O Violão Brasileiro por Lucas Telles

“Era um vale./De um lado/Seu verde, suas brancuras.
Do outro/Seus espaços de cor/Trigais e polpas
Azuladas de sol/Ensombradas de azul.
Era um vale./Deveria/Ter pastores/E água
E à tarde umas canções,/Alguns louvores.” Hilda Hilst

Lucas Telles apresenta o concerto "O Violão Brasileiro"

Lucas Telles não brinca em serviço. Ou melhor, brinca e faz do serviço uma obra artística, capaz de entreter e levar o espectador a estados de emoção e reflexão ao mesmo tempo. Para isto ele mune-se de seu violão, com o qual, aliás, já ganhou vários prêmios, entre e fora das Minas Gerais, mas também do repertório de nomes salutares ao nosso choro, um dos primeiros e mais autênticos estilos musicais desta terra descoberta por índios e oficializada por portugueses, quais sejam Garoto, Juarez Moreira, Cristóvão Bastos, Egberto Gismonti, Radamés Gnattali, além de criações do próprio protagonista.

3 músicas brasileiras para as Olimpíadas

“O homem
É o único animal que joga no bicho.” Murilo Mendes

Moreira, Elis e Trio Irakitan cantam músicas olímpicas

De quatro em quatro anos o mundo volta os olhos para mais um ciclo olímpico, a mais antiga e tradicional disputa envolvendo diversas modalidades esportivas. Em 2016, pela primeira vez na história as Olimpíadas são disputadas no Brasil, com sede na cidade do Rio de Janeiro. Com bom humor e muito ritmo, unindo a inventividade brasileira à sua típica diversidade, elaboramos uma lista com 3 músicas nacionais apropriadas para essas Olimpíadas, pelos mais variados motivos, mas sempre levando em conta alguma alusão, mesmo que simbólica, aos esportes. Abram alas para desfilarem as vozes de Elis Regina, Moreira da Silva, Trio Irakitan e seus respectivos compositores, por certo haverá medalha de ouro, prata e bronze.

10 músicas brasileiras para os pais

“Ah, o pai! O pai vaquejava e vaquejava.
Ele tinha um olhar soberbo de ave.
E nos ensinava a liberdade.” Manoel de Barros

Caetano, Mautner, Rita Lee, Gil e Luiz Gonzagão compuseram músicas sobre pais

Com a proximidade da celebração do “Dia dos Pais”, vêm à memória canções que de uma forma ou de outra citam a figura paterna, tão fundamental na vida e na criação de várias crianças que hoje se tornaram adultas e que, talvez, passem a assumir esse papel daqui por diante. A canção brasileira é pródiga não só em ritmo, gênero, como também em temas, e por isso concede aos pais os mais variados tipos de interpretações e abordagens. Seja através da pena sangrenta de Lupicínio Rodrigues, o deboche presente nas marchinhas cantadas por Blecaute ou na dolente homenagem de Caetano Veloso a texto de Guimarães Rosa, o pai assume sua nobre vocação musical: de emocionar…

Análise: 80 anos de Tom Zé, o mais tropical dos tropicalistas

“Os vossos braços cruzados formam uma gigantesca corrente de aço (polida com sabonetes e aromatizada com perfumes importados) que tenta aprisionar meu pensamento. Os vossos olhos vidrados de múmias vivas formam um grande espelho mentiroso, que tenta retratar-me como um delinquente. Os versos musicados são o meio pelo qual eu vos devolvo a imagem.” Tom Zé

Tom Zé segue como o mais tropical dos tropicalistas

Quando David Byrne redescobriu Tom Zé numa loja de sebos pouca gente desconfiava que ali estavam presentes dois dos princípios básicos do “Tropicalismo”. Além da confluência entre nações a sofisticada obra do baiano encontrava-se no mais popular dos espaços. A tardia aclamação não impediu o compositor de canções tornadas clássicas como “Augusta, Angélica e Consolação”, “Menina, Amanhã de Manhã (O Sonho Voltou)” e “Tô” de revelar-se como o mais persistente proclamador dos princípios tropicalistas. Sempre, também, o mais tropical de todos eles, tanto na postura quanto nas vestimentas, reforçando o caráter performático das apresentações daquele que se diz “cantor que não sabe cantar, instrumentista que não sabe tocar e compositor que não sabe compor”, ao sublinhar a transformação das próprias misérias e precariedades em fonte de inspiração e motor criativo. De fato, o baiano nunca foi comum e muito menos “figurinha fácil” no contexto nacional.

6 músicas feministas de Rita Lee

“Nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem” Rita Lee & Zélia Duncan

Rita Lee escreveu canções de teor feminista

Não é de hoje que as mulheres bradam na música brasileira. O clamor pela igualdade e contra práticas abusivas vem de tempos remotos até os mais atuais. Ícones da cultura nacional influenciam e influenciaram nossas compositoras, como Leila Diniz, Elvira Pagã, Pagu e Luz Del Fuego, além de histórias cotidianas vividas por anônimas com as quais muitas se identificam; é o caso da “Maria da Vila Matilde” cantada por Elza Soares. Em verso, prosa e muito ritmo selecionamos 6 músicas feministas compostas por ninguém mais e ninguém menos do que Rita Lee, algumas das quais interpretadas por ela, e outras emprestadas a outras intérpretes que deram todo o charme às canções.

Análise: 80 anos de Agnaldo Timóteo, performance do tamanho da voz

“Ai que vontade de gritar,
Seu nome bem alto e no infinito,
Dizer que o meu amor é grande,
Bem maior do que meu próprio grito” Roberto Carlos & Erasmo Carlos

Cantor Agnaldo Timóteo completa 80 anos em 2016

Agnaldo Timóteo é descendente direto de Nelson Gonçalves, Francisco Alves, Cauby Peixoto, Vicente Celestino, Carlos Galhardo e Silvio Caldas, entre tantos outros, embora nenhum deles tenha nascido no interior das Minas Gerais, em Caratinga. Pertence à linhagem de Altemar Dutra, Nelson Ned, Wando, estes sim seus contemporâneos e conterrâneos de terras mineiras, embora o último sem a força e extensão vocal dos demais, mas listado entre os propagadores da música romântica que, em seu período auge de atuação, provavelmente pelo inconformismo dos que não obtinham os mesmos números de vendagem, foram pejorativamente taxados como “cafonas”, e, mais tarde, “bregas”. A primeira expressão, inclusive, teria sido fortemente divulgada pelo irreverente Carlos Imperial, segundo palavras do próprio Agnaldo Timóteo, cuja voz límpida, clara e potente ainda ecoa. Lá se vão 80 anos de polêmica existência.

Crítica: “MY NAME IS NOW” explora impacto imagético da voz de Elza Soares

“O ritual sincopado das gargantas
Tinha o ruído oco de umas águas
Deitadas bem de leve em algum cântaro.
Todo o espaço se enchia desse canto
E atraía umas aves, outras tantas.” Hilda Hilst

My Name Is Now, Elza Soares.

Um dos diferenciais do documentário dirigido por Elizabete Martins Campos em reverência a Elza Soares é que cabe à cantora conduzir a própria história através das palavras, cantadas ou faladas, às quais se acoplam imagens selecionadas pela equipe que tornam ainda mais vigorosos os discursos. Esse é um dos trunfos, mas não é o único. O roteiro, escrito a quatro mãos por Elizabete e Ricardo Alves Jr., longe de ser cronológico, tampouco procura tornar hermética personagem tão popular. E há os recursos cênicos em favor da história. Elza, de frente para um espelho, permite-se captar e absorver na intimidade, ultrapassando formalidades e superfícies, mesmo, e paradoxalmente, quando elabora e oferece uma performance de si, dando ao espectador a possibilidade de apreender características como a vaidade, a carência e a solidão, além das supracitadas força, determinação e coragem.

Crítica: Eduardo Dussek domina palco e plateia com repertório misto

“Nada acabará, grita o matagal!
Nada ainda começou…” Eduardo Dussek & Luiz Carlos Góes

eduardo-dussek

Formado pela escola do teatro “besteirol” na década de 1980, Eduardo Dussek recusa-se a revelar a idade, “algo entre os 50 e a morte”, debocha, figura de linguagem com a qual se esbalda e cativa o público que assistiu à apresentação do artista na sala Juvenal Dias, pertencente ao Palácio das Artes, como encerramento do 2º Inverno das Artes, na última segunda-feira. Com a mistura característica de humor e música, e pleno domínio tanto do instrumento, um luxuoso piano de cauda, das obras e até das reações do público, com trajetória calcada na irreverência que lhe aperfeiçoou, inclusive, o dom do improviso, Dussek presenteou os fãs também com um repertório misto, indo com desenvoltura do romantismo ao escracho, ou, como gosta de dizer, as “baixarias”. Em comemoração aos 40 anos de carreira, desfilou sucessos em versões renovadas, como “Rock da Cachorra”, ao estilo bossa nova, e “Cantando no Chuveiro”, interpretada em inglês. Não faltaram piadas e sátiras.

Entrevista: Cátia de França apresenta seu caleidoscópio multicolorido

“À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.” Cecília Meireles

Cátia de França3_Mariana Kreischer

Se para o artista a definição é um limite, deste mal Cátia de França não padece. Na estrada, literalmente, há praticamente 40 anos, embora sempre retorne às origens, na Paraíba, em João Pessoa e seguindo a tradição lírica dos maiores prosadores e poetas de sua terra de palmeiras onde canta o sabiá, a cantora, compositora, escritora, artista plástica, com bem aventuranças pela sétima arte, une o regionalismo ao universal mantendo a essência de seu trabalho. Para este ano, prepara novidades, depois de algum tempo longe das estantes fonográficas. A música que nomeia o novo e aguardado álbum, “Hóspede da Natureza”, como de costume, carrega influências literárias. “A identidade do disco é múltipla. A veia aorta é Henry David Thoreau, a letra da canção-título veio diretamente do livro dele, ‘Walden ou, A Vida nos Bosques’ (de 1847, considerada a bíblia do movimento hippie). Mas nem todas as faixas são preocupadas com ecologia. É um apanhado de quem sou eu nesse tempo todo de careira. É um olhar que passeia por diversas circunstâncias, é como se fosse uma foto minha, feita de vários ângulos”, compara com sabedoria, Cátia.

Com lançamento feito pelo selo Porangareté, iniciativa do filho e da ex-companheira de Cássia Eller, Maria Eugênia, em parceria com a Natura Musical, o disco teve um longo processo de gestação, com gravações iniciadas no ano de 2005 e finalizadas em 2006, há quase dez anos atrás. Toda essa demora foi também fruto da falta de apoio e incentivo ao projeto que, agora, segundo Cátia, recebe as “condições à altura do que merecia”. Uma turnê já está programada por regiões do país em que a entrevistada morou e fez história, como Recife, João Pessoa, sua terra natal, Vitória no Espírito Santo, e as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro. O novo álbum conta com 14 faixas, quase todas inéditas, e traz no currículo a produção de Rodrigo Garcia, além de músicos de peso acompanhando a cantora que é também instrumentista, tais como Marcelo Bernardes (integrante de longa data da banda de Chico Buarque), a percussionista Lan Lan, o guitarrista Walter Villaça e outros não menos importantes, como o baterista Alex Merlino, Jander Ribeiro, responsável pela pandeirola, Zé Marcos nos teclados, e, por fim, Nando Vásques no baixo.

Centenários 2016: O Samba, Raiz Cultural do Brasil

“O Samba da minha terra deixa a gente mole/Quando se canta todo mundo bole
Quem não gosta de samba, bom sujeito não é/É ruim da cabeça, ou doente do pé
Eu nasci com o samba, no samba me criei/E do danado do samba, nunca me separei” Dorival Caymmi

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O samba já começou com um buchicho, pois ao contrário do que cantaria décadas depois a música de Evaldo Rui e Fernando Lobo sobre a tal “Nega Maluca”, todos se imputavam a paternidade da cria. Do estribilho para o muxoxo foi um passo, tudo porque a canção cantada aos milhares no terreiro de Tia Ciata foi registrada somente no nome de um par: Donga e Mauro de Almeida. Bem verdade que o segundo nunca fez muita questão do fato, ao contrário do primeiro. “Pelo Telefone”, gravada em dezembro de 1916 e lançada em disco Odeon recebeu assim a voz do cantor Bahiano e da Banda da Casa Edison. Tal como o samba que inaugurava morreu, ressuscitou e requebrou em diversas vozes, em períodos e com abordagens das mais variadas. Ainda naquela década teve por “cavalo” Almirante, e mais tarde nomes como Martinho da Vila, Beth Carvalho, Chico Buarque e Paulo Moura.