Crítica: Show de Gal Costa com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

“Minha voz comovia o coração mais duro,
Fizesse eu o galã ou um lacaio obscuro.” T. S. Eliot

Gal-Costa

Gal não apareceu como deveria. A espera alongou-se por algum tempo. Homens trajando violinos, fagotes, trompas, outros inquietos nos assentos marcados, mãos enfiadas nos bolsos das calças jeans, e mulheres com bolsas a tiracolo, violas e flautas, passavam o tempo com o barulho clássico e habitual, de chicletes, tique-taques do relógio a consagrado instrumento. Todos na esperança de Gal.

Que quando apareceu, não como deveria, trouxe nos cabelos o mormaço, um cheiro, da Bahia, de Djavan, um azul de sal. Os beiços ainda frêmitos escandiam as arrancadas folhas de um calendário Maia, destemperanças de Chico Buarque num folhetim barato: a prostituta, o fogo, a fuga, e os aplausos. A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais sob a batuta de Marcelo Ramos sentiu meu bem, meu mal, de Caetano Veloso, em uníssono, cantado em coro.

Ney Matogrosso No Show Atento Aos Sinais

“Uma cega labareda me guia
para onde a poesia em pane me chamusca

Vou onde poesia e fogo se amalgamam.
Sou volátil, diáfano, evasivo.

Escapo que nem dorso de golfinho
que deixa a mão humana abanando” Wally Salomão

Ney-Matogrosso-Atento-Sinais

A rua deveria dar passagem em direção a um suntuoso prédio localizado na parte mais pobre do vilarejo. A razão de ter-se erguido ali era de conhecimento público, inclusive imprensa e polícia, mas forças políticas impediam a divulgação do caso e consequentes penitências aos envolvidos. Agora, no entanto, um incêndio alastrava-se, tendo se iniciado na parte mais elevada da construção, e já se estendia até as bases. Centenas de microfones, câmeras, fios e aparelhos eletrônicos variados, de celulares a laptop´s, aglomeravam-se até os limites da barricada ali improvisada como impedimento à aproximação do fogo. Do outro lado bombeiros esforçavam-se para pôr fim à farra das chamas e decretar o império da fumaça sobre a outrora prova de soberania da inteligência e eficácia humana pautada na engenheira e conhecimentos arquitetônicos, estes últimos despidos de qualquer senso do bom gosto.

Roendo as unhas, o prefeito enfim aceitou o convite dos ávidos entrevistadores, submetendo-se a prestar esclarecimentos à ensandecida população, a se expressar de maneira parecida a animais confrontados em seu território. Tal comportamento, aliás, muitíssimo raro e particular naquela gente, acendeu ainda mais a dúvida sobre as causas do incêndio. Uma gente a princípio pacata, da qual jamais se teve notícia sobre o reclame de qualquer situação, sobretudo quando contemplada com quilo de arroz e saco de feijão, promessa cumprida e feita prioritariamente em épocas de eleição. Todo o mistério findaria com a palavra do excelentíssimo e magnânimo, como se lhe referiam os assessores, mandatário máximo da cidade; o prefeito disse: “É uma vida louca vida esta, pois se num dia tudo transcorre às mil maravilhas, noutro assombra-nos a catástrofe!”.

Bibi Ferreira No Show Histórias & Canções

“e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.” Rilke

Bibi-Ferreira

Agasalhado, comprimia os braços em torno do peito para afastar o bafo do inverno. Evidentemente havia-se marcado entre nós dois uma distância intrínseca. As cortinas já estavam abertas quando cheguei. No entanto, fui, contra minha vontade, obrigado a esperá-la ainda mais um tempo, enquanto a orquestra atacava ao fundo um número de Chico Buarque. Pobre de alguém se pensa que controlei os nervos. Durante toda a apresentação instrumental mantive os olhos fixos no corredor estreito, à direita, na expectativa da entrada triunfante a qualquer momento, e que, portanto, eu lhe lançasse o primeiro aceno, ao que imediatamente ela me retribuiria com um gracejo, mas nada aconteceu, e a frustração colou-se em torno de minhas expectativas novamente.

Outro número instrumental da orquestra. Infelizmente não posso oferecer relatório verossímil acerca das qualidades da mesma. Prefiro, nesse momento, ater-me à sinceridade, e concluir que meus ouvidos, embora à mercê do som em cena, praticava igualmente a saga dos olhos, que sobre o corredor estreito, à direita, concentrara toda a atenção. Um mínimo movimento, presunção do mesmo, delírio, ou pressentimento, alvoroçava-me o espírito como pombos desnorteados quando milho e alpiste lhes são jogados na praça. Nada disso, com certeza, era suficiente para apressar-lhe a entrada em cena. Certamente estava a retocar a maquiagem, concentrar-se nos temas, ajeitar o vestido para caber bem no corpo envelhecido e vivíssimo. Para malograr-me um pouquinho mais, apertei os cadarços dos sapatos.

Show: Edson Cordeiro (canta Herivelto Martins)

“Hoje amam, amanhã’ squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias!…” Florbela Espanca

Edson Cordeiro

O breu, proposital, impedia-nos de vê-lo entrar em cena. Somente o piano de Miguel Briamonte foi possível distinguir na escuridão. Tal nome seria repetido tantas vezes, naquela noite, que jamais nos esqueceremos.

Quando a agudíssima voz ressoou no palco do teatro lotado, houve um minuto de espanto. Infinitamente inferior ao presenciado no momento em que se acenderam as luzes. Pois dotado daquela voz, inebriante, surgia uma miniatura de gente.

Show: Toninho Horta & Quarteto

“Um vento varre o mundo, varre a vida.
Este vento que passa, irretratável,” Carlos Drummond de Andrade

Toninho Horta

Uma donzela magricela vem tomando a cena sem medo, de assalto, ritmada. Estica a saia, retira o chapéu florido, apresenta-se como distinta dama: guitarra. O condutor, do violão: Toninho Horta.

No encalço, enamorando-se dela, vem um baixo e robusto senhor, de chapéu austero, marrom, retirado da cabeça calva, elegantemente. Apressa-se a pentear os bigodes cinzas, e, então, distingui-se. Ezequiel Lima empunha o contrabaixo.

Show: Geraldo Azevedo (Salve São Francisco)

“A tragédia é o estado natural do homem.” Lúcio Cardoso

Show de Geraldo Azevedo

Geraldo Azevedo tenta debater-se contra as águas lamacentas, poluídas, sujas, dum outrora paradisíaco e transbordante em peixes, rio São Francisco. A luta não é vã, lega-nos clássicos, daqui um tempo estimados com a devida consequência, afora os que já o são, peças de Luiz Gonzaga, principalmente.

Por hora, o povo impacienta-se, irritado, irascível, pede os mesmos momentos, velhos costumes, manias. Não é culpa de Geraldo Azevedo que se acostume o público a tão belas canções que estes só queiram ouvi-las. A conta cabe à plateia, pouco atrevida, preguiçosa, recusa-se a apreciar o inédito.

Show: Banda A CASA

“A plateia só é respeitosa quando não está a entender nada” Nelson Rodrigues

Pau e Pedra rock

Precisamos redimir a música de fossa! Esse é o intuito (no sentido de intuição) da nossa banda. A exemplo do que escreveu Paulo Scarpa em “A nova geração perdida e o cinema”, resta-nos voltar ao hedonismo ( clichê barato do Axé sem congado e do Reggae sem gingado), à depressão ( aquela auto-piedade brega de sertanejos e emos) ou uma melancólica aceitação cínica.

A opção que fazemos é pela terceira. O cinismo ainda é um tipo de humor um tanto mais inteligente que o otimismo e o pessimismo juntos. E daí vem a palavra redenção. Queremos dor de cotovelo pra valer! Chega daqueles amores que não deram certo e são cantados com toda pompa e cabeça erguida do mundo (que só quer te ver sorrir) por aqueles que não percebem o tanto que o orgulho é brega!

Show: Zélia Duncan (ToTaTiando)

“e eleva o peso do espaço
com todas as palavras não ditas” Luiz Tatit & Alice Ruiz

Totatiando

Na obra do artista plástico (escultor e pintor) Giorgio de Chirico, as coisas, muito além de pessoas, objetos ou asas (à imaginação), por isso o genérico de tudo, estão acopladas, transmutam-se, refratam e declamam a união como num campo magnético conduzido por imãs.

A arte de Luiz Tatit é igual, posto que difusa, e diferente, à reclusa recusa o elemento comum, congruente. O teórico que se intrometeu na ação fez questão de ungi-la a partir das conotações de verbo: a palavra desdobrada e aviltante, surpreendente – assustando – é o ás do baralho.

Show: Zé Ramalho & Banda Z

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!” Augusto dos Anjos

Zé Ramalho Chão de Giz

Detrás das neblinas, perde-se de vista o horizonte, um carneiro é sacrificado em nome do Pai, um velho conduz o rebanho com o cajado, feito de madeira, arame, esculpido por mãos comidas por rugas e outros animais que vêm a ter sabedoria pelas profecias dele: o homem.

O homem é desde os primórdios o mais inteligente de todos os animais, e de longe o menos sabido. A intuição conservada nos seres puros perdeu-se com a progressão dos anos, meses, milênios, pouco restou do que havia de lúdico, frutífero, ingênuo.

Show: Renato Teixeira & Banda

“a coisa não está nem na partida e nem na chegada. Está é na travessia.” Guimarães Rosa

Romaria

O irredutível carisma de Renato Teixeira segue tocando a boiada. Como legítimo mártir da música caipira, o homem da barba branca, dos cabelos brancos, põe a viola dentro da sacola e vai viajar. Convida-nos a ir com ele: seus filhos (nascidos e criados) de uma sincera amizade.

Por entre estradas de ferro e terra, trilhos de trens e cores, referências a Caetano Veloso e Sérgio Reis, soa o berrante do segundo e a São Paulo do primeiro: duas musas inspiradoras do franzino homem do interior que “anda devagar porque já teve pressa, e leva esse sorriso porque já sofreu demais”, entoa junto com o coro da plateia o sucesso bisado por Almir Sater.