Entrevista: Jhê Delacroix, entre a irreverência e a preocupação histórica

“Tomo para mim uma tarefa inteira:
A de guardar um tempo, o todo que recebe
E livrá-lo depois de um jugo permanente.
Outros te guardarão. Não eu que só pretendo
Libertar na alegria o coração e a mente.” Hilda Hilst

Obra da artista plástica Jhê Delacroix

Ela imitava Sandy e Simony e ouvia Daniela Mercury, não necessariamente ao mesmo tempo. Entre as faxinas da mãe “escutava uma gama imensa de música de um determinado estilo”, sucesso na época, como a dupla sertaneja Zezé di Camargo & Luciano. “Não nasci Clarice Lispector por pouco”, confessa ela que, ao ser questionada sobre o nome artístico, responde como a autora de “A Maçã no Escuro”. “É segredo, só as crianças sabem”, ri-se. Assim Jhê Delacroix, natural de Niterói, no interior do Rio de Janeiro, e residente em Belo Horizonte há quatro anos mantém o mistério e não entrega pistas de parentesco com o pintor francês famoso por telas políticas, de que é o maior exemplo “A Liberdade Guiando o Povo”. Mas deixa claro que com seus 28 anos e alma lavada sem ter onde secar – para parafrasear Cazuza – navega entre a irreverência e a preocupação histórica. De volta à meninice Jhê recorda seus primeiros tempos. “Sempre amei escutar música e como também tinha essa aptidão imitava os artistas pros meninos mais velhos pra poder enturmar”.

Todas as letras do álbum “Waldir Silva em Letra & Música”

“Corria na voz do instrumento
Um gesto singular
Deus conduz e soergue da lona
O veludo das mãos”

Foto com os envolvidos no coreto da Praça da Liberdade

O projeto “Waldir Silva em Letra & Música” nasceu do desejo de ampliar o alcance da obra do instrumentista Waldir Silva, e traduzir, em palavras e versos – ou seja, letras – o que as notas instrumentais do mestre sempre disseram, além de manter viva a memória daquele que nos deixou em setembro de 2013. Para tanto, foi viabilizada a produção de CD em homenagem intitulado “Waldir Silva em Letra & Música” com a participação de nomes ligados à história afetiva e musical do cavaquinhista, além de um espetáculo de lançamento.

Memória: Josephine Baker simbolizou liberdade feminina nos anos 1920

“Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento
Ao se deter em mil auroras,
Desposando cada uma, rejeitando todas
E voando para seu esguio templo, depois.” Emily Dickinson

Josephine Baker foi símbolo de exotismo e popularidade

Há um século e uma década nascia para o mundo Freda McDonald, que para sempre permaneceria desconhecida dele. Porém sua personagem é ainda lembrada. Josephine Baker, junção do próprio sobrenome com o do marido é referência imediata para o universo da dança, dos costumes, da luta pelos direitos da mulher, dos negros e de todas as minorias perseguidas. Sua contribuição artística, ao contrário do percebido pela extensa maioria em sua época, portanto, transcendeu aos critérios momentâneos orientados pela estética a fim de alcançar aquele valor concedido às obras-primas: marcou profundamente a maneira de pensar da humanidade; ou, ao menos, sugeriu novas aberturas para ela. Natural do meio-oeste dos Estados Unidos, quando chegou à maioridade migrou para Paris, onde, dizia-se, respirava-se vanguarda e liberdade; naqueles “Loucos Anos 20” por lá passavam pintores como Picasso e escritores do porte de Hemingway e Gertrude Stein, considerada mentora intelectual de muitos deles. Mas não havia nada como o exotismo de Josephine Baker. Trazia, ao seu lado, Chiquita, uma guepardo de estimação.

“Waldir Silva em Letra & Música” é saudação à obra de mestre do choro

“Nada melhor/É remédio da alma /Benze meu coração
Nunca vi outro igual no mundo/Em medicina alguma
Além do mais/É barato, de graça/Assim se encontrará, pode ver
Basta procurar com atenção/O som dentro de si, a soar” Raphael Vidigal

Artistas mineiros se uniram para homenagear o músico Waldir Silva

Fruto de um esforço coletivo, o álbum “Waldir Silva em Letra & Música” saúda em comunhão a obra do cavaquinhista mineiro. Proponente do projeto junto à Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, que contou com o patrocínio da multinacional ThyssenKrupp, Raphael Vidigal, jornalista e poeta; foi o autor das letras (em parcerias com André Figueiredo) para as já consagradas melodias do mestre do chorinho. A partir destas letras, o violonista Lucas Telles compôs novos arranjos para músicas conhecidas como “Duas Lágrimas”, “Veludo” e “Minas ao Luar”, esta última uma expressão do desejo de Waldir em compor o prefixo musical do evento. Integrante da banda “Toca de Tatu”, ao lado de Luísa Mitre no piano e acordeom, Abel Borges nas percussões e o xará Lucas Ladeia no cavaquinho, além da presença do músico convidado Bruno Vellozo no baixo acústico, a trupe participa de todas as faixas do CD. A eles, unem-se as participações especiais.

Varanda Aberta – Epifania sonora

“… cênicas nuvens com a lua cravada
num fundo azul pedras
cortadas por uivos
de um vento bravo.” Deh Mussulini

Cantora Deh Mussulini lança o disco Varanda Aberta

Deh Mussulini, “fazer música que não se desvincule do feminino/feminismo e da espiritualidade. Meu desejo: pudera minha música curar as dores da alma.”

Ouvir Varanda Aberta é sermos tomados de assalto como em vigília do sono: melodias que silenciam e ecoam num espaço etéreo de sensações, refazenda de memórias.

A mata sonora quer dançar/ utê utê  utê utê andaiaia/ furar o chão igual tatu, todo em terra mergulhar/ topar subir num jatobá e ver o céu se aproximar/

Cada processo criativo desnuda-se de formas sutis e inusitadas na feitura do disco, Deh Mussulini nos diz: um apanhado de músicas que fiz sobre o universo feminino num viés mais existencial: o filho no ventre, campos santos de Dona Música, a paixão e o envelhecimento em Fé Menina.

10 sucessos da música infantil brasileira

“As Nações já tinham casa, máquina de fazer pano,
de fazer enxada, fuzil etc.
Foi uma criançada mexeu na tampa do vento
Isso que destelhou as Nações” Manoel de Barros

O universo infantil deu vários sucessos para a música brasileira

A música que versa sobre o universo infantil nem sempre é só para crianças, embora tenda a atendê-las. Ou seja, talvez, para a criança que teima em existir em cada um de nós. Afinal tudo na vida é feito para se ter alegria, voltar a brincar com a leveza e plenitude dos primeiros anos. Com essa intenção, muitos dos nossos cantores e compositores cravaram verdadeiros sucessos da música infantil brasileira no nosso imaginário popular, desde a década de 1940, passando pelos anos 1950, 1960 e assim por diante até os anos 2000. Com múltiplas abordagens, reafirmando o caráter diversificado da nação, passeamos ao sabor de Braguinha, Carequinha, Mamonas Assassinas, Os Trapalhões, Zacarias, Jô Soares, Adriana Partimpim e relembramos a infância.

Análise: 10 anos de Inhotim, museu reconecta arte à natureza

“A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.” Manoel de Barros

Inhotim é reconhecido como maior museu de arte a céu aberto da América Latina

Reconhecido como o maior museu de arte a céu aberto da América Latina, o instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, no interior de Minas Gerais, circula a sua, até aqui, exitosa trajetória ao comemorar 10 anos de história. Exitosa não apenas por que a efeméride é digna de aplausos, mas pelo fato de ter sabido construir, ao longo do tempo, um espaço de celebração da cultura quase sempre democrático. Além das exposições de arte contemporânea, principal cartão-postal do projeto conduzido pelo empresário Bernardo Paz, o instituto passou a produzir e oferecer também espetáculos de música, teatro, cinema, dança e a abrigar, inclusive, a literatura. Tudo isso, portanto, transformou o Inhotim em importante foco de debate e experiência cultural. Experiência esta, esteticamente, sempre ligada à natureza, verdadeiro diferencial da atração, para onde, de alguma forma, tudo converge, sempre. Obras célebres de Hélio Oiticica e Adriana Varejão têm por companhia tulipas, frondosas árvores e borboletas, além de uma infinidade de cantos de pássaros.

Análise: A herança das Carmen’s na música brasileira

“Teus lábios cor das papoilas,
Vermelhos como o carmim,
Não são lábios nem papoilas
São pedaços de cetim.” Florbela Espanca

Carmen Costa, Carmen Silva e Carmen Miranda, cantoras do Brasil

Com a morte de Carmen Silva encerra-se, ao menos em vida, a dinastia deste nome na música brasileira. A herança das três, no entanto, permanece, em seus diferentes espectros e singularidades. A mais conhecida delas, Carmen Miranda, representa também o maior número de paradoxos. Símbolo de brasilidade, nascida em Portugal, alçou o país à fama internacional ao se apresentar nos palcos e participar de filmes emblemáticos na terra do Tio Sam, os Estados Unidos da América.

Carmen Costa guarda mais semelhanças com a outra xará, exemplo o fato de ambas terem trabalhado como empregada doméstica, o que expõe também traço marcante da sociedade brasileira. Também participou de chanchadas nacionais e gravou sucessos carnavalescos, cujo mais expressivo continua sendo “Cachaça”, que tem entre seus compositores Mirabeau.

Crítica: reencontro dos “Novos Baianos” reforça vigor do discurso libertário

“Que independente disso, eu não passo
De um malandro, de um moleque do Brasil
Que peço e dou esmolas, mas ando e penso
Sempre com mais de um por isso ninguém
Vê minha sacola…” Luiz Galvão & Moraes Moreira

Novos Baianos se reencontram para nova turnê

Embora tenha demorado mais do que o esperado pelos fãs – afinal de contas a última reunião do grupo aconteceu no longínquo ano de 1999 e o espetáculo que estava programado para 22h do último sábado começou pouco depois das 23h – o tempo não esgarçou as criações dos “Novos Baianos”, ao contrário, provou que o viço e o frescor da juventude que clamava pelo amor livre ungido na atmosfera hippie que comungava casa, comida e canção permanecem com o vapor ligado a plenos pulmões. Parte do atraso pontual deveu-se à pouca habilidade da casa de espetáculos BH HALL na condução do evento, determinando a abertura dos portões pouco antes do horário marcado – ponto em que pessoas já se aglomeravam nas filas – quando a experiência prova que, se já há quem queira entrar, é de bom costume do anfitrião receber. A outra metade da longa e recompensada espera ocorreu pelo fato de Baby ter, nas últimas décadas, se dedicado exclusivamente ao repertório gospel e a vida religiosa. Por ironia, a ideia ganhou consistência justamente com sua volta aos palcos em 2013, ao comemorar seus 60 anos, e que desembocou em um DVD.

Análise: 80 anos de Rolando Boldrin, herói da memória nacional

“Êta país tão sinfônico
Que é da América, da América do Sul
Êta país biotônico
Que é do Jeca, do Jeca-Tatu” Rolando Boldrin

Rolando Boldrin apresenta o programa "Sr. Brasil"

Rolando Boldrin desmente duas máximas, uma brechtiana e outra tupiniquim. Pela ordem: “Infeliz a nação que precisa de heróis”; e “O Brasil é um país sem memória”. Rolando é o herói da memória nacional. Fácil provar a hipérbole. Contra a invasão de sertanejos pop, ele mantém, há mais de década no ar, pela valente TV Cultura, um programa de música caipira, não só na vestimenta, no sotaque, como, sobretudo, no espírito, na reverência aos ensinamentos dos simples, ao aprendizado empírico daqueles que creem acima de tudo “nos seus cinco sentidos, o testemunho os leve para onde for geralmente eles não têm medo”, para citar, desta vez com razão, mais uma frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Isto tudo porque Rolando não faz mais do que dar vazão e espaço a uma terra e, principalmente, a uma gente que ele conhece bem. Neste caso, tecer loas à tradição é provavelmente a maior ousadia de Boldrin.