Centenários 2016: Manoel de Barros deu grandeza infantil à poesia

“Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar de flores. (…) Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!” Manoel de Barros

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Não é fácil falar de um poeta quando ele mesmo é a matéria prima de seu trabalho e costuma dominar como ninguém as palavras. Longe de ser o escritor “sem estilo” como Millôr Fernandes se autodenominou, Manoel de Barros atingiu em sua obra o estado que Clarice Lispector usou para se referir a pintores como Joan Miró e Pablo Picasso, “tornar-se puro”. Para ele a poesia era a “infância da língua”, o que o levou a constatar os absurdos e contradições da existência sem o obscurantismo e desilusão de um Franz Kafka ou de Samuel Beckett, mas a partir da curiosidade de quem descobre e sente através do susto uma grande excitação. A aparente ingenuidade que emana de suas criações emerge de uma complexa percepção inerente à tenra idade, desfeita de conceitos, tabus, morais, certezas e aberta para a dúvida e o espanto, universo onde tudo é possível e nada se proíbe, nem o sórdido nem o sublime.

Caderno H2O – 17/06/2016

“As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.” Manuel Bandeira

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Evolução da espécie
Agora eu entendo,
Quando olho no olho de um cachorro,
No compasso, na orelha, no rabinho abanando, na baba, na língua,
Toda aquela pureza,
De que você me falava e eu não via.
Agora eu entendo,
Que o cachorro é um bicho,
Sinto um troço, esquisito,
Pois sou bicho também,
Mas pareço um anfíbio.

Quando olho no olho de um cachorro,

Banda “Cordel e Prosa” encurta distâncias entre música e poesia

“- É tão bonito que voa!” Clarice Lispector

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Se fores olhar no mapa é possível que percebas que as Minas Gerais e o estado de Pernambucano não são exatamente vizinhos. Porém em outras paragens a relação vai além da cordialidade, ou melhor, alcança o cordel. Essa literatura popular e tradicional praticada, sobretudo, no Recife e em outras cidades ao interior, mas, em especial, no nordeste brasileiro, conta e canta com o apoio da prosa mineira as canções apresentadas pela banda “Cordel e Prosa”. Foi na terra de Drummond, Sabino, Pellegrino, Rosa e outros contadores de nossa rica história inventada que nossos quatro cavaleiros do apocalipse, no caso, cinco, como os mosqueteiros que eram três e, em verdade, quatro, se reuniram. Caio Coutinho e Diego Oliveira tomam conta da percussão e entoam o coro, André Varogh, também percussionista, vale-se, ainda, de violão e voz, tal qual Heitor Negão, para que Marcelo Xeeu entregue todo seu canto e poesia ao público. É um exercício de grupo para o coletivo.

Caderno H2O – 27/05/2016

“O mundo está cheio de coisas engraçadas; quem se quiser distrair não precisa ir à Pasárgada do Bandeira, nem à minha Ilha do Nanja; não precisa sair de sua cidade, talvez nem da sua rua, nem da sua pessoa! (Somos engraçadíssimos, também, com tantas dúvidas, audácias, temores, ignorância, convicções…).” Cecília Meireles

Poema 4-1

Três tigres tristes
Há um romântico em cada um de nós.
Há um dramático.
E também um cômico.
Com freqüência o cômico passa a perna no romântico,
Que se estabaca no chão.
Ao que o dramático chora em cântaros.
Nesta hora o cômico lhe oferece um lenço.
O dramático enxuga o pranto,
Enquanto o romântico colhe flores.
Mal desconfiam os dois que do lenço sairá uma pomba,
E das enormes e amarelas flores um esguicho d’água.

Ginga da Capoeira no Brasil

“esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.” João Cabral de Melo Neto

Joga, luta e dança. Perna, braço e atabaque. Berimbau, Brasil e África. Da ponta do pé ao corte dos olhos. Madame Satã. Zumbi dos Palmares. Besouro, diabo. Lança por cima da cabeça, comprida, diáspora. Volta como bumerangue, chicote. Estala. Pandeiro, agogô, viola. Discípulo, mestre, canto das águas. Vem Janaína, rainha do Mar. Vem Iemanjá. Luta, dança e joga. Por cima, por baixo, por entre os escravos. Trazidos da África. Brasil, berimbau, atabaque. Perna, amuleto, braço. Capoeira cai fácil gaivota. Terras, palmeiras e sábia. Gorjeiam os pilares. Passo na areia, estilete, corta. Peito pra frente, tronco pra trás, a revolta. Palmeiras, palmares, madame. Besouro zumbi satã.

Caderno H2O – 20/05/2016

“O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.” Clarice Lispector

POEMA1

Bufa
A vida é muito grave mas não é séria.
A vida já existia antes da comédia.
A vida já existia antes da Tragédia.
A vida é Hollywood, Shakespeare e a Grécia.
A vida ergue sua saia e espia a greta.
A vida é pó de aranha e mel de abelha.
A vida é ópera bufa, canto da sereia.
A vida é uma ilusão, como um espelho.
Quem olha pra vida sério ela faz careta
A vida é muito grave, mas não é séria.

Entrevista: Agatha Almeida lança “Amordaça” para ninar gente grande

“Minha personagem me chama pelos corredores das folhas de papel
Ergue os dedos delicados
E é apenas quando ouço a voz de Vânia que permito-me escrever sem pensar que estou prestes a morrer

ou que hei de enlouquecer
e ceder a cada ruído ou aceno dissimulado” Agatha Almeida

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Logo que teve o primeiro poema publicado, no jornal de Passos, cidade do interior de Minas Gerais, Agatha se sentiu picada pelo “bichinho literário”, pois, como nos lembra Ferreira Gullar, “a poesia nasce de repente e não faz barulho. Pode acontecer no meio da rua e ninguém vai perceber”. Passados 20 anos desde a estreia inevitável, ela reuniu coragem e recursos para lançar “Amordaça”, pela editora Benvinda, que virá oficialmente à luz no próximo dia 14 de maio no Café do Carmo, no bairro Sion, a partir das 16h. A escritora, porém, não nega as origens, e pensa no futuro de olho no passado. “Ainda muito jovem, por volta dos sete anos, escrevi uma poesia em comemoração ao ‘Dia do Soldado’. O texto foi escolhido por colegas e professores para ser publicado na Folha da Manhã, jornal passense, na época o principal jornal do município e região. Me lembro vividamente do prazer sentido em poder dividir a escrita com leitores do periódico na cidade. Desde então dedico muito do meu tempo a leitura e à escrita, e tenho muito prazer em fazê-lo”, sublinha Agatha.

Muito diferente da temática relativa à primeira experiência “Amordaça” traz, já no título, uma provocação. Enquanto no dicionário o sentido da palavra é descrito como “impedir de falar, de opinar, de manifestar-se”, é claro e confesso que Agatha Almeida tem intenção contrária. “Paradoxalmente, ‘Amordaça’ foi escrito para escancarar, berrar, esganiçar, escandalizar, ser lido”, explica em consonância com o espírito rebelde dos melhores poetas. Como se não bastasse, o livro, composto por poemas e minicontos, envereda por questões polêmicas da atualidade, especificamente a de gênero e dos relacionamentos. “Foi preciso escolher e reunir poesias previamente escritas e organizá-las para construir uma história maior, com direito a linearidade e personagens. Além disso, a criação de capítulos também fez parte do processo de criação. Falar sobre questões de gênero através das de autoria e relacionamentos me pareceu uma forma de unir os temas de meu interesse e que, enquanto autora, tenho prazer e facilidade em abordar”, conclui a poetisa.