Análise: Ícone da música negra Billy Paul falou com afeto aos corações

“tudo o que é amor suave e sentimento
e pejo pintarei de rosa e negro:” Jorge de Lima

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Quase quarenta anos depois do sucesso de “Me & Mrs. Jones”, Amy Winehouse deu a sua versão dos fatos. Inspirada pela canção trocou o gênero de senhora para senhor e, como sempre autobiográfica, desabafou sobre as desventuras e cicatrizes de sua vida amorosa. Além do título similar, o suingue e a influência da música negra marcam as duas canções. Porém, a diferença se mostra mais forte na audição. Billy Paul, intérprete do sucesso de 1972 envereda pela seara romântica e oferece um canto sutil e suave à trama, enquanto Amy não nega suas raízes blues e derrama roucamente toda a voz.

3 músicas brasileiras para o Dia do Trabalho

“O caminho do sábio é trabalho sem esforço.” Tao-Te-Ching

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Cantado em prosa em verso o trabalho que “dignifica o homem”, nas palavras do sociólogo Max Weber, recebeu de nossos compositores tratamento exemplar e como sempre bastante inventivo. Valendo-se da observação dos costumes, como autênticos cronistas, e conferindo a eles pitadas de ironia, irreverência e até romantismo, o tema foi tratado desde os tempos de Wilson Batista e Herivelto Martins até Chico Buarque de Hollanda, em sua exaltação ao malandro. Seja como for, as 3 músicas brasileiras listadas abaixo em homenagem ao Dia do Trabalho não deixam de revelar certa característica do nosso povo, que leva e trata o ofício como der e vier, das mais diversas formas.

Análise: Fernando Faro procurou a essência

“Alma é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora…” Rubem Alves

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Foi na ausência de Fernando Faro que Antônio Abujamra ganhou a incumbência de entrevistar Maysa para o programa “Estudos”, da TV Cultura, fortemente influenciado pelo mais que clássico “Ensaio”. “Baixo”, como era conhecido o sergipano de Aracaju criado em Salvador, na Bahia, teve uma reunião de última hora e passou o bastão para o âncora do também marcante “Provocações”. O resultado foi uma das mais fortes entrevistas já concedidas por uma artista, muito pelo temperamento de Maysa e o despojamento oferecido pela atração. Esse episódio, no entanto, em que a participação de Faro se deu em forma de ausência é fundamental na compreensão da ética e dos valores do jornalista que visava alcançar, sobretudo, a essência, o sentido.

Análise: Prince colocou os limites em debate

“já que a noite é um pasto livre, um campo ilimitado, já que a noite é riqueza por moldar, convém abrir na sua escuridão um túnel.” Virginia Woolf

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Se havia uma questão para Prince era a dos limites, ou, antes, da falta deles. Instrumentista completo apareceu no final da década de 1970 para o começo dos anos 1980 como um furacão, e assim permaneceu, lançando um álbum atrás do outro com sucesso de crítica e público. As referências eram várias e a comparação inevitável com Michael Jackson se daria tanto por esse viés quanto a questão da personalidade. Prince, porém, sempre teve uma postura mais proativa, provocadora e imprevisível, o que permite, para trazer ao terreiro nacional, recorrer a uma frase de Cazuza, dita em 1989: “Eu quero ser um Caetano Veloso, amado por uns e odiado por outros, não uma unanimidade como o Roberto Carlos”. Dispensável dizer quem seria Prince nessa história.

Análise: Rogério Duarte manteve princípios da Tropicália até o fim

“qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.” Torquato Neto

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Rogério Duarte foi uma dessas personagens periféricas da “Tropicália” à qual muitos não ligam o nome à arte. Muito embora sua contribuição tenha sido fundamental para o movimento. Músico e artista gráfico natural do interior baiano, Duarte foi responsável pela criação das capas de discos icônicos de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Jorge Mautner, os primeiros a esbanjar a estética psicodélica e colorida do tropicalismo. Mas não foi só isso, o sucesso o levou a ser chamado para o mesmo feito a serviço de Gal Costa, Jorge Benjor e o ídolo supremo de todos eles, um dos artífices da bossa nova, João Gilberto. No teatro, foi referência para o inventivo Zé Celso Martinez Corrêa.

Crítica: David Tavares expande territórios da música

“Açougueiro sem cãibra nos braços.
Acontece que não acredito em fatos,
magarefe agreste,
pego a posta do vivido,
talho, retalho, esfolo o fato nu e cru,
pimento, condimento,
povôo de especiarias,
fervento, asso ou frito,
até que tudo se figure fábula” Wally Salomão

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Jards Macalé já disse que “a carteira de identidade da música é a música”, e que não entende essa de “samba, bolero, rumba, tango, rock…”. Embora seja pontual na descrição dos estilos que percorre no álbum, “Nem tão rei, nem tão rato”, grafado em espanhol, o violonista David Tavares, natural de Guarapuava, no interior do Paraná, e residente na terra do Rei Filipe VI há quase 30 anos, atém-se aos ritmos mais na teoria do que na prática. Com sua natural inclinação para o virtuosismo, é de praxe, nesse disco, sermos primeiro apresentados à maneira clássica da canção que se inicia, para, num segundo momento, sofrermos o arrebatamento decorrente da inventividade criativa do artista. Assim, David expande os territórios da música sem precisar de bússola.

Entrevista: Chico Salem abre os braços para o mundo

“Pesa dentro de mim
o idioma que não fiz,
aquela língua sem fim
feita de ais e de aquis.
Era uma língua bonita,
música, mais que palavra” Paulo Leminski

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Chico Salem não chegou até aqui por acaso, sua história vem de berço, como a da maioria de nós, mas, no seu caso, já regada a música, e não apenas canções de ninar. “Isso me lembra que antes de falar eu já cantava algumas coisas. Lembro do meu pai tocando violão pra mim, Caetano, Gil e eu acompanhando com um ‘nanana’”, recorda. A influência decisiva veio também pelo lado materno. Sobre a primeira lembrança musical, não titubeia: “Minha mãe cantando para mim muito pequeno e eu cantarolando depois”. O músico se apresenta em Belo Horizonte no próximo dia 16 de abril, no Parque Municipal, em programação que faz parte do projeto cultural “Momentos Aymoré”, patrocinado pela fábrica de biscoitos. Já munido de novo repertório Chico receberá no palco o cantor Arnaldo Antunes, numa troca de posições, já que, ao longo da carreira, foi Salem que se acostumou a acompanhar o ex-titã.

Análise: Naum Alves de Souza aderiu à arte sem limites

“O menino poisa a testa
e sonha dentro da noite quieta
da lâmpada apagada
com o mundo maravilhoso
que ele tirou do nada…” Jorge de Lima

Capa CircoMist:Digipack

Talvez nenhuma outra atividade do pensamento seja tão subjetiva, nem mesmo a física, mas há aqueles que levam a ferro e fogo a falta de limites da arte. Naum Alves de Souza foi dramaturgo, figurinista, cenógrafo, artista plástico e professor que estendeu suas habilidades sobre o balé, a ópera, a música, a televisão, o cinema e o teatro. De nome incomum, natural do interior de São Paulo, espantou proibições e foi capaz de provar a superação do conteúdo sobre a forma. Independente do suporte, de onde ou para quem estivessem seus trabalhos, o que fazia Naum era arte.

Ele está na capa, no figurino e no cenário do espetáculo “Falso Brilhante”, de Elis Regina; também lhe pertence a arte feita para o balé “O Grande Circo Místico”, com músicas de Edu Lobo e Chico Buarque inspiradas em poesia do alagoano Jorge de Lima; são dele os desenhos que ilustram o álbum; como se não bastasse dirigiu a peça “Suburbano Coração”, adaptou poemas de Adélia Prado para Fernanda Montenegro recitar e interpretar em “Dona Doida”, foi responsável pela direção artística do “Macunaíma” de Antunes Filho e criou a versão brasileira do boneco Garibaldo para a clássica Vila Sésamo.

Crítica: Silvio Biondo cria clássicos ao unir tradição e modernidade

“Jovens de rosto impassível
na ribeira se desnudam,
aprendizes de Tobias,
também Merlins de cintura,
para aborrecer o peixe
em irônica pergunta
se ele quer flores de vinho
ou saltos de meia-lua.” García Lorca

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A identificação revela-se logo no primeiro momento, ou antes, no primeiro acorde. Acreditamos já conhecer aquelas músicas quando, na verdade, tratam-se de novidades criadas e apresentadas por Silvio Biondo que, ao unir a tradição à modernidade, nos apresenta estruturas que têm todos os componentes para se tornarem clássicos da canção popular brasileira, basta que a chance lhes seja dada. Músico de Santa Catarina, natural de Chapecó, mas residente em Curitiba, ele é acompanhado, neste trabalho de estreia em estúdio por Simone Mello ao violão, Marcelo Wengart na percussão e Glauco Sölter a cargo do baixo e da direção musical. Valderval de Oliveira Filho e Eron Barbosa adicionam suas percussões em algumas faixas. Todos irretocáveis.

Centenários 2016: Newton Teixeira representou a música brasileira de duas décadas

“A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol, num dourado sonho
Vai claridade buscar” Jorge Faraj & Newton Teixeira

Newton-Teixeira-musica

É da condição dos nossos compositores tornarem-se menos conhecidos que suas obras e mesmo os intérpretes delas. Também permanece na penumbra o motivo pelo qual Newton Teixeira supostamente fugia da polícia quando se encontrou com Sílvio Caldas numa noite de seresta. O bairro era a Vila Isabel, no Rio de Janeiro, reduto da boemia carioca que não podia deixar de contar com Noel Rosa, seu poeta, e outros bambas menos notórios, mas que foram fundamentais na consolidação do gênero mais arraigado à miscigenada raiz musical brasileira, o samba. Newton começou pelo estilo, mas se consagrou, sobretudo, pela marchinha “Mal me quer”, em parceria com Cristóvão de Alencar, gravada por Orlando Silva, e a valsa “Deusa da minha rua”, com Jorge Faraj, o maior sucesso de toda sua carreira, lançada pelo Caboclinho Querido.