Show: Fafá de Belém (canta Antônio Maria)

“Busque amor novas partes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças,
que não pode tirar-me as esperanças;
que mal me tirarão o que eu não tenho.” Camões

Fafá de Belém canta Antônio Maria

Falta a Fafá o recato, a contenção, e o esmero para que a apoteose perene da voz inflamada da cantora acompanhe o ciclone de emoções que a destilada música pretende passar. Em doses sempre homéricas (nunca homeopáticas), como é do pavio aceso da nativa mulher de Belém, à vontade em cena como na sala de casa, o que em alguns casos soaria salutar, neste remendo acaba despropositado.

O homenageado da noite, outro nortista, pois que nordeste e norte se embaraçam na salada recheada de frutas de Fafá, era Antônio Maria, sutil na sintonia com o repertório acalorado e confessional da intérprete. O mérito maior da apresentação do projeto “Compositores.BR” no palco do Sesc Palladium esteve na reverência atrevida.

Show: Cauby Peixoto (A Voz do Violão)

“o universo é pouca coisa comparado à vastidão de uma fronte pintada por Rafael.” Salvador Dalí

Cauby Conceição

Estou procurando uma inspiração com a foice. Estou no deserto, onde caminho rente ao chão, procurando uma inspiração com a foice. Mas com a foice não se consegue inspiração, nem se captura inseto, relva, ou a flor da mais doce. O instrumento incorreto, vezes outras, pode ser a arma da glória. A bajulação precede mesmo os minutos afoitos de sua entrada triunfal.

Vem o cônego, apoiando nos próprios ombros o peso daquele homem a quem todos conclamam, o peso daquela voz insustentável. A cadeira lhe foi construída especialmente, está certo que a memória falha, mas a voz, suprema, se mantém, rente ao chão do deserto estou procurando uma inspiração com a foice. Ela chega. Cauby ergue o cetro: começa a cantar.

Show: João Bosco & Orquestra Sinfônica

“O pássaro desenha
No seu vôo estrangeiro
(Porque nada sabemos
De pássaros e vôos
E do impulso alheio)
Um círculo de luz.” Hilda Hilst

Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

O tímido João Bosco pisa o palco com passos do menino de Ponte Nova. O tênis branco certamente não combina com o paletó desengomado pousado pra fora qual a blusa escapa da calça, peixe saindo do aquário. Cabisbaixo começa a desfiar sua ladainha aprendida com os antepassados: Dorival Caymmi, Oxum, Silas.

Explico: digo ladainha porque é fácil notar a influência africana com caldo de galinha à mineira nos murmúrios do moço. O molho pardo é despejado por sobre a carne branca com elegância. Como se colocam os talheres dispostos na mesa circundando a lousa branca, a senzala é a Orquestra Sinfônica regida por Roberto Tibiriçá.

Show: Mauro Zockratto (Isso é que é viver)

“Descobrir Continentes é tão fácil como esbarrar com um elefante: Poeta é o que encontra uma moedinha perdida…” Mario Quintana

Show Isso é que é viver

Perdoem a indiscrição. Sei desse ser um show de grupo. Com três estrelas circundando a Ursa Maior. No entanto fui até lá para ver o Mauro, apenas. Estivesse ele só naquele palco, as cadeiras do conservatório vazias, e o som pifando, lá estaria.

Dispenso explicações geométricas e matemáticas e métricas demais pra pouca rima. Mauro Zockratto é cantor de repente. Assim se encontrou na minha vida como quem tromba em elefantes sem ver, e descobre continentes (reproduzo Mario Quintana).

Show: Elba Ramalho (canta Luiz Gonzaga)

“A Rosa modesta eriçou um espinho,
A humilde Ovelha um chifre ameaçador;
E o Lírio branco num deleite de Carinho,
Nem espinho ou ameaça, mas a luz e o esplendor.” William Blake

Elba canta Gonzaga

Elba Ramalho adentra a noite com claros olhos da manhã. Toda a beleza que vi não cabe num parágrafo. Tigre alaranjado, de tiras pretas no dorso, desperta rasgando palmeiras verde-escuro. Ruge e urde, pés vermelhos, terra batida, roda a saia amarela, lilás, reclina o colo, solta a voz, brinda e arranha e corta e gira e morde com seu espetáculo.

Elba Ramalho é assim tão sonsa e sina a nossa saboneteira. Não está ali para brincadeira. Está só para brincadeira e improviso e espontânea esbarra nos erros toda vez sem abrutamento ou dedicação ao palco. É pura dedicação ao palco. Por isso desfila como na vida, ensaia mas deixa o momento tomar conta, com sua mania de ser irreverente e estragar os planos dos metódicos.

Show: Falamansa (As Sanfonas do Rei)

“É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante…” Florbela Espanca

Forró na Torre

Porque o show na companhia dos amigos é sempre confortante. Estou bonzinho hoje, sem demagogia. Fui assistir ao “Falamansa”, o Forró que já não é lá meus pés de patas nem quadris de gazelas. Mas a minha cara, pouco suada em conferência aos demais, é a de Luiz Gonzaga.

Foi por isso e para vê-la, à bailarina, ah, vocês não sabem, precisam vê-la dançar e rodopiar por serpentinas e confetes absolutamente invisíveis e claros enquanto dança, e provoca uma aceleração ínfima, de tão bonita é o sorriso da bailarina. Sim, ela não sorri com os dardos disparados em frente ao arco. Ela é a flecha duma índia abismal e antecedente, muito antes da dança ser séria.

Show: Ney Matogrosso (Beijo Bandido)

“não se destinam a sustentar outra coisa senão a famosa libélula de abdômen mole e pesado como o bloco de chumbo maciço onde ela foi esculpida de forma sutil e etérea, bloco de chumbo concebido (por seu ridículo excesso de peso que introduz, no entanto, a ideia necessária de gravidade)” Salvador Dalí

A libido altiva de Ney Matogrosso, o gato arisco e maroto a ronronar de alforria e encanto. É a libertação do gozo, do jovem velho moço homem mulher caubói macaco, do porte de seus mais de 70 anos, do alto das árvores em troncos rijos e bem arraigados, na moleza do quebranto.

Requebra e horroriza, ojeriza a caretas e línguas voláteis demais, sensíveis de sais, mergulhadas em água de mar, rio doce, bentas. Ney Matogrosso professa amargura e medo, aventura e vento, enquanto mexe a colher de pau do voluptuoso caldo de bruxas e maçãs pecaminosas.

Show: Lobão (Elétrico)

“Ás vezes é melhor sorrir, imaginar
Ás vezes é melhor não insistir, deixar rolar
E tratar as sombras com ternura, o medo com ternura e esperar…” Lobão

show Elétrico

Cercado por uma matilha, o velho lobo bem que tentou, em vão tentou proteger sua prole, mas não foi páreo para os ataques que sofreu. Mesmo munido de unhas & dentes & guitarras seriam estes justos a falhar na hora exata.

E impedir o grito seco preso na garganta é por demais violento até para o predador mais acostumado a derrubar animais de porte superior ao teu. Impossibilitado inclusive de recorrer a estratégias outras, os ferimentos lhe jogaram ao abate.

“Canos silenciosos, nervosa calmaria
Quando todo mundo pensava que ia se divertir
É bem aí, é bem aí que o pânico todo se inicia”

Show: Jorge Mautner (3ª Mostra de Arte Insensata)

“Haverá lógica em Baco? Em Lewis Carroll? Em Fernando Pessoa?” Rubem Alves

Maracatu Atômico

4 do Kaos, mitologia numérica, os últimos ingressos são nossos. Cera da mariposa fundamental, telha da quebra inicial, pedra da leva filosofal. Entro no “Cento e Quatro”, localizado no redemoinho do furacão de Belo Horizonte, e sou recepcionado por Edy Star, um pouco tanto, alheio, mas ainda assim me fornece a chave da poesia.

Diz-me de Jorge Mautner a trocar a blusa no camarim antes de aparecer no palco com discurso violinístico e o violino discursivo de cara e terística. Pouco permaneço na figura de carimbo vermelho e santo dragão. Vamos juntos conhecer obras artesanais dos loucos, ali estão todos.

“Eu não peço desculpa
 E nem peço perdão
 Não, não é minha culpa
 Essa minha obsessão”

Show: Waldir Silva (Choro no palco)

“e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.” Lya Luft

Choro no palco

Entrego-lhe Waldir Silva semanas depois. Temo aprendido a elucubrar a inutileza (inútil gentileza) do que faço. Chego sempre atrasado ao comprometimento, e por isso o que lhe disponho não deve ter a força da utilização. É por demais delicado para o tal alcance de mãos em busca da fruta no último galho, esta tecnologia ainda não involuiu à arte, as palavras, a música.

Creio brincar de gramática errada, mas o fato-leda-fantasia é a varinha de condão do meu ancião passando o macio ferro por sobre os trilhos de um telegrama musical (pombo correio trazido por Deus? Ou Zeus? Ou Hades? Reféns felizes de um gordo Baco, ou a mitologia é mesmo lama e lema.)

“Venho lhe pedir
Que alimente a mágoa a sós
Pois o meu coração achou
A ternura e a paz, sim”