Entrevista: Coletivo A.N.A. desnuda a obra de jovens autoras

“Olhos, orelhas, nariz,
Um gris
Celofane que não fendo.
Em minhas costas nuas

Sorrio, um buda, querendo
Tudo, desejos
Caem de mim como anéis
Abraçando suas luzes.” Sylvia Plath

Foto-de-Henrique-Boccelli

Elas são 8, mas podem se dividir em duas ou expandir, como nos mostra o belo ensaio fotográfico feito por Paula Huven, em que se refletem e multiplicam. Nesse caso, mais importante do que os números são as palavras, que na trajetória do Coletivo A.N.A preponderantemente vêm acompanhadas de sons, das quais elas fazem questão de serem as donas irrevogáveis. As vozes e letras em questão, além de habilidades instrumentais, pertencem a Irene Bertachini, Luana Aires, Michelle Andreazzi, Leopoldina, Luiza Brina, Laura Lopes, Leonora Weissmann e Deh Mussulini, de quem pinçamos a última informação. “Mesmo sendo um coletivo de compositoras, até hoje vejo demais as pessoas nos divulgando como um coletivo de cantoras”, ela aponta.

O erro, certamente, não ocorre apenas por lapsos, erros de digitação ou distração, é preciso abandonar a superfície da história para tentar compreendê-lo sob ótica um pouco mais apurada. Na ativa desde 2011, o grupo pioneiro de mulheres, cuja sigla significa Amostra Nua de Autoras, pretendia dar voz e espaço para criadoras mineiras com talentos em diversas áreas, dentre elas a música, a literatura e as artes plásticas, com profissionais da atuação artística e da produção. A primeira demonstração prática que pôde ser registrada aconteceu em julho de 2014, com o lançamento do CD “Ana”, que conta com 11 faixas, direção e produção de Rafael Martini, arranjos de Joana Queiroz, Aline Gonçalves, e outros, e participações de Ná Ozzetti, Déa Trancoso, e etc.

Análise: Naum Alves de Souza aderiu à arte sem limites

“O menino poisa a testa
e sonha dentro da noite quieta
da lâmpada apagada
com o mundo maravilhoso
que ele tirou do nada…” Jorge de Lima

Capa CircoMist:Digipack

Talvez nenhuma outra atividade do pensamento seja tão subjetiva, nem mesmo a física, mas há aqueles que levam a ferro e fogo a falta de limites da arte. Naum Alves de Souza foi dramaturgo, figurinista, cenógrafo, artista plástico e professor que estendeu suas habilidades sobre o balé, a ópera, a música, a televisão, o cinema e o teatro. De nome incomum, natural do interior de São Paulo, espantou proibições e foi capaz de provar a superação do conteúdo sobre a forma. Independente do suporte, de onde ou para quem estivessem seus trabalhos, o que fazia Naum era arte.

Ele está na capa, no figurino e no cenário do espetáculo “Falso Brilhante”, de Elis Regina; também lhe pertence a arte feita para o balé “O Grande Circo Místico”, com músicas de Edu Lobo e Chico Buarque inspiradas em poesia do alagoano Jorge de Lima; são dele os desenhos que ilustram o álbum; como se não bastasse dirigiu a peça “Suburbano Coração”, adaptou poemas de Adélia Prado para Fernanda Montenegro recitar e interpretar em “Dona Doida”, foi responsável pela direção artística do “Macunaíma” de Antunes Filho e criou a versão brasileira do boneco Garibaldo para a clássica Vila Sésamo.

Rosa dos Ventos

“O vento assovia de frio
nas ruas da minha cidade
enquanto a rosa-dos-ventos
eternamente despetala-se” Mario Quintana

rosa-dos-ventos

Centros culturais espalham-se no Brasil. Entre os espalhados, amontoados, aqueles que carregam no sobrenome a alcunha de favelados.

Centros culturais oferecem atividades que a escola deveria oferecer. Mas não há escola por aqui.

Pois se a escola muitas vezes deturpa, aqui deturpados são sem escola e sem oração.

Vemos aqui sujeitos no palco, da vida e do teatro. Sujeitos na pista, de dança e de corrida. Música para os ouvidos, mente e coração.
Tudo se une, se amontoa, espalha.

O palco invade a pista, que invade a cabeça que liga direto ao coração dos que assistem e participam.

É uma iniciativa fundamental para o país. Merece louros e aplausos. Surgida por conta da mais pura necessidade, da falta total, do abandono, da exclusão.

Análise: Ana Cristina Cesar esboçava tentativa de vida pelas palavras

“o coração só constrói
decapitado
e mesmo então
os urubus
não comparecem;” Ana Cristina Cesar

ana-cristina-cesar

Em Ana Cristina Cesar o impacto precede, muitas das vezes, a compreensão. A força da palavra, seu poder de síntese, a sonoridade que provoca quando colocada ali naquele espaço, o choque. E é possível dizer que é em Ana Cristina Cesar e não exatamente em sua poesia, em sua prosa, nas cartas que transformou em obras de arte. Ana pratica uma espécie de aproximação distante. De se entregar sem se revelar. “Não se confessa os próprios sentimentos”, alude em uma das tantas passagens em que a biografia, o trânsito entre a primeira e a terceira pessoa, o olhar ora matreiro, ora melancólico, esboçam uma tentativa de vida através das palavras, da literatura.

Do ponto de vista estrutural Ana visava a desarticulações de padrões, à impressão de uma estética moderna, solta, sub-reptícia, propositadamente maculada, viva, em constante transformação e longe dos vícios “literários”. Ana Cristina Cesar é o oposto da pompa, da literatice, e consegue conjugar no mesmo movimento rigor e audácia, elegância e despojamento. Essa convivência com a tradição pode ser constatada no uso de expressões populares e ditados nos escritos de Ana, aos quais ela condecora com uma nova roupagem ou as despe insolentemente. A presença da ruptura, da fragmentação, vão ao encontro da palavra mais “sentida” do que “pensada”.

Fábula

“De um exílio passado entre a montanha e a ilha
Vendo o não ser da rocha e a extensão da praia.
De um esperar contínuo de navios e quilhas
Revendo a morte e o nascimento de umas vagas.
De assim tocar as coisas minuciosa e lenta
E nem mesmo na dor chegar a compreendê-las.
De saber o cavalo na montanha. E reclusa
Traduzir a dimensão aérea do seu flanco.
De amar como quem morre o que se fez poeta
E entender tão pouco seu corpo sob a pedra.
E de ter visto um dia uma criança velha
Cantando uma canção, desesperando,
É que não sei de mim. Corpo de terra.” Hilda Hilst

Pieta el greco

Conta um anjo que subiu ao céu e viu que Deus não existia. Deus não existia mesmo. Seu nome era Valquíria, e, como todos sabem, anjos não têm sexo. Valquíria experimentava um prazer inenarrável quando comia uma barra de chocolate. Era um dos momentos de maior felicidade da sua existência, quando mordia, indolente, aquele pedaço da barra de chocolate. Outra característica sua é que desejava “Felicidades Sempre”, mesmo sabendo que essa sentença era impossível, que se tratava de fábula. Valquíria iniciou sua vida indômita, até que se apaixonou por uma orquídea, e, a partir deste momento, estava presa ao universo das flores.

Apesar de ter descoberto, quando de sua ida ao céu, que Deus não existia, mantinha uma gratidão com essa imagem, essa impossibilidade do criador, uma espécie de gratidão obsoleta, obtusa, obstinada como são as esperanças, frutos do desamparo, da necessidade de acreditar em algo e do completo abandono, só acolhido no mundo das orquídeas, no universo das flores. De maneira oblíqua, Valquíria encarava esse Deus infundado. Um dia, quando se viu transformada em cavalo, quis relinchar, mas não havia som no universo das flores, e ela pisava enormes mananciais, donde escorriam dentes exangues.

Análise: 40 anos da morte de Pier Paolo Pasolini, a arte contra o poder

“O autor é um pobre idiota, um medíocre, vive no acaso e no risco, desonrado como uma criança. Reduziu sua vida à melancolia e ao ridículo de um ser que sobrevive degradado, sob a impressão de ter perdido alguma coisa para sempre.” Pier Paolo Pasolini

Pasolini

A morte de Pier Paolo Pasolini é indissociável à sua obra, pela maneira brutal e misteriosa com que foi assassinado. Considerado por muitos a mais influente personalidade italiana do século XX, e pelo crítico Harold Bloom o mais importante poeta europeu desse período, Pasolini, nascido em Bolonha, praticou todas as artes. Foi do teatro ao ensaio, e da atuação cinematográfica à direção, posto em que conquistou maior reconhecimento. Em todos, preponderou o estilo sarcástico, abusivo e a luta incansável contra o poder. Pasolini era um adorador do escândalo, em suas próprias palavras: “Eu penso que escandalizar seja um direito, e ficar escandalizado é um prazer e quem recusa o prazer de escandalizar é um moralista”, definia.

Portanto, não é de se espantar que Pasolini incomodasse a muitos, inclusive os que o admiravam, por procurar causar esse efeito, mas, sobretudo, àqueles contra os quais mirava sua arte. Crítico do capitalismo e da influência nefasta da Igreja Católica sobre a “moral e os bons costumes”, principalmente na Itália; anteviu a derrocada do gênero humano com o consumismo desenfreado que provocaria esse sistema político. Como se não bastasse, o diretor tinha uma elevada preocupação formal, da qual jamais abriu mão totalmente, o que o levou a ser taxado pelo hermetismo, mas também lhe valeu uma bonita metáfora, cunhada por um jornalista conterrâneo, que não deixava de exercer certa crítica: “Sua linguagem tem o efeito da luz do sol que atravessa a poeira, que é uma bela imagem, mas difícil de ser compreendida”.

Análise: 70 anos de Leila Diniz, mulher sem cortes

“Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
O mar é das gaivotas
E de quem sabe navegar.

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Porque não sabem que o mar
É de quem o sabe amar.” Leila Diniz

leila-diniz

Carlos Drummond de Andrade a homenageou em poesia. Martinho da Vila, Erasmo Carlos, Rita Lee, Elton Medeiros, Paulo César Pinheiro, Carlinhos Vergueiro e Taiguara o fizeram em canções. Milton Nascimento se valeu de um delicado poema de Leila para criar a música “Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”, título oriundo de frase da protagonista, que ajuda a entender um pouco de sua personalidade. Não bastasse isso, a histórica entrevista para “O Pasquim”, recheada de palavrões censurados e em que pregava, principalmente, o “amor livre” e a “liberdade sexual da mulher”, gerou uma enérgica reação do regime militar em vigência, e a censura prévia à imprensa ganhou, à boca pequena, o nome popular de “Decreto Leila Diniz”.

Caio Fernando Abreu: um retrato de sua vida e obra

“cheio de projetos e sonhos, molhado de amor por tudo, procurando a síntese.” Caio Fernando Abreu

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Caio Fernando Abreu costumava dizer que escrevia seus textos como lentes de aproximação, a partir de uma referência cinematográfica, um zoom que vai aos poucos revelando o que há por trás das aparências, por trás, inclusive, de todo lodo e de toda lama, já que, segundo ele mesmo, o que “há dentro de uma pessoa, está dentro de todas”. Não por acaso o escritor cuja obra se desvelou nas décadas de 1970, 1980 e 1990 é hoje uma referência do estilo, e já pode ser tratada como um clássico, tal como os ídolos Clarice Lispector, Virginia Woolf e a mentora exotérica e espiritual Hilda Hilst, entre outros. Abaixo, pequenos retratos e descrições de sua vida e obra.

Entrevista: O charme musical de Kícila Sá

“Pés, para quê os quero, se tenho asas para voar?” Frida Kahlo

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Se todo grande time começa com um bom goleiro, a busca de autenticidade começa pela assinatura, no que Kícila Sá não faz por menos. “Posso dizer que sou eu mesma. Quando escrevo, penso no que estou sentindo e como gostaria de me expressar. Pode ser algo do dia a dia, ou um ideal. Acredito que buscar a minha própria voz é uma auto-descoberta, pois a cada dia descubro que posso ser tantas e todas, mas que sou honesta quando sou eu mesma”, afirma. Cantora, atriz e compositora, a artista dispensa, por ora, a “dançarina”, apesar de se expressar no palco com desenvoltura e também posar para fotos com domínio de cena. Natural de Belo Horizonte, emerge no cenário independente da capital. Lançou o primeiro EP em 2012, e atualmente prepara tributo ao centenário de nascimento de Billie Holiday, ao lado de seis outras cantoras.

Esse e outros projetos fazem parte da agenda de Kícila Sá, que não dispensa o mistério. “Sem previsão de show no momento. Minha banda e eu vamos fazer uma imersão para trabalhar num projeto novo. É hora de parar de fazer show e focar. Quero lançar um disco em breve, mas ainda vou soltar na rede um clipe e um vídeo-poema. Estou gravando um curta-metragem com o diretor Ivo Costa que se chama ‘O Presente de Camila’, que deve sair no segundo semestre, e também fica pronto o longa-metragem ‘OTTO’, em que também participo como atriz. Tenho um show dia 28 de junho com o ‘Farside’, que é um projeto de música eletrônica, em que participo com o produtor Daniel Romano, o músico Gabriel Guedes e o baterista Rodrigo Carioca. Têm várias produções em andamento. Não vou contar tudo, pois muita coisa precisa ser finalizada”.

Análise: Fernando Brant colocou em versos sentimentos universais

“Um menino existe em nós, e isso nada tem a ver com idade. Um menino é aquele que fez o que eu fiz e continua fazendo. É aquele pedaço de vida que ama a bola, a lama e a brincadeira. Pratica o impossível e o perigoso, e nada sofre. É o altar em que adulto que se preze deve rezar diariamente.” Fernando Brant

Fernando-Brant

Tão célebre quanto o “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, de Tolstoi, ficou o “amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito”, “todo artista tem de ir aonde o povo está”, “sou do mundo, sou Minas Gerais”, e outras máximas propagadas por Fernando Brant, autor, em parcerias com Milton Nascimento, de músicas como “Travessia”, “Canção da América”, “Nos Bailes da Vida”, “Bola de meia, bola de gude”, “Aqui é o país do futebol”, e uma infinidade de outras que não perdem a qualidade pela quantidade.

Se o compositor tende a ficar à sombra de seu intérprete, Brant teve para iluminar suas palavras a voz e a melodia de Milton Nascimento e a entrega incomparável da maior cantora do Brasil, Elis Regina, além de inspirados encontros afetivos e musicais com Lô Borges e Geraldo Vianna. A associação entre música e sentimento, afeto e literatura, aliás, é uma constante em sua obra. A luta pelos direitos autorais e a atividade de cronista corroboram com a imagem do sujeito simples preocupado com seu tempo e os seus companheiros.