ficou conhecido pelo nome de batismo popular, o já famoso Quarteirão do Soul, um ambiente reservado para a dança e a música do estilo musical americano.

A fundamental diferença é que essa reserva na verdade é praticamente um acordo intrínseco entre os donos da rua, ou seja, todos aqueles que participam da vida daquele lugar, ou quase todos, predomina-se a presença de pessoas da cor negra, seja por tradição, seja por racismo apenas.

Show: Zélia Duncan

Cantora exibe a delicadeza em cena

Show

Não espere arroubos sonoros. Zélia Duncan canta meiga, delicada, suave, suas composições novas. Isso é o que prepara o disco. Diante da platéia a contenção das interpretações se revela desafiadora e fugaz, com leve sorriso de coragem sorrateira.

A presença de Zélia no palco é resguardada de beleza, pelo vestido de Ronaldo Fraga (o coração do artista segundo a cantora), o cenário de Analu Prestes, pinturas abstratas refletidas pelas cores de uma iluminação climática, e a simpatia da protagonista, acompanhada de perto por Ézio Filho (direção musical e contrabaixo), Webster Santos (violão, bandolim e guitarra), Jadna Zimmerman (bateria, percussão e flauta) e Leo Brandão (teclados e acordeom).

Show: Yamandu Costa

Violonista se aventura em mar trôpego e desbrava regiões instrumentais 

Show Palácio das Artes

Yamandu Costa: as cordas lhe desobedecem. Incautas, prontas a insolentes provocações, por incitação tutorial. Seus doze dedos se transformam em treze, quatorze, infinitamente. Amarram-se aos trilhos do violão, descarrilados em seqüência.

À deriva, no suntuoso Grande Teatro do Palácio das Artes, o gaúcho iniciou sua expedição com bela homenagem a Raphael Rabello, um mito da arte de trovejar violões, içando as caravelas de “Samba pro Rafa”, em magistral partida.

Show: Arnaldo Antunes

Artista desfila dança apocalíptica ao espatifar palavras e sons

Show Inhotim

Arnaldo Antunes sempre se divertiu em cena. O antídoto risonho proposto por Nietzsche para desarvorar a vida é levado a ferro e fogo por sua persona bem grata. No palco do Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico (popular Inhotim), no último dia 11 de setembro, o artista desfilou sua dança apocalíptica, sua poesia concreta e seu terno cheirando a rasgado, eucalipto saído dos quadrinhos de Batman, provável “Duas Caras”, pois bom intuitivo que é, prefere os vilões.

O desafio a que se lança com microfone às costas, óculos preto & branco, e gravata ajeitada realça a gravidade de uma música pop imbuída de pretensão e ousadia. Tanto quanto o hermetismo melódico e estrutural de suas composições mais distantes, a proximidade também discorre arquitetada em balançantes hastes de ouro.