Banda “Cordel e Prosa” encurta distâncias entre música e poesia

“- É tão bonito que voa!” Clarice Lispector

cordel-prosa

Se fores olhar no mapa é possível que percebas que as Minas Gerais e o estado de Pernambucano não são exatamente vizinhos. Porém em outras paragens a relação vai além da cordialidade, ou melhor, alcança o cordel. Essa literatura popular e tradicional praticada, sobretudo, no Recife e em outras cidades ao interior, mas, em especial, no nordeste brasileiro, conta e canta com o apoio da prosa mineira as canções apresentadas pela banda “Cordel e Prosa”. Foi na terra de Drummond, Sabino, Pellegrino, Rosa e outros contadores de nossa rica história inventada que nossos quatro cavaleiros do apocalipse, no caso, cinco, como os mosqueteiros que eram três e, em verdade, quatro, se reuniram. Caio Coutinho e Diego Oliveira tomam conta da percussão e entoam o coro, André Varogh, também percussionista, vale-se, ainda, de violão e voz, tal qual Heitor Negão, para que Marcelo Xeeu entregue todo seu canto e poesia ao público. É um exercício de grupo para o coletivo.

Caderno H2O – 27/05/2016

“O mundo está cheio de coisas engraçadas; quem se quiser distrair não precisa ir à Pasárgada do Bandeira, nem à minha Ilha do Nanja; não precisa sair de sua cidade, talvez nem da sua rua, nem da sua pessoa! (Somos engraçadíssimos, também, com tantas dúvidas, audácias, temores, ignorância, convicções…).” Cecília Meireles

Poema 4-1

Três tigres tristes
Há um romântico em cada um de nós.
Há um dramático.
E também um cômico.
Com freqüência o cômico passa a perna no romântico,
Que se estabaca no chão.
Ao que o dramático chora em cântaros.
Nesta hora o cômico lhe oferece um lenço.
O dramático enxuga o pranto,
Enquanto o romântico colhe flores.
Mal desconfiam os dois que do lenço sairá uma pomba,
E das enormes e amarelas flores um esguicho d’água.

Ginga da Capoeira no Brasil

“esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.” João Cabral de Melo Neto

Joga, luta e dança. Perna, braço e atabaque. Berimbau, Brasil e África. Da ponta do pé ao corte dos olhos. Madame Satã. Zumbi dos Palmares. Besouro, diabo. Lança por cima da cabeça, comprida, diáspora. Volta como bumerangue, chicote. Estala. Pandeiro, agogô, viola. Discípulo, mestre, canto das águas. Vem Janaína, rainha do Mar. Vem Iemanjá. Luta, dança e joga. Por cima, por baixo, por entre os escravos. Trazidos da África. Brasil, berimbau, atabaque. Perna, amuleto, braço. Capoeira cai fácil gaivota. Terras, palmeiras e sábia. Gorjeiam os pilares. Passo na areia, estilete, corta. Peito pra frente, tronco pra trás, a revolta. Palmeiras, palmares, madame. Besouro zumbi satã.

Caderno H2O – 20/05/2016

“O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.” Clarice Lispector

POEMA1

Bufa
A vida é muito grave mas não é séria.
A vida já existia antes da comédia.
A vida já existia antes da Tragédia.
A vida é Hollywood, Shakespeare e a Grécia.
A vida ergue sua saia e espia a greta.
A vida é pó de aranha e mel de abelha.
A vida é ópera bufa, canto da sereia.
A vida é uma ilusão, como um espelho.
Quem olha pra vida sério ela faz careta
A vida é muito grave, mas não é séria.

Entrevista: Agatha Almeida lança “Amordaça” para ninar gente grande

“Minha personagem me chama pelos corredores das folhas de papel
Ergue os dedos delicados
E é apenas quando ouço a voz de Vânia que permito-me escrever sem pensar que estou prestes a morrer

ou que hei de enlouquecer
e ceder a cada ruído ou aceno dissimulado” Agatha Almeida

agatha-almeida

Logo que teve o primeiro poema publicado, no jornal de Passos, cidade do interior de Minas Gerais, Agatha se sentiu picada pelo “bichinho literário”, pois, como nos lembra Ferreira Gullar, “a poesia nasce de repente e não faz barulho. Pode acontecer no meio da rua e ninguém vai perceber”. Passados 20 anos desde a estreia inevitável, ela reuniu coragem e recursos para lançar “Amordaça”, pela editora Benvinda, que virá oficialmente à luz no próximo dia 14 de maio no Café do Carmo, no bairro Sion, a partir das 16h. A escritora, porém, não nega as origens, e pensa no futuro de olho no passado. “Ainda muito jovem, por volta dos sete anos, escrevi uma poesia em comemoração ao ‘Dia do Soldado’. O texto foi escolhido por colegas e professores para ser publicado na Folha da Manhã, jornal passense, na época o principal jornal do município e região. Me lembro vividamente do prazer sentido em poder dividir a escrita com leitores do periódico na cidade. Desde então dedico muito do meu tempo a leitura e à escrita, e tenho muito prazer em fazê-lo”, sublinha Agatha.

Muito diferente da temática relativa à primeira experiência “Amordaça” traz, já no título, uma provocação. Enquanto no dicionário o sentido da palavra é descrito como “impedir de falar, de opinar, de manifestar-se”, é claro e confesso que Agatha Almeida tem intenção contrária. “Paradoxalmente, ‘Amordaça’ foi escrito para escancarar, berrar, esganiçar, escandalizar, ser lido”, explica em consonância com o espírito rebelde dos melhores poetas. Como se não bastasse, o livro, composto por poemas e minicontos, envereda por questões polêmicas da atualidade, especificamente a de gênero e dos relacionamentos. “Foi preciso escolher e reunir poesias previamente escritas e organizá-las para construir uma história maior, com direito a linearidade e personagens. Além disso, a criação de capítulos também fez parte do processo de criação. Falar sobre questões de gênero através das de autoria e relacionamentos me pareceu uma forma de unir os temas de meu interesse e que, enquanto autora, tenho prazer e facilidade em abordar”, conclui a poetisa.

Entrevista: Coletivo A.N.A. desnuda a obra de jovens autoras

“Olhos, orelhas, nariz,
Um gris
Celofane que não fendo.
Em minhas costas nuas

Sorrio, um buda, querendo
Tudo, desejos
Caem de mim como anéis
Abraçando suas luzes.” Sylvia Plath

Foto-de-Henrique-Boccelli

Elas são 8, mas podem se dividir em duas ou expandir, como nos mostra o belo ensaio fotográfico feito por Paula Huven, em que se refletem e multiplicam. Nesse caso, mais importante do que os números são as palavras, que na trajetória do Coletivo A.N.A preponderantemente vêm acompanhadas de sons, das quais elas fazem questão de serem as donas irrevogáveis. As vozes e letras em questão, além de habilidades instrumentais, pertencem a Irene Bertachini, Luana Aires, Michelle Andreazzi, Leopoldina, Luiza Brina, Laura Lopes, Leonora Weissmann e Deh Mussulini, de quem pinçamos a última informação. “Mesmo sendo um coletivo de compositoras, até hoje vejo demais as pessoas nos divulgando como um coletivo de cantoras”, ela aponta.

O erro, certamente, não ocorre apenas por lapsos, erros de digitação ou distração, é preciso abandonar a superfície da história para tentar compreendê-lo sob ótica um pouco mais apurada. Na ativa desde 2011, o grupo pioneiro de mulheres, cuja sigla significa Amostra Nua de Autoras, pretendia dar voz e espaço para criadoras mineiras com talentos em diversas áreas, dentre elas a música, a literatura e as artes plásticas, com profissionais da atuação artística e da produção. A primeira demonstração prática que pôde ser registrada aconteceu em julho de 2014, com o lançamento do CD “Ana”, que conta com 11 faixas, direção e produção de Rafael Martini, arranjos de Joana Queiroz, Aline Gonçalves, e outros, e participações de Ná Ozzetti, Déa Trancoso, e etc.

Análise: Naum Alves de Souza aderiu à arte sem limites

“O menino poisa a testa
e sonha dentro da noite quieta
da lâmpada apagada
com o mundo maravilhoso
que ele tirou do nada…” Jorge de Lima

Capa CircoMist:Digipack

Talvez nenhuma outra atividade do pensamento seja tão subjetiva, nem mesmo a física, mas há aqueles que levam a ferro e fogo a falta de limites da arte. Naum Alves de Souza foi dramaturgo, figurinista, cenógrafo, artista plástico e professor que estendeu suas habilidades sobre o balé, a ópera, a música, a televisão, o cinema e o teatro. De nome incomum, natural do interior de São Paulo, espantou proibições e foi capaz de provar a superação do conteúdo sobre a forma. Independente do suporte, de onde ou para quem estivessem seus trabalhos, o que fazia Naum era arte.

Ele está na capa, no figurino e no cenário do espetáculo “Falso Brilhante”, de Elis Regina; também lhe pertence a arte feita para o balé “O Grande Circo Místico”, com músicas de Edu Lobo e Chico Buarque inspiradas em poesia do alagoano Jorge de Lima; são dele os desenhos que ilustram o álbum; como se não bastasse dirigiu a peça “Suburbano Coração”, adaptou poemas de Adélia Prado para Fernanda Montenegro recitar e interpretar em “Dona Doida”, foi responsável pela direção artística do “Macunaíma” de Antunes Filho e criou a versão brasileira do boneco Garibaldo para a clássica Vila Sésamo.

Rosa dos Ventos

“O vento assovia de frio
nas ruas da minha cidade
enquanto a rosa-dos-ventos
eternamente despetala-se” Mario Quintana

rosa-dos-ventos

Centros culturais espalham-se no Brasil. Entre os espalhados, amontoados, aqueles que carregam no sobrenome a alcunha de favelados.

Centros culturais oferecem atividades que a escola deveria oferecer. Mas não há escola por aqui.

Pois se a escola muitas vezes deturpa, aqui deturpados são sem escola e sem oração.

Vemos aqui sujeitos no palco, da vida e do teatro. Sujeitos na pista, de dança e de corrida. Música para os ouvidos, mente e coração.
Tudo se une, se amontoa, espalha.

O palco invade a pista, que invade a cabeça que liga direto ao coração dos que assistem e participam.

É uma iniciativa fundamental para o país. Merece louros e aplausos. Surgida por conta da mais pura necessidade, da falta total, do abandono, da exclusão.